OLHARES SOBRE JOVENS

Abril 2015 - Jovens e futuro no Norte de África

 

'Não posso ser como ele'. Jovens e futuro no Norte de África

Francesco Vacchiano (ICS-ULisboa)

Mānqdārsh nkūn bhālū: 'não posso ser como ele'. A primeira vez que ouvi estas palavras fiquei surpreendido e pensei que tinha compreendido mal. Estava a tomar um chá com Hamīd, um rapaz de 20 anos, nos arredores duma cidade de dimensão média do interior de Marrocos, bem conhecida pela intensa emigração para Europa, e ele estava a falar-me do seu futuro, da sua família, e, em particular, do seu pai. O pai em Marrocos é normalmente representado como uma autoridade no seio da família, uma figura conotada, na retórica dos discursos socialmente aceites, com autoridade e prestígio. É verdade que a literatura marroquina pós-colonial (sobretudo aquela produzida em língua francesa) tem-se empenhado intensamente na crítica desta narrativa, através de textos que retratam o pai como uma figura cada vez mais empobrecida e precária1. Contudo, essas obras são reservadas a um público culto e consideradas – frequentemente inclusive pelos próprios autores – como provocações.

Até aquele momento (Outono de 2006) só tinha ouvido rapazes falarem do pai em termos elogiosos, enquanto modelo de moralidade e de comportamento, de forma muitas vezes redundante, e mesmo quando as suas experiencias de relacionamento com eles contradiziam manifestamente as suas palavras. Era evidente que isto era devido principalmente a uma prática socialmente prescrita, a mesma que foi em parte discutida e argumentada por Abdellah Hammoudi na sua reflexão sobre as formas históricas do poder e da autoridade na África do Norte (Hammoudi, 2001). Porém, mesmo assim, ouvir pronunciar com tanta convicção uma referência direta à necessidade de 'ser diferente' parecia-me algo extremamente relevante.

O que é que queria dizer Hamīd? O rapaz falava da dificuldade de 'realizar os próprios sonhos' no Marrocos de hoje, onde só encontram trabalho 'os que têm um Ben-algo no nome'2 e onde os filhos das classes populares, dizia ele, desejam algo diferente daquilo que obtiveram (ou, mais frequentemente, não obtiveram) os próprios pais. Particularmente, sublinhava Hamīd com uma considerável consciência histórica, o hiato entre as formas e os estilos de vida próprios da sua família e as aspirações dos jovens 'de hoje' no que diz respeito a uma vida considerada 'digna' de acordo com os cânones contemporâneos de sucesso e de realização pessoal. Se por um lado esta sensação de irredutível singularidade – frequentemente condensada na ideia de ser mais 'moderno' – é provavelmente um traço comum da experiencia da juventude em muitas épocas e lugares, pelo outro é inegável que o tempo presente é marcado por uma rutura significativa no que respeita à direção onde olhar para construir identidades e aspirações. Um tempo em que, como Charles Piot tem vindo a observar, 'os futuros estão a substituir o passado como repositórios culturais' (Piot, 2010, p.16).

Um tema recorrente no meu trabalho de terreno em países como Marrocos e Tunísia está relacionado com a frustração constante manifestada pelos jovens das classes populares no que respeita as suas possibilidades de realização pessoal. Nomeadamente, eles descrevem-se como 'suspensos' numa sociedade competitiva em que os recursos pessoais e familiares parecem constantemente insuficientes e inadequados (Vacchiano, 2012; Vacchiano, 2014b). As palavras de Hamīd, e de muitos dos seus congéneres, sublinham a distância percecionada entre as possibilidades que lhes estão reservadas e a realidade de um mundo que funciona a outra velocidade, um mundo do qual eles fazem parte, mas como sujeitos constantemente 'defectivos' e 'em perda'.

As dificuldades de inserção social dos jovens dos países do Norte de África são insistentemente sublinhadas por muitos dos autores que têm trabalhado neste contexto. Segundo Gargash e Wolfenson 'demasiadas vidas de jovens [...] estão bloqueadas num estado de dependência frustrada das famílias ou dos governos': 'a qualidade da educação na região é frequentemente baixa, deixando os jovens impreparados para a competição na economia global. Os jovens à procura de trabalho encontram altas taxas de desemprego e longos períodos de espera antes de encontrar um trabalho. [...] [Eles] não conseguem obter suficientes recursos para casar, formar uma família ou ter uma vida independente' (Gargash and Wolfenson, 2009, p.3).

