Olhares sobre os Jovens - Programa Detalhado

 

2 Junho

 


9,30H-10,00H Sessão de Abertura – Auditório A. Sedas Nunes

Maria Manuel Vieira, Coordenadora do OPJ, ICS, Universidade de Lisboa

Jorge Vala, Director ICS, Universidade de Lisboa

Laurentino Dias, Secretário de Estado da Juventude e Desporto

 

10,00H-11,15H Conferência plenária – Auditório A. Sedas Nunes

“Observations on research, policy and depression in the youth field”

Lasse Siurala, Director of Youth at City of Helsinki and Docent at the Aalto University (Helsinki)

 

11,15H-11,30H Coffee Break

 

11,30H-13,00H Sessões simultâneas


SALA 1 – “Socialização e participação cívica e política”

MODERADOR: Bruno Dionísio, ESE de Portalegre e CesNova, Universidade Nova de Lisboa

 

 

De pais para filhos? Gerações e mudança político-ideológica em Portugal

Nuno Miguel Augusto, Departamento de Sociologia, Universidade da Beira Interior

 

Nos últimos anos temos assistido a uma transformação no modo como os jovens se relacionam com o mundo político e, muito particularmente, com os mecanismos institucionais de participação. Resultado de processos de individualização, de desinstitucionalização e de mudança de valores, a socialização política dos jovens acontece crescentemente à margem dos mecanismos políticos convencionais e dos seus códigos de valores. Estas transformações tornam-se evidentes quer quando comparamos as atitudes e comportamentos políticos das diferentes gerações, quer quando analisamos internamente os processos de socialização política, com repercussões em duas dimensões fundamentais – a relação com o sistema democrático representativo e a relação com a clivagem esquerda-direita. Recorrendo à análise de duas fontes indirectas (European Social Survey e European Values Study) e de um questionário aplicado a 300 jovens entre os 18 e os 29 anos com diferentes características sociais, procura-se evidenciar as principais distâncias e proximidades intergeracionais, no que respeita à relação com o sistema político-partidário e com a clivagem esquerda-direita. A análise dos dois primeiros inquéritos permite uma comparação intergeracional das características políticas e ideológicas, enquanto que o terceiro questionário permite analisar internamente o processo de socialização política familiar e proceder a uma análise comparativa entre pais e filhos. A análise dos dados leva-nos a concluir que os jovens, ainda que revelando o mesmo interesse pela política do que as gerações mais velhas, demonstram uma menor identificação com o sistema representativo e, muito particularmente, com o sistema político-partidário. O reforço das competências políticas (proporcionado pelo aumento das qualificações escolares) acaba por explicar quer a manutenção intergeracional do interesse pela política, quer a menor relação que os jovens mantêm com o sistema político-partidário. O fosso de escolarização entre as gerações pré e pós-25 de Abril gerou não só novas competências, mas também novas exigências, baseadas num quadro de valores sociais marcado por uma crescente autonomia relativamente aos impulsos institucionais e pela procura de agendas políticas mais próximas do quotidiano juvenil e das suas expectativas. A relação com o sistema político-partidário revela traços de desinstitucionalização, com duas consequências fundamentais – a desidentificação com o sistema político-partidário (significativamente maior entre os jovens) e o afastamento dos “partidos de governo” ou partidos “de centro”. A comparação entre as diferentes coortes, assim como a comparação entre pais e filhos, comprovam ambas as tendências. Já no que respeita à mudança de valores, as consequências são mais evidentes na relação que se estabelece com a clivagem esquerda-direita, claramente mais associada ao eixo libertarismo-autoritarismo do que ao eixo socialismo-capitalismo. Começamos esta comunicação por analisar o processo de socialização política familiar, mapeando as principais consequências da (fraca) politização que marca este processo para, numa segunda fase, traçarmos as principais distâncias e proximidades políticas e ideológicas entre as diferentes gerações, tendo por base transformações mais profundas na própria condição juvenil, que vão da individualização à mudança de valores, passando pela precariedade e incerteza que marcam a transição para a vida adulta.

 

 

Democracia e Desconfiança Institucional nas Novas e Velhas Democracias Europeias: A Idade Conta?

Conceição Pequito Teixeira, ISCSP, Universidade Técnica de Lisboa

 

Tem sido amplamente sustentado que as democracias industriais avançadas enfrentam hoje uma espécie de “malaise of the spirit”, que as coloca perante novos desafios e oportunidades. Muitos são aqueles que tendem a considerar que as causas dessa espécie de “malaise of the spirit” deixaram de ser exógenas para se tornarem agora endógenas às próprias democracias, uma vez que radicam nos seus eleitorados (jovens) — cada vez mais “desafectos”, “descontentes” e “desconfiados” perante o funcionamento do sistema democrático e das suas instituições políticas; sem que, contudo, isso signifique o declínio simultâneo do apoio público ao regime democrático e aos seus ideais, valores e princípios normativos. Assim sendo, a questão fundamental que se coloca é, pois, a seguinte: em que medida a tradução prática dos ideais e princípios inerentes aos regimes democráticos não é hoje acompanhada por uma crescente e preocupante desconfiança pública relativamente aos seus principais processos, instituições e actores políticos? Ou dito, ainda de outra forma: em que medida as democracias consolidadas, no decurso da sua “política normal”, se revelam incapazes  ¾ ou, pelo menos, não suficientemente capazes ¾ de suscitar a confiança dos cidadãos? E de entre eles, sobretudo os mais jovens, que são manifestamente cépticos e críticos em relação as fontes de autoridades tradicionais, que se revelam claramente desconfiados em relação às principais instituições da democracia representativa. Tudo isso, traduzindo-se na rejeição das formas de participação convencionais e na adesão a novas formas de participação mais autónomas e espontâneas, e sobretudo não mediadas pelos actores tradicionais, ou seja, uma participação que “dirigida e destinada às elites” (bottom-up) e não uma “participação controlada pelas elites” (top-down). Com base em dados empíricos recentes, procurar-se-á neste artigo saber em que medida os níveis de desconfiança nas instituições e o descontentamento com o funcionamento da democracia diferem entre vários grupo etários, e se essas diferenças são explicáveis por três tipos de efeitos distintos: “efeito geracional”, “efeito do ciclo de vida” ou “efeito da conjuntura”. Trata-se, pois, de um estudo sincrónico (os dados reportam-se apenas a 2010), mas que adopta uma perspectiva comparada alargada, procurando determinar quais as semelhanças e as diferenças entre os vários países que integram a União Europeia e as suas respectivas populações juvenis.