Esta imagem é reforçada por Dhillon e Yousef, que observam como no 'Médio Oriente' (uma categoria ampla na qual incluem o Norte de África) 'os sistemas educativos estão a falhar na oferta de formação de competências relevantes e as perspectivas dos jovens trabalhadores no mercado do trabalho estão-se a deteriorar. As mulheres jovens acedem a uma educação melhor, mas experienciam uma ampla exclusão do mundo do trabalho. Em alguns países, o casamento retardado torna-se um fenómeno comum, pois os jovens encontram obstáculos à formação da família devidos ao desemprego, aos elevados custos do casamento e à falta de uma habitação acessível' (Dhillon and Yousef, 2009, p.10). Apesar de reconhecer estas dificuldades, eles constatam que estas dinâmicas afetam algumas categorias mais do que outras e que o género, bem como o nível social das famílias, têm um peso relevante.























Além disso, estes autores identificam três elementos associados que, pela sua ausência, contribuem para perpetuar esta 'transição suspensa para a idade adulta': (1) uma educação de qualidade, (2) um trabalho apropriado e (3) os meios para formar uma família. Esta dimensão de suspensão, marcada por uma espera indefinida e prolongada – uma condição que outros autores no mesmo livro definem como 'waithood' (Assaad et al., 2009) – é a principal matriz duma frustração que floresce nas pregas dum quotidiano repetitivo e desesperante, descrito por palavras como qant, malāl, faragh3, e por expressões como 'mākāyn māddār', não há nada a/para fazer.

Diane Singerman utiliza o mesmo conceito como uma síntese eficaz da ideia de 'wait adulthood': um 'estado liminar' em que 'os jovens mantêm-se economicamente dependentes das famílias [...] por muito mais tempo do que as gerações anteriores, tendo de viver conforme as regras e a moralidade dos pais e dos valores dominantes da sociedade (Singerman, 2007, p.6). Na sua análise, com a qual dialogam muitos autores, as consequências do acesso tardio ao casamento incidem, entre outras coisas, sobre a experiência da sexualidade, que é ou protelada ou vivida de forma transgressiva e escondida. De facto, se a constituição da família continua a representar o momento central de definição do estatuto pessoal na sociedade, a sua ausência é vivida como um fracasso e uma ferida que alimenta a frustração, sobretudo num panorama social em que 'instituições alternativas não são iminentes' (Murphy, 2012, p.11).

Se segundo Bourdieu a experiencia contemporânea da juventude é constitucionalmente definida pela sua 'mise hors-jeu symbolique' (Bourdieu, 1984), o conceito de 'waithood' – reutilizado amplamente também por Honwana (Honwana, 2012; Honwana, 2013) – implica uma extensão indefinida da passagem à condição adulta, numa transição inacabada onde os sentimentos de frustração se amplificam na comparação com os padrões de sucesso hegemónicos a nível global (Vacchiano, 2014a). A evidência da própria exclusão é tão forte que não é necessário ter dela uma experiencia direta: segundo Emma Murphy, 'a juventude é uma narrativa do fracasso do sistema, das suas práticas de exclusão, da sua inabilidade em reconciliar os valores sociais tradicionais e as realidades da modernidade' (Murphy, 2012, p.15).

De facto, esta condição tem uma correspondência numa economia política da transformação social em que coexistem sistemas de relação e de construção subjetiva diferentes. Seguindo a reflexão proposta por Dhillon, Dyer e Yousef, observamos como três diferentes 'formas de vida' se sobrepõem hoje nas sociedades do 'Médio Oriente': uma forma de vida 'tradicional', mais típica das áreas rurais, em que os indivíduos passam rapidamente da infância para a condição de adultos graças à mediação direta da família, assumindo responsabilidades que se definem dentro da comunidade de origem, com baixos ou mesmo nulos graus de autonomia e poucas possibilidades de diferenciação; uma forma de vida produzida dentro do 'Estado Providência' pós-colonial, em que as estruturas do sector público (e nomeadamente as que proveem formação e trabalho) constituem as principais instituições de mediação da transição; e uma forma de vida 'pós-welfare' (neoliberal), em que a transição para a vida adulta é associada à aquisição de competências complexas num mundo de informações plurais e divergentes e de relações instáveis, um mundo em que as referências do passado 'tradicional' se revelam inadequadas, como o discurso de Hamīd nos parece recordar.

Nestas novas sociedades 'pós-sociais', a maior diferença sente-se no acesso aos recursos de competências e conhecimento, isto é aos instrumentos que definem as possibilidades de mobilidade social e espacial quando essas não são proporcionadas à partida pela própria posição social. Contudo, esses são justamente os recursos mais desigualmente distribuídos em contextos onde, apesar dos esforços significativos, a qualidade da educação permanece um problema relevante e um fator crítico de discriminação social.