 

 

Juventude e Participação Política: motivações e antagonismo

Luã Gabriel dos Santos, Universidade Federal do Pará / Universidade do Minho

 

A categorização da juventude até o presente, não encontra um consenso objetivo e claro nas ciências sociais. Para BOURDIEU, juventude é apenas uma palavra. A conclusão de ROUSSEAU era de que este era um segundo nascimento do homem para a consciência. Noutros trabalhos, é recorrente a qualificação deste período como sendo uma fase natural da vida (CABRAL; PAIS, p. 1), de transição da infância para o universo adulto, onde são registradas significativas mudanças de caráter físico, biológico e psicológico (UNESCO, 2004, p. 26). Além das explicações a respeito do metamorfismo a que estão submetidos todos os seres humanos nesta fase, também são sublinhados constantemente alguns defeitos e qualidades (CAMPOS, 1961, p. 25) à juventude, como rebeldia, contestação e, paradoxalmente, como alienação, consumista e conformista. O facto é que nem todos os jovens percorrem o mesmo caminho, por isso que se tem considerado em diversos trabalhos a necessidade de compreendermos não haver uma juventude homogênea, mas juventudes (UNESCO, 2004, p.25). Isto significa dizer que juventude representa, antes de qualquer coisa, uma enorme diversidade heterogênea, definida e caracterizada de acordo com as diferentes situações, vivências e referências presentes no contexto em que vive cada jovem. No que tange à Política, costumeiramente são construídos discursos de que a juventude é uma geração politicamente problemática (AUGUSTO, 2006, p. 27), por nem sempre referendar os caminhos tradicionais da política, o que contribui ao estigma de que todos os jovens são apáticos politicamente. Não obstante, como frisa MUXEL apud AUGUSTO, são os jovens os primeiros a sair à rua para defender a democracia. O jovem possui uma tendência natural a inquietar-se com os problemas do seu tempo e um elemento importantíssimo da chamada identidade juvenil e está de certa forma associada à esta inquietação, que é a sociabilidade. Sem dúvidas é na fase juvenil em que são estabelecidas e fortalecidas as redes sociais e onde o jovem acaba por construir a sua identidade individual. Esta inquietação aliada a necessidade em sociabilizar acaba por conduzir uma parte dos jovens à organizações de natureza política, tais como partidos ou diversos outros movimentos e associações de caráter juvenil. Contudo e, naturalmente, como já deixamos claro acima, não são todos os jovens que percorrem este mesmo caminho. Nosso objetivo é investigar acerca das motivações e antagonismos que levam jovens a serem activos ou passivos politicamente em Portugal.

 

 

Juventude e religião: o estudo de caso da UBI

João Carlos Sousa, Labcom, Universidade da Beira Interior

 

 

As sociedades reflexivas são marcadas pelo processo intrinsecamente individualizante dos modos e estilos de vida. Paralela e consequentemente, assiste-se a uma progressiva secundarização de “velhas” instituições sociais como a religião, no processo de socialização da juventude. Aliás, esta espécie de caducidade de algumas das instituições sociais, que marcam a longa narrativa humana, foi recentemente apreendida pela teorização sociológica, a partir do contributo de Ulrich Beck em a Sociedade de Risco e posteriormente aprofundado por Zygmunt Bauman em a Modernidade Liquida, com o conceito de “instituições zombie”. Ora, tal como acontece com as instituições sociais, também a concepção de juventude apresenta-se-nos como uma importante componente espácio-temporal. Com isto, queremos frisar a ideia na qual a juventude é concebida como uma construção social, que teve variadas e diversas configurações ao longo do tempo. Daqui emerge a hipótese de trabalho, na qual se afirma, que é entre a juventude e da sua tendencial desvinculação à instituição religiosa, assumindo contornos de uma “instituição zombie”. Partindo do conceito de socialização, pretende-se verificar empiricamente a substancial alteração no papel desempenhado pela religião, neste processo, bem como captar e “esboçar” a distância sentida pelos jovens em relação à referida instituição. Neste sentido, ensaiar-se-á de uma tentativa de síntese entre os quadros teóricos das gerações, por um lado, e ciclos de vida, por outro lado. Com efeito, discutir-se-ão alguns dos resultados empíricos da dissertação de licenciatura (pré-Bolonha), no campo das atitudes e valores perante a religião da juventude. A construção da unidade de análise, parte do universo de alunos da Universidade da Beira Interior no ano lectivo de 2008/2009, sendo que a efectiva aplicação do inquérito por questionário realizou-se no mês de Maio de 2009, prolongando-se até final da primeira quinzena de Junho. O processo de amostragem foi presidido pela amostragem por conglomerados, no caso particular em apreço foram inquiridos 10 indivíduos por curso, compondo uma amostra de 245. Dos quais, 46.5% são do sexo masculino (114) e 53.5% (131) são do sexo feminino. Em termos etários a amostra foi subcategorizada em três grupos: 18-21 com 48.98% (120), dos 22-25 com 39.59% (97) e finalmente 26-29 com 11.43% (28). Em termos geográficos poderemos adiantar, que a amostra inclui elementos de todas as regiões de Portugal, incluindo um contingente substancial de ambas as regiões autónomas, sendo que ainda assim a região mais representada é aquela que designamos por centro e centro-norte. Tendo em atenção que se trata de duas regiões, que em termos históricos apresentam dos maiores níveis de religiosidade, este facto constitui-se como um dado relevante na análise que se pretende desenvolver nesta comunicação.

 

 

Religiosidade juvenil

José Maria Pereira Coutinho, ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa

 

A comunicação pretende apresentar resultados da minha tese de doutoramento em sociologia da religião. Foram inquiridos 500 jovens universitários do ensino público de Lisboa (ISCTE - IUL, UL, UNL e UTL) sobre crenças e práticas católicas e não católicas, atitudes em relação ao casamento, à vida e à sexualidade, assim como a sua socialização religiosa e os aspectos mais importantes das suas vidas. Na nossa modernidade, marcada pela reflexividade, o indivíduo questiona-se sobre as tradições herdadas das gerações anteriores. A socialização religiosa, em que a cultura religiosa se transmite ao longo de linhagens religiosas, contradita este sinal moderno. Comparativamente mais aptos a reflectir sobre o mundo, relativamente a outros grupos juvenis menos favorecidos culturalmente, a socialização marcou-os todavia de maneiras dissemelhantes. Num mundo notabilizado globalmente pela hipertrofia do indivíduo e do consumo, em que tudo se pode escolher, em que o homem é realmente o centro do seu universo, a individualização desenvolveu-se de forma explosiva. Também a religião sofreu o efeito desta modernidade altamente individualista, permeada pelas recomposições religiosas, pela bricolage, pela religião à carta. Do menu de conteúdos religiosos ou seculares disponíveis, o homem selecciona os que lhe proporcionam maior sentido à sua vida. A morte das grandes narrativas, das religiões tradicionais e seculares, libertou o homem das cosmovisões, das utopias terrenas ou supraterrenas, sendo agora o seu sonho a realização de si, o seu desenvolvimento pessoal, aqui e agora. Num mundo marcado pela reflexividade, pela individualização e pelo consumo, e estando Portugal a assistir a um declínio religioso, fruto da secularização, podemos questionar a eventual saída da religião do nosso país ou a quebra da religião tradicional de forma homogénea. Todavia, o estudo da religiosidade mostra-nos o contrário. Com base nos clusters de crenças, práticas e atitudes derivaram clusters finais, os quais identificam três tipos distintos de jovens relativamente à religião. Estes foram caracterizados quanto aos dados sociodemográficos e às variáveis do inquérito, onde se inclui as crenças e as práticas não católicas, e às variáveis de socialização. Por último, os clusters finais foram descritos em relação aos aspectos da vida, o que reforçou ainda mais a identidade dos mesmos. O estudo mostra grupos religiosos distintos, com identidades claramente desiguais, com diferentes graus de crenças, de práticas e de atitudes, resultante de socializações dissemelhantes. Prevê-se ainda a reprodução das linhagens religiosas onde os mesmos estão inseridos.