A consciência desta desigualdade nutre uma 'narrativa geracional da impaciência' (Murphy, 2012, p.18) que acaba por gerar um poderoso desejo de resgate e uma revindicação de diferença que assume formas particulares: por um lado, ser reconhecido como titular de uma cidadania de ordem global, uma condição que determina um estatuto 'digno' e 'aceitável' conforme os parâmetros contemporâneos de bem-estar; pelo outro lado, poder ser identificado, e identificar-se, como 'adulto' segundo os critérios sociais e as formas de identificação de género prescritas ao nível local.

Esta revindicação cumpre-se de formas diferentes, segundo as possibilidades e as ocasiões oferecidas pela própria posição social. Nas classes desfavorecidas do Norte de África, a migração costuma ser vista como uma das vias mais atraentes. No imaginário ligado à migração, a ambicionada passagem da espera ao movimento, da invisibilidade à responsabilidade, da indiferenciação à presença, da infância à vida adulta cumpre-se de forma rápida e definitiva. Além disso, como consequência do novo estatuto, o indivíduo protagoniza a sua própria transformação em sujeito sexuado ('homem' ou 'mulher'), com as responsabilidades (ambíguas) que daqui derivam.

A questão da construção do género mereceria ser especialmente aprofundada, nomeadamente nos processos de migração chamada irregular ou clandestina, mas não faz parte dos objetivos destas notas. Basta aqui observar que, se o percurso migratório é considerado uma alternativa plausível, quer por rapazes quer por raparigas, as modalidades em que o processo se cumpre são profundamente ancoradas às formas comuns de 'prescrever o género' nos contextos sociais de pertença, embora a migração permita às vezes negociar alguns desses padrões.

No processo migratório a atrás referida transição interrompida resolve-se numa passagem rápida e pontual – às vezes é definida como qte' t-treq, 'atalho' – para uma condição que incorpora a mobilidade e as suas virtudes imaginárias e reais. Se essa corresponde sem dúvida a uma resposta à perceção da ausência de alternativas, o facto de ela tornar-se recurso para uma 'multidão' de sujeitos pontuais, reconfigura o movimento (frequentemente integrado nos percursos da migração chamada 'irregular') em forma de subtração e 'arte da resistência' (Scott, 1990), ou seja, como facto 'semi-politico'.
























Nos últimos anos, todavia, uma parte significativa - e visível - dos jovens tem dado voz ao desejo de mudança por meio de uma forma de participação que, se não é completamente nova, contêm pelo menos alguns elementos originais. Os eventos subsequentes à auto-imolação de Mohammed Al-Bu'Azizi na Tunísia – um jovem cujo percurso de vida é emblemático da condição acima ilustrada – e a onda de revoltas que sacudiu os países árabes em 2011 viram a participação das gerações mais novas entre os seus atores principais. Em alguns casos, como no Egito, o motor da mobilização foi constituído inicialmente por grupos de ativistas (de qualquer forma maioritariamente jovens) com experiências de educação política e, por vezes, de repressão direta no passado. Não obstante, a adesão geral foi imediata e assumiu rapidamente proporções antes impensáveis devido à ampla identificação com as razões dos protestos e com os seus protagonistas. O termo mais comum para definir os manifestantes durante aqueles dias e em países diferentes – 'shabāb' (jovens) – é bem representativo desta dinâmica.

Ainda mais representativas, aliás, são as palavras-chave através das quais as expectativas dos jovens se expressaram durante os protestos: a ideia de 'liberdade' (ħurriya), um conceito eminentemente político que ressoa com o desejo de autonomia e independência individual conjuga-se com a revindicação de 'justiça social' ('adāla ijtima'iyya) para reclamar o direito a recuperar a 'dignidade' (karāma) socialmente ferida. Nestas noções, o desejo de reconhecimento e realização individual articula-se com um discurso sobre a sociedade – e nomeadamente sobre uma sociedade mais igualitária – tornando-se propriamente político.

Se a forma que assumem estas revindicações ilustra de forma evidente a descontinuidade com o passado recente, a mobilização da chamada 'revolta árabe' articula instâncias e motivações que a migração massiva dos anos precedentes já tinha posto amplamente em evidência. Neste sentido é interessante observar, contrariando a clássica oposição de Albert Hirschman entre 'exit' e 'voice' como respostas opostas à crise (Hirschman, 1970), a continuidade entre a ideia de justiça social e a possibilidade de esta integrar várias possibilidades de realização. A partida massiva dos jovens tunisinos durante a revolução, em alguns casos passando literalmente das manifestações para os barcos, parece confirmar esta ideia. Nas palavras de muitos deles, a possibilidade de ir para a Europa, naqueles dias, era representada como a forma mais completa de expressão da liberdade recentemente conquistada. Como que a dizer que o desejo de uma sociedade mais justa coincide com a possibilidade de se 'ser do mundo', ocupando uma posição que é análoga à dos outros jovens da época global.























Neste sentido, o facto que parece ser algo novo na chamada 'primavera árabe' é que os jovens implicados na revolta podem afirmar a sua 'presença' através de uma linguagem que ultrapassa os limites dos clássicos discursos centrados na identidade e na nação (retóricas habilmente dominadas pelas elites pós-coloniais). As suas palavras são construídas numa gramática que é ao mesmo tempo local e global e exprimem-se através das clássicas fronteiras étnicas, religiosas ou nacionais. Não por acaso acabam por ecoar em outras ruas do Mediterrâneo inspirando, também ali, outros movimentos juvenis.

É difícil prever o futuro e já sabemos que, em muitos países, o sentido destas revoltas já está a ser amplamente (e autoritariamente) redirecionado.  Contudo, acompanhamos com curiosidade a reflexão de Hamid Dabashi (2012), que propõe para a 'primavera árabe' um sentido histórico novo e intrigante: algo que 'transporta' os seus protagonistas para além dos becos estreitos onde a revindicações pós-coloniais têm encalhado. Deixando entrever, com o 'fim do pós-colonialismo' também a possibilidade de ler e fazer, finalmente, uma história comum dos subordinados das duas margens do Mediterrâneo.


Notas:

1 Analiso esta linha literária em Vacchiano, 2010.

2 Literalmente 'filho de': nasab (patronímico) da nomeação tradicional, hoje incorporado nos nomes de família. Em Marrocos, 'os Ben-algo' é utilizado para falar de famílias poderosas e abastadas, frequentemente de origem fāssī (de Fez). Muito significativamente, o uso do conceito é um jogo de palavras que conjuga a referência a famílias realmente existentes com a própria ideia de filiação.

3'Desespero', 'aborrecimento', 'vazio'.



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Referencias:

Assaad, R., Barsoum, G., Cupito, E., Egel, D. (2009) Addressing Yemen's Twin Deficits: Human Development and Natural Resources. In N. Dhillon & T. Yousef, eds. Generation in Waiting: The Unfulfilled Promise of Young People in the Middle East. Washington DC: Brookings Institution Press.

Bourdieu, P. (1984) La jeunesse n'est qu'un mot. In Questions de sociologie. Paris: Editions du Minuit.

Dabashi, H. (2012) The Arab spring: the end of postcolonialism. London; New York; New York: Zed Books ; Distributed in the USA exclusively by Palgrave Macmillan.

Dhillon, N., Yousef, T. (2009) Generation in Waiting: The Unfulfilled Promise of Young People in the Middle East. Washington DC: Brookings Institution Press.

Gargash, A.M., Wolfenson, J.D. (2009) Foreword. In N. Dhillon & T. Yousef, eds. Generation in Waiting: The Unfulfilled Promise of Young People in the Middle East. Washington DC: Brookings Institution Press.

Hammoudi, A. (2001) Maîtres et disciples. Maisonneuve & Larose.

Hirschman, A.O. (1970) Exit, Voice, and Loyalty: Responses to Decline in Firms, Organizations, and States. Harvard University Press.

Honwana, A.M. (2012) The Time of Youth: Work, Social Change, and Politics in Africa. West Hartford: Kumarian Press Pub.

Honwana, A.M. (2013) Youth and revolution in Tunisia. [S.l.]: Zed Books Ltd.

Murphy, E.C. (2012) Problematizing Arab Youth: Generational Narratives of Systemic Failure. Mediterranean Politics. 17(1), 5–22.

Piot, C. (2010) Nostalgia for the future West Africa after the Cold War. Chicago: University of Chicago Press.

Scott, J.C. (1990) Domination and the Arts of Resistance: Hidden Transcripts. New Haven: Yale University Press.

Singerman, D. (2007) The Economic Imperatives of Marriage: Emerging Practices and Identities Among Youth in the Middle East. Rochester, NY: Social Science Research Network.

Vacchiano, F. (2010) Bash n'ataq l-walidin ('to save my parents'). Personal and social challenges of Moroccan unaccompanied children in Italy. In J. Kanics, D. Senovilla Hernández, & K. Touzenis, eds. Migrating Alone. Unaccompanied and Separated Children in Europe. Paris: Unesco Publishing, pp. 107–127.

Vacchiano, F. (2012) Giovani in movimento. Soggettività e aspirazioni globali a sud del Mediterraneo. Afriche e Orienti. 14(3-4), 98–110.

Vacchiano, F. (2014a) À la recherche d'une citoyenneté globale. L'expérience des adolescents migrants en Europe. Revue européenne des migrations internationales. 30(1), 59–81.‬‬

Vacchiano, F. (2014b) Para além das fronteiras e dos limites: adolescentes migrantes marroquinos entre desejo, vulnerabilidade e risco. Saúde e Sociedade. 23(1), 17–29.

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