 

 

SALA 2 – “Habitação, vida familiar e laços sociais”

MODERADOR: Lia Pappámikail, ICS, Universidade de Lisboa

 

 

Violência no namoro entre adolescentes e jovens: um estudo de caso

João Sebastião, Alice Alexandre, Jorge Ferreira, CIES, Instituto Universitário de Lisboa

 

A divulgação da existência de situações de violência no namoro entre adolescentes e jovens veio questionar algumas das conceções sociais ainda hoje predominantes acerca da "pureza" das relações afetivas nesta fase de vida, aparentemente separadas de outras dimensões mais conturbadas da vida social dos jovens. A realização de um estudo de caso sobre a difusão de situações de violência no namoro num município da AML, concretizado no quadro do Fórum Municipal contra a Violência Doméstica, permitiu equacionar uma forma de violência normalmente invisível quando se analisa outras formas de violência juvenis e respetivos quadros de relações sociais. Frequentemente classificada sob outras formas, como violência na escola, entre pares, ou marginalidade juvenil urbana, a violência no namoro entre adolescentes e jovens mantem-se assim relativamente desconhecida e alvo de intervenções que se baseiam em pressupostos e metodologias não adaptadas. Constituindo a relação de namoro entre adolescentes e jovens uma relação com característica sociais particulares, procurámos com este estudo caracterizar e analisar as perceções, atitudes e práticas dos/as jovens do concelho relativamente à violência nas relações de intimidade, de modo a fundamentar a prevenção e intervenção nestes domínios. O facto de a adolescência e juventude possuírem nas sociedades contemporâneas um estatuto específico, levou-nos a contextualizar essas situações no quadro das relações mais alargadas entre pares e tentar compreender as suas crenças e atitudes face à violência. A análise dos principais resultados do inquérito preenchido pelos/as adolescentes permitiu conhecer melhor as respetivas práticas, perceções e atitudes face à violência no namoro e entre pares, bem como a relação destas com as questões de género. Concluiu-se que o tipo de violência que ocorre mais frequentemente entre adolescentes é a violência emocional e de exclusão social, sendo que à medida que aumenta a expressão física e a gravidade dos atos agressivos a sua frequência diminui substancialmente .Isto é válido tanto nas situações de violência no namoro como entre pares, embora neste último caso o fenómeno seja significativamente mais frequente do que entre namorados. Ao analisar os comportamentos violentos em função do género é possível estabelecer diferenças muito claras, quer entre géneros, quer entre situações ocorridas nas relações de namoro ou com os/as pares. Assim, quando as referidas situações se dão no âmbito do namoro as adolescentes aparecem maioritariamente como agressoras nos diversos tipos de violência, e também como vítimas, nomeadamente de violência emocional e de exclusão social, ainda que os adolescentes apresentem um ligeiro ascendente no que respeita à vitimação física de gravidade média. Nas situações de violência entre pares, os adolescentes são os principais perpetradores dos diferentes tipos de violência e são também mais vítimas da mesma, sobretudo em termos físicos, conclusões que se encontram em linha com o que se tem vindo a verificar noutros estudos nacionais e internacionais junto de populações semelhantes.

 

 

Jovens sem-abrigo no papel de assistentes de investigação

Filipa Menezes, ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa

 

A apresentação sob o tema Jovens sem-abrigo no papel de assistentes de investigação vem, num primeiro momento, divulgar o projecto de investigação europeu (NL, UK, PT e CR) denominado Combate à exclusão social entre populações de jovens sem-abrigo” (2008-2011). Numa segunda fase, centra-se na apresentação dos desafios e sugestões que resultam de uma das principais linhas de investigação trabalhadas no âmbito desta investigação: a participação, como investigadores colaboradores, de jovens que experienciaram situações de sem-abrigo. Procura-se contribuir para o debate em torno dos entendimentos de “capacitação” ou “empowerment” e quais as suas possíveis aplicações, tomando como exemplo a prática seguida que englobou um processo que incluiu fases como formação, realização de entrevistas e participação em conferências.

 

 

Ficar na casa dos pais. Contextos residenciais e familiares dos estudantes do ensino superior

Susana da Cruz Martins; Rosário Mauritti, CIES, Instituto Universitário de Lisboa

 

Sendo conhecido que a maioria dos estudantes que frequenta actualmente o ensino superior em Portugal permanece em casa dos pais/familiares, pelo menos enquanto perdura a respectiva formação, poder-se-á clarificar qual a importância de outros contextos residenciais relativamente a este segmento de estudantes. Esta realidade será ainda equacionada à luz de dimensões de caracterização dos vários tipos de instituição de ensino e tipo de formação, dos contextos familiares, profissionais e regionais, bem como de traços sociodemográficos destes estudantes (como a idade, o sexo, etc.). A análise integrada de um vasto conjunto de indicadores de caracterização e de valores e atitudes permitirá aferir, no quadro da informação disponível, sobre se tais contextos residenciais decorrem mais de escolhas ou de constrangimentos, ou, ainda, se estão mais associados a aspectos culturais ou a imperativos de organização social e institucional. Para esta apresentação propõe-se, adicionalmente,  uma  perspectiva articulada que permita interpretar a diversidade dos contextos residenciais dos estudantes portugueses do ensino superior, estabelecendo um retrato sobre o complexo de  relações que  tais contextos podem ter com diferentes experiências escolares, sociais e de trabalho.  A proposta analítica, embora com aprofundamentos ao nível da realidade portuguesa, mobilizará indicadores de comparação europeia e de posicionamento de Portugal no espaço europeu alargado, identificando-se as principais semelhanças e diferenças entre os vários países e regiões europeias. A principal fonte de informação utilizada na análise é a difundida no âmbito do Projecto Eurostudent, tanto na sua vertente internacional (Eurostudent III, 2008) como na nacional (fazendo-se uso dos dados recolhidos através do Inquérito às Condições Socioeconómicas dos Estudantes do Ensino Superior 2007).

 

 

O mix dos factores culturais e institucionais nas transições para a vida adulta nos países do Sul da Europa: “benção” analítica ou maldição política?

Magda Nico, CIES, Instituto Universitário de Lisboa

 

Billari considera os casos extremos, que no caso das transições para a vida adulta e da saída de casa dos pais estão situados no Sul da Europa, uma “benção” para os investigadores interessados em estudar o mix dos factores culturais e institucionais (2004). Nesta apresentação expor-se-ão alguns dos perigos analíticos e das consequências políticas que advêm da ênfase excessiva colocada na variável cultural (essa “black box”, como lhe chamaram Holdsworth, Voast e Tranmer em 2002) enquanto factor explicativo para o timing da saída dos jovens de casa. Serão debatidos dados que, pelo contrário, evidenciam como factores de natureza estrutural relacionados com as políticas e com o mercado de habitação (ineficiência das políticas de habitação para jovens, fraco e pouco acessível mercado de arrendamento, falta adequabilidade das tipologias das casas aos movimentos geográficos temporários e transicionais), com a massificação e a localização das instituições de ensino superior (dispersão das instituições pelo país, menos percursos de saída de casa marcados pela frequência de ensino superior, bolsas de estudo de baixo valor) e ainda com o mercado de trabalho em Portugal (menos disponibilidade de trabalho em tempo parcial, maior precariedade laboral), contribuem para explicações consistentes para o timing mais “tardio” da saída dos jovens de casa dos pais os países do Sul da Europa. É em variáveis desta natureza que a ênfase da heterogeneidade na Europa será colocada. A apresentação concluirá com o argumento de que a ênfase colocada nas explicações culturais pode tender, perversa e precisamente, a ser reduzida às escolhas de nível meramente individual (cuja existência é em si questionável), atribuindo aos indivíduos e aos seus valores e atitudes a responsabilidade única das consequências das suas acções. As explicações meramente culturais (familialistas, católicas, etc.) podem, deste modo, contribuir para ignorar ou ofuscar os constrangimentos sociais estruturais e a acumulação de dificuldades ao longo da vida dos indivíduos, que poderão ou não ser fruto de continuidades culturais cristalizadas em instituições. Assim sendo, as difíceis transições para a vida adulta nos países do sul, mesmo que continuando a ser fortemente comprometidas pelos constrangimentos estruturais do mercado de habitação e de trabalho, não são reconhecidas política nem socialmente. Além disso, ao sentimento de fracasso biográfico, vivido como individual por muitos dos jovens adultos, é acrescido, por vezes, legitimidade científica. Tal poderá contribuir para que nenhuma solução ao nível político seja sugerida ou facultada. Assim, os países do sul poderão assistir os seus “factores culturais” constituírem-se como subterfúgios para a ausência de resolução dos constrangimentos sociais da saída de casa dos pais. Os factores culturais, para os países do sul, podem assim constituir-se como uma “maldição”, onde a “cultura” funciona como justificação para a inexistência de resposta política ou social.

 

SALA 3 – “Território, mobilidade e migrações”

MODERADOR: Teresa Seabra, ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa

 

 

A Europa é o Cacém? Representações sobre território e mobilidade entre jovens brasileiros migrantes

Paula Togni, CRIA, Instituto Universitário de Lisboa

 

A partir de uma etnografia multisituada realizada no Cacém com jovens brasileiros migrantes e no Brasil em seus locais de origem, nomeadamente a cidade de Mantena, noroeste de Minas Gerais e a zona rural de Cachoeirinha de Itaúnas, este artigo explora por um lado, a circulação de representações criadas sobre os territórios como a - “a Europa”e “Portugal” - nos locais de origem e na percepção desses mesmos jovens. Oriundos de locais de habitação periférica (favelas e zona rural), actualmente vivem em bairros considerados também periféricos em Portugal o que suscita a análise comparativa da vivência cotidiana do espaço desse grupo social - lazer e sociabilidades em geral no Brasil e em Portugal. Mas o que muda, e se muda nesses distintos cenários culturais? A articulação entre categorias de diferenciação como raça, etnicidade, nacionalidade e género parece ser um exercício analítico interessante que o trabalho de campo revelou para pensar as relações entre migrações, juventude e território. Tendo como característica fundamental a imigração na juventude (18-20 anos), tais jovens, apesar de activarem redes sociais que permitiram a mobilidade, não possuem familiares adultos em Portugal, ou seja, migraram sozinhos e/ou com irmãos e amigos, o que permite ainda, problematizar noções de “liberdade”, “responsabilidade” e também controlo social.

 

 

Happy at Home and Travelling Far: Attitudes towards mobility among young Portuguese Muslims

Nina Clara Tiesler, ICS, Universidade de Lisboa

 

Within the framework of a research project on transnational circuits and concepts of home and belonging among Muslims in Portugal, we have undertaken a study which allows a comparison of cultural attitudes, mobility and future aspirations of young Portuguese Muslims with a larger group of young Portuguese non-Muslims. In a general discursive context where religious belonging and cultural attitudes often miss differentiation, and where a strong dedication to Islam is often erratically suggested as being opposed/apart/alien to the dominant culture or to active Western citizenship, we have consciously chosen a group of religiously dedicated and socio-political active Sunnites for our comparative study: young people who consider Islam and Muslim-ness important matters in their daily life. The quantitative survey encompassed a total of 241 young people, all Portuguese citizens, mostly between the ages of 16 and 26 of middle class background and living in Lisbon, where most of them were also born. The survey focused on key issues in their lives, including questions on family and peer relationships, community attachment, work and study, travel and leisure. Apart from their stronger religious dedication and broader international horizons, especially in terms of travel, we have found such little difference concerning cultural attitudes among these young middle class people that it has sometimes been difficult to distinguish the findings of both samples. This includes, for instance, that 78% of both groups “prefer beach holidays” as their leisure time options, which is indeed “very Portuguese”.

 

 

Tempos e cursos de vida em duas gerações: jovens descendentes de imigrantes dos PALOP em Portugal

Tatiana Ferreira, ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa / ICS, Universidade de Lisboa

 

Esta apresentação enquadra-se num projecto de doutoramento - ”Género e gerações: processos de transição para a vida adulta dos jovens descendentes de imigrantes dos PALOP”, cujo objectivo é percepcionar quais os contrastes e continuidades existentes entre as transições para a vida adulta dos jovens e seus progenitores e captar as suas representações e auto-percepções sobre a adultez. As transições para a vida adulta são identificadas por um conjunto de marcadores de passagem para a vida adulta em dimensões como o trabalho, a educação e a família. Se outrora, as delimitações etárias de entrada na vida adulta eram lineares, com uma cronologia sequencial e previsível de eventos (termino do percurso escolar - inserção no mercado de trabalho - autonomia residencial através do casamento - parentalidade), a sequência destes eventos tem vindo a complexificar-se, envolta em novas exigências, constrangimentos e oportunidades. Sendo cada vez mais desestandardizado e individualizado, o processo de transição para a vida adulta, caracteriza-se por processos de reversibilidade e sobreposição dos diferentes eventos (Pais 2003, Cavalli 1997, Galland 2001, Guerreiro e Abrantes 2005). Neste contexto, esta apresentação pretende discutir e reflectir sobre a adequabilidade de uma metodologia comparativa intergeracional entre jovens descendentes dos PALOP e os seus progenitores, para captar, por um lado, a relevância das escolhas individuais e, por outro lado, os constrangimentos sociais que podem condicionar à partida os trajectos dos indivíduos. A realização de entrevistas semi-estruturadas, com um carácter biográfico, tanto aos jovens como aos seus progenitores, pareceu-nos a mais adequada. As narrativas biográficas têm em conta o papel activo do indivíduo na construção das suas biografias e ao mesmo tempo permitem captar os desafios, ameaças, oportunidades e riscos que condicionam as suas transições para a vida adulta. Por outro lado, a existência de um guião semi-estruturado em diferentes dimensões de análise, permite que posteriormente possa ser efectuada uma análise comparativa geracional. Complementarmente às entrevistas, será feita uma ficha cronológica de eventos (Mills 2007, 2010; Nico 2009) que permitirá registar a temporalidade, em termos de sequência e duração dos diferentes marcadores de passagem para a vida adulta. A aplicação destes dois instrumentos metodológicos irá permitir delinear os diferentes percursos de cada entrevistado tendo em conta também outros eventos não padronizados, turning points (Brettell 2002) ou critical moments (Thomson et al. 2002), sendo que o ciclo de vida dos indivíduos é também caracterizado por rupturas de vida (Pais 2003), por exemplo, o divórcio dos progenitores, cujo impacto no curso de vida não pode ser negligenciado. Pretende-se ainda, com a adopção desta metodologia comparativa, com recurso a instrumentos que permitem delinear um esquema biográfico individual, questionar o determinismo da condição de filhos de imigrantes destes jovens, muitas vezes sobrevalorizada a nível institucional e académico. Paralelamente, no que respeita os seus progenitores, evitar uma sobrevalorização da sua condição de imigrantes na análise dos seus trajectos, ainda que não possa deixar de se ter em conta a importância do projecto migratório enquanto marcador de passagem nos cursos de vida.

 

 


 

SALA Polivalente – “Horizontes profissionais e transições para o mercado de trabalho”

MODERADOR: Natália Alves, Instituto de Educação, Universidade de Lisboa

 

 

A inserção profissional dos recém-licenciados: novos dados acerca de uma inquietação social e sociológica

César Morais; Miguel Chaves, CesNova, Universidade Nova de Lisboa

 

Nos últimos anos, temos vindo a assistir a alterações estruturais no mercado de trabalho um pouco por todo o mundo. Precipitadas por ciclos económicos negativos, tais mudanças reflectem-se numa reconfiguração das relações laborais entre empregadores e assalariados, que afecta negativamente o acesso e a segurança dos empregos, especialmente junto daqueles que pretendem iniciar o seu percurso profissional. A inserção profissional dos jovens e, mais recentemente, a dos jovens recém-licenciados, assumiu uma especial visibilidade no debate público acerca do emprego e da empregabilidade. Regra geral, os discursos produzidos acerca do último grupo traçam um cenário catastrofista onde o desemprego e a precariedade se assumem como porta-estandartes de uma geração de diplomados desiludida com o seu destino anunciado e com o investimento escolar realizado. Embora a inserção profissional dos recém-graduados se assuma como um problema social central na sociedade portuguesa, a produção científica sobre o tema ainda se encontra numa fase inicial entre nós. Só a partir da segunda metade dos anos noventa, foram conduzidas investigações sociológicas sobre a situação e percurso profissional dos diplomados do ensino superior, de tal forma que a informação recolhida, ainda não permite um conhecimento aprofundado e sistemático sobre a realidade laboral dos recém-graduados. Esta comunicação pretende apresentar alguns dos primeiros resultados de um projecto de investigação designado “Percursos de inserção dos licenciados: relações objectivas e subjectivas com o trabalho”, sediado no Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa (CESNOVA) e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Trata-se de um projecto que reúne vários dos investigadores portugueses que, na última década, têm trabalhado sobre a inserção profissional dos recém-graduados, e que agora procuram sistematizar e articular os seus métodos e perspectivas teóricas, através de um modelo de análise fundado na teoria sociológica, que compreende dimensões objectivas e subjectivas da inserção profissional. Embora esteja longe de contemplar a totalidade dos diplomados em Portugal, o estudo debruça-se sobre dois dos principais pólos do ensino superior público português – a Universidade de Lisboa (UL) e a Universidade Nova de Lisboa (UNL) – e procura observar os graduados que completaram as suas licenciaturas no ano de 2004/2005, distinguindo as várias áreas de formação científica. A pesquisa tem como principal propósito conhecer os percursos de inserção profissional dos graduados do ensino superior, a sua actual situação no mercado de trabalho e também a forma como se relacionam com o trabalho e com a sua própria situação laboral. Os dados que esta comunicação apresenta e discute, ilustram as experiências profissionais dos jovens recém-graduados da UL e UNL, cinco anos após a obtenção da sua graduação, sujeitando assim a escrutínio empírico as mediáticas teses catastrofistas que estão associadas à inserção profissional deste grupo, procurando assim contribuir para o conhecimento e discussão pública em torno da inserção profissional dos recém-graduados.

 

 

A Identidade Profissional do Educador Social e transições para o mercado de trabalho

Ana Maria Serapicos; Florbela Samagaio; Gabriela Trevisan, ESEPF / CIPAF

 

As instituições de ensino superior precisam de estar atentas aos modos complexos pelos quais as trajectórias profissionais se constroem, de modo a poder oferecer aos seus alunos diferentes possibilidades de desenvolverem as competências necessárias para as transições no mercado de trabalho. Ao comemorar 15 anos de formação em Educação Social interrogamo-nos sobre os modos como os jovens que, nesta área, tendo obtido o grau de licenciado, ingressaram no ensino superior; que expectativas sobre ele construíram e em que medida essas expectativas puderam ou não ser correspondidas. A ESEPF está, neste momento, a desenvolver um projecto que permite conhecer as trajectórias dos Educadores Sociais por ela formados, bem como as suas maiores dificuldades enquanto trabalhadores de uma profissão ainda relativamente recente. Sabemos que o reconhecimento das profissões é de grande importância para a construção da identidade profissional e para a afirmação clara no mercado de trabalho evitando, imprecisões de funções e competências que poderão surgir quando confundidos com outros profissionais do designado “trabalho social”. No estudo das profissões importa identificar as características que evidenciem o “ traço” de cada uma, distinguindo-as das demais ocupações. O “traço” marcante do Educador Social é, sem dúvida, a capacidade para saber encontrar e ajudar a percorrer caminhos que vão no sentido do bem estar da pessoa e da sociedade. O reconhecimento do estatuto profissional passa, inevitavelmente, pela definição clara dos papéis que desempenha profissionalmente, evitando ambiguidades, que perturbam a caracterização das identidades profissionais. O seu reconhecimento profissional e pessoal está ainda dependente de dinâmicas sociais globais e da percepção do valor da sua acção pedagógica e social, na promoção do bem-estar das pessoas. É importante que a sociedade em geral perceba e reconheça que o grande desafio da  Educação Social    é conseguir a promoção e a participação social  das pessoas, dos grupos e das comunidades , para que compreendam e lutem pelos  os seus direitos  e saibam  assumir  as responsabilidades de uma cidadania sustentada pelos mais elementares direitos do Homem. A definição do papel profissional do Educador Social passa, ainda, pelo tipo de desempenho que dele se espera, do que ele sabe e é capaz de fazer no quadro das competências para que foi preparado e das respostas emergentes aos desafios laborais. É neste contexto e com estes pressupostos que se discutirão os principais resultados de um inquérito por questionário aplicado aos diplomados em Educação Social pela ESEPF e respondido por 165 inquiridos, analisando-se algumas das dimensões principais da formação inicial, experiências profissionais na formação, inserção no mercado de trabalho, modos de inserção e mobilidade no mercado de trabalho. Algumas pistas sobre a segunda fase deste processo, de carácter qualitativo e interpretativo, pela realização de entrevistas aos ex alunos e entidades empregadoras poderão ser igualmente apresentadas.

 

 

 

Auditório A. Sedas Nunes – “Educação, formação e aprendizagens”

MODERADOR: José Resende, CesNova, Universidade Nova de Lisboa

 

 

Os jovens de classes desfavorecidas e a escola: o que mudou com o programa TEIP?

Cristina Roldão, Pedro Abrantes, Rosário Mauritti e Ana Teixeira, CIES, Instituto Universitário de Lisboa

 

A comunicação pretende discutir os efeitos do programa TEIP na transformação da experiência escolar dos jovens em meios socialmente desfavorecidos, em particular, nos domínios da integração, participação e orientação. Nesse sentido, mobilizamos os resultados obtidos em sete estudos de caso recentes em agrupamentos abrangidos pelo TEIP, no quadro de uma avaliação do programa, focando os discursos dos alunos, recolhidos através de uma metodologia inovadora, em que se promoveu a realização de assembleias de turma e, em seguida, se sintetizaram e discutiram as conclusões em focus groups de delegados de turma. As relações entre escola e jovens de classes desfavorecidas têm sido muito trabalhadas na sociologia, muitas vezes dando-se destaque ao insucesso, ao hiato cultural e à resistência destes jovens à “assimilação escolar”. Estas perspectivas tornaram mais visíveis as limitações da massificação escolar, mas deram pouca visibilidade aos processos de integração, que são desencadeados a diferentes níveis. O Programa TEIP é um mecanismo da política do sistema de ensino que visa exactamente contribuir para os processos de integração em territórios em que a polarização entre o universo escolar e as culturas e actores locais é por demais evidente (taxas de reprovação, ocorrência de episódios de indisciplina, instabilidade do corpo docente, etc). O carácter tendencialmente territorializado desta política, parte do pressuposto de que as comunidades educativas deverão ser os actores principais no desenho e implementação de estratégias de inversão das referidas dinâmicas de polarização (eficácia e democratização). Parte das estratégias encontradas nos projectos locais passam pela diversificação das ofertas curriculares (CEF’s, PCA, EFA) ou o aumento/reorganização dos apoios e actividades lúdico-pedagógicas. Mas, para que estas apostas sejam consequentes, é necessário que operem de forma mais ou menos sistemática e integrada mecanismos de orientação dos trajectos. Outro aspecto a salientar é que a territorialização subjacente ao TEIP, implica não só a transferência da gestão escolar do Estado para os locais (descentralização), mas também a participação activa e a partilha do poder de decisão entre os diferentes actores da comunidade educativa, especialmente daqueles considerados “público alvo” (policentração). Os gabinetes de apoio ao aluno e à família bem como os novos profissionais que chegam às escolas por via do TEIP (animadores, mediadores, psicólogos, etc.) são peças centrais da relação entre escola, famílias e alunos, sendo de se indagar se operam mais numa lógica assistencialista ou emancipadora. As duas frentes de intervenção referidas, pedagógica e comunitária, compostas por mecanismos de integração, orientação e participação escolar, visam inverter ou transformar pelo menos três dinâmicas de estruturação social: socioeconómica (a distribuição de capitais culturais rentáveis), simbólica (a legitimação das experiência e saberes), e política (o empowerment dos diferentes actores da comunidade educativa). A separação rígida ou o desequilíbrio excessivo na aposta entre estratégias pedagógicas, de empowerment local e respectivos mecanismos, dificilmente permitirão dar uma resposta efectivamente transformadora ao problema da reprodução social na e pela escola.

 

 

Uma outra educação? Os Cursos de Educação e Formação (CEF) na voz de alunos e professores

Fátima Antunes; Virgínio Sá, Instituto de Educação, Universidade do Minho

 

As políticas de educação em Portugal e, genericamente, na Europa têm posicionado a educação profissional num lugar subalterno face à educação geral, por um lado, enquanto paliativo para as dificuldades e os fracassos do sistema de ensino na escolarização de certos segmentos de jovens e, por outro lado, enquanto alternativa de diversificação dos percursos educativos. O estudo em discussão baseia-se numa pesquisa recente, desenvolvida junto de professores e alunos de Cursos de Educação e Formação (CEFs), uma oferta curricular de carácter remediativo dirigida a jovens com idade igual ou superior a 15 anos e em risco de abandono escolar e que abrangeu quatro escolas de um concelho do norte de Portugal, convencionalmente designado Terra Chã. Foram inquiridos 166 estudantes e 49 professores através de inquérito por questionário. Uma análise preliminar dos dados recolhidos permitiu, por um lado, destacar o carácter socialmente marcado dos públicos destinatários desta medida e de como o fracasso e o abandono da escola se revelam socialmente selectivos penalizando de modo visivelmente desigual estes segmentos e categorias de públicos e, por outro lado, salientar a dualidade discursiva, particularmente evidente na fala dos professores, que dá conta de uma realidade contrastada que, ora representa os CEFs como um reduto de esperança e como uma experiência profissionalmente enriquecedora (“ensinamos, mas também aprendemos muito”), ora os denuncia como uma espécie de “concentrados de problemas” cuja função parece ser “enxugar” as turmas do ensino regular dos alunos indesejados e onde os professores se sentem instrumentalizados ao serviço de uma agenda de circunstância (“trabalhar para a estatística”). Assim, queremos levantar questões quanto ao reforço de tendências de democratização segregativa (Merle, 2002: 81) e de produção de excluídos do interior (Bourdieu, 1998) no sistema de ensino, ao mesmo tempo que testemunhamos vozes (de alunos e professores) que sublinham um percurso de ruptura e procura de uma outra educação e de recuperação, nos CEF, da experiência de aprender e progredir. A educação e formação profissionais têm sido remetidas entre nós para um lugar paradoxal que conjuga a realização da democratização com a subalternização no sistema de ensino. Sugere-se que este posicionamento, tão paradoxal quanto ambivalente, tem um dos seus afloramentos críticos na interpelação oferecida pelos dados deste estudo: que lugar tem aí o conhecimento e em que consiste essa outra educação em que estes jovens afirmam estar agora a aprender?

 

 

Representações dos alunos circenses relativamente à Escola Móvel

Rosa Maria Vilas Boas Chorão, Instituto de Educação, Universidade de Lisboa

 

As medidas implementadas pelo Estado com vista a garantir o acesso e sucesso escolar de todos os jovens, como a (1) constituição de Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP); (2) a criação de Currículos Alternativos (individuais e para grupos/turmas); (3) a atribuição de apoios pedagógicos individualizados; (4) o Programa Integrado de Educação e Formação (PIEF); (5) os Cursos de Educação e Formação (CEF); e (5) a constituição de turmas com Percursos Curriculares alternativos (PCA) até 2005 não tinham ainda conseguido abranger toda a população em idade escolar, em particular os alunos designados como itinerantes, oriundos de famílias cuja actividade profissional é sujeita a deslocações permanentes, como é o caso da circense e da feirante, entre outras. A Escola Móvel, projecto de ensino à distância, visa justamente a integração deste tipo de população na escola. Nesta comunicação, pretendemos reflectir, num primeiro momento, sobre o modo como a Escola Móvel possibilita aos estudantes desenvolver um trajecto formativo num contexto distinto do contexto educativo tradicional, no qual os alunos constroem grande parte da sua identidade através do convívio com os pares. A partir de resultados obtidos através da realização de entrevistas exploratórias, procuraremos, num segundo momento, analisar de que modo os alunos da Escola Móvel constroem a sua identidade enquanto jovens e estudantes e em que medida o modelo pedagógico da Escola Móvel fomenta a sua participação no processo de ensino-aprendizagem, comparativamente com o modelo escolar convencional.

 

 

Reflexões acerca da intervenção com adolescentes em medidas educativas

Carla Cristina Storino, ICS, Universidade de Lisboa

 

O objectivo da apresentação é refletir acerca dos diferentes laços sociais que se estabelecem nos Centros Educativos entre os técnicos da Instituição e os jovens. Iniciei recentemente uma pesquisa de campo em Portugal, a fim de estudar as medidas educativas de internamento em regime fechado. Esta pesquisa faz parte do projecto de doutoramento intitulado “Aplicação de medidas educativas a adolescentes em conflito com a lei: Uma perspectiva comparada entre Brasil e Portugal”. Neste paper parto concretamente da lei tutelar portuguesa e dos seus efeitos na sociabilidade diária dos jovens nos centros. Após a metade do século XX, a intervenção estatal sobre a infância e a adolescência foi regida pela Organização Tutelar de Menores. Esta lei não demarcava uma diferenciação entre crianças e jovens em risco e adolescentes infratores, considerando a delinquência como um sintoma de inadaptação social. Ao longo deste período, vários diplomas legislativos de nível internacional foram aprovados, assegurando a intervenção estatal tutelar penal. Com isso, a reforma dos processos tutelares tornou-se inevitável. A partir de um despacho do Ministério da Justiça 20/MJ/96 foi criada uma Comissão para a Reforma do Sistema de Execução de Penas e Medidas, que promoveu uma análise da situação das medidas. O relatório final da Comissão foi concluido em1998, onde foram apresentadas propostas sobre a elaboração de projetos legislativos acerca da definição de situações objeto de intervenção, fins e pressupostos da intervenção, regime processual, medidas e execução de medidas. A Lei Tutelar Educativa, aprovada em 1999 e atualmente em vigor, define como finalidade das medidas tutelares “a educação do menor para o direito e a sua inserção, de forma digna e responsável, na vida em comunidade”. A ênfase dada à necessidade de educar o menor para o direito, determina que “cada centro educativo dispõe de projecto de intervenção educativa próprio que deve...permitir a programação faseada e progressiva da intervenção, diferenciando os objectivos a realizar em cada fase e o respectivo sistema de reforços positivos e negativos” com os jovens. Desta maneira, as concessões ou impedimentos para a realização das diversas atividades promovidas pelo Centro, derivam deste sistema ancorado nas notas dadas diariamente pelos técnicos e pelos professores. Com base na análise da lei e na pesquisa de campo em curso, pretendo discutir algumas questões: Qual é o peso da Lei Tutelar Educativa nos Centros? Como ela é engendrada nas rotinas diárias? Quais são os efeitos nas sociabilidades dos jovens entre si, os técnicos e os professores?

 

 

Pequenos acontecimentos para novos rumos: proposta para uma modelização da intervenção em jovens com percursos de risco

Ana Maria da Costa Oliveira, FCH, Universidade Católica Portuguesa / CESSS / CSPCG

 

A presente comunicação pretende trazer um contributo concreto ao nível da intervenção social junto de jovens com percursos de risco, não apenas ao nível micro da intervenção mas também a um nível macro, das respostas sociais para esta população. Partindo da reconstituição de um projecto de intervenção, tendo em conta as trajectórias de vida de jovens e as suas condições sociais, ensaia-se a construção de um percurso metodológico de intervenção a partir da experiência. Esta investigação, de carácter exploratório, sobre os factores promotores de trajectórias de inclusão junto de jovens com percursos de risco visou compreender quais os capitais aportados pelas intervenções sociais ao longo do percurso dos jovens, de forma a constituir uma base de análise sobre a diversidade das práticas profissionais e institucionais junto destes sujeitos. O objecto desta comunicação não constitui uma directriz, nem tem carácter vinculativo, consiste num elemento que apoia a tomada de decisão e a transmissão organizada de informação entre profissionais; visa, desta forma, apresentar-se como um referencial que apoia a aplicação de um modelo de acção e a identificação de estratégias que potenciem a sua implementação. A acção orienta-se a partir de um diagnóstico das necessidades e competências dos jovens, famílias e comunidade que emerge de uma análise cuidada das forças e do modo de as aproveitar através da construção de soluções com base nos recursos disponíveis e da mobilização dos actores (as pessoas, as famílias, as comunidades) para a concepção de soluções. Após a análise dos dados recolhidos, foi possível identificar dimensões essenciais para a construção de um processo de intervenção inclusivo:- O acompanhamento social: entre o sujeito e o grupo;- O grupo como vector da construção do “Eu”;- As competências como uma janela de oportunidade de inclusão;- Uma intervenção centrada na autonomia e na auto-capacitação do jovem. A combinação e interacção de diferentes factores de protecção, pode contribuir para uma diversidade de respostas por parte dos indivíduos. Ilustrando a capacidade do indivíduo de superar situações adversas de forma positiva e construtiva, verifica-se no projecto analisado que alguns jovens são vulneráveis, mas revelam-se “invencíveis”, conseguindo transformar-se em jovens integrados e com competências. Em consonância com esta perspectiva, realça-se a matriz relacional em todo o processo, por entender-se que a construção deste percurso não seria possível sem esta condição. As quatro dimensões anteriores estruturam-se a partir de três componentes do processo de intervenção que progressivamente emergiram da reflexão e análise neste trabalho e que sublinham a necessidade de uma avaliação e adaptação metodológica permanente na intervenção junto de jovens com percursos de risco: o processo de afiliação; a identidade construída entre o “eu” e o “outro”; a competência individual como chave de inserção. Em síntese, esta comunicação procura realçar a importância de uma intervenção inclusiva em jovens com percursos de risco, tornando evidente a necessidade de intervenções planeadas e avaliadas, capazes de prevenir o risco e promover a protecção.


 

ALMOÇO

 

14,30h – 16h Sessões simultâneas


SALA 1 – “Socialização e participação cívica e política”

MODERADOR: Bruno Dionísio, ESE de Portalegre e CesNova, Universidade Nova de Lisboa

 

 

Movilización juvenil y estructuras de interlocución política: Jóvenes regidores en los ayuntamientos de Cataluña

Jesús Sanz Moral, ICS, Universidade de Lisboa / Fundação Ferrer i Guàrdia

 

Muchos autores coinciden en afirmar que nos encontramos en un momento en el que se están produciendo cambios significativos en el repertorio, las formas y el sentido de la movilización política de las personas jóvenes. Se concentran en ellos dos elementos aparentemente contradictorios. Por un lado, un mayor desinterés por la política institucional que los adultos y una más grande apatía en relación a las formas convencionales de participación (la electoral, la militancia en partidos políticos y sindicatos, el contacto político institucional,...) y, por el otro lado, un mayor nivel de satisfacción con la democracia como forma de gobierno y un mayor nivel formativo (cosa que tradicionalmente se ha asociado a la participación política). Como consecuencia, vemos que los jóvenes destacan en la realización de actividades políticas “no convencionales”, en muchos casos de carácter reactivo (y no propositivo), con una fuerte presencia en las redes sociales, utilizando internet como medio de convocatoria y divulgación de sus propósitos y crecientemente desvinculadas de las formas de representación institucional. Un claro ejemplo ha sido la convocatoria, en varias ciudades portuguesas, de una manifestación bajo el lema “Geração á rasca”, el pasado 12 de marzo. Una convocatoria que tuvo una gran capacidad de movilización, pero que pone de manifiesto una nueva dificultad: la de canalizar las demandas ciudadanas a las instituciones políticas. Nos encontramos, por tanto, con un problema de interlocución entre los ciudadanos y sus legítimos representantes políticos. Esta dificultad de establecer puentes estables de diálogo y cooperación entre los ciudadanos y las instituciones políticas no solo se percibe en Portugal, sino que es un elemento de preocupación en muchos otros países. Nos preguntamos, por tanto, en una perspectiva macro, si este alejamiento de los jóvenes de las instituciones políticas podría eventualmente provocar una crisis de representatividad y legitimidad de las mismas y, también, en una perspectiva micro, de qué forma se produce la socialización política y cuales son las características de los jóvenes que efectivamente optan por tener protagonismo dentro de las estructuras convencionales de participación política. Esta segunda cuestión es la que centra la atención de la comunicación que desearía presentar al coloquio. En particular, quería compartir las conclusiones de una investigación sobre élites políticas juveniles en Cataluña desarrollada por el Instituto de Análisis Social y Políticas Públicas de la Fundación Ferrer y Guardia. Sus objetivos han sido identificar qué proporción de personas jóvenes son cargos electos en los ayuntamientos de esta comunidad autónoma, y recoger información sobre sus itinerarios de adquisición del compromiso político, su valoración en relación al trabajo desarrollado como representantes de la ciudadanía, y sus opiniones ante el discurso que indica una cierta desafección de los jóvenes en relación con la política. Metodológicamente, se realizó una muestra representativa de 250 municipios y se aplicó un cuestionario a los regidores (vareadores de cámaras municipais) menores de 35 años. En mi comunicación presentaré los datos más relevantes de esta investigación, sin olvidar el marco general de debate teórico sobre los procesos de socialización política y las formas de movilización, representación e interlocución institucional de las personas jóvenes.

 

 

Juventude e Cultura Cívica On-line

Flávia Santos, Universidade Nova de Lisboa

 

A participação política dos mais jovens associada a contextos restritos e formais, ao exemplo do exercício do voto, não traduz o envolvimento juvenil na política em sua totalidade, pois a percepção deste universo em si é concebida e socializada de diferentes maneiras. Por outro lado, as novas mudanças sociais e económicas face à globalização, as novas tecnologias, os media nomeadamente a internet estão a desempenhar um papel paradigmático no que diz respeito ao comportamento cívico e extensão dos laços conectivos. Neste aspecto, o reconhecimento dos jovens per se a respeito de sua posição na sociedade e a percepção que têm sobre questões cívicas e políticas estão a sofrer mudanças significativas num contexto de ambivalências sociais e comunicativas. É importante sublinharmos que a motivação e participação política dos jovens, sobretudo os jovens adultos (20-35) passam pelo reconhecimento deles próprios enquanto actores sociais mediante a significação que atribuem à política, o capital social acumulado e os laços conectivos. A socialização política está ramificada em três tipos de conexões sociais: A rede primária da família, a secundária ligada à associações, instituições e a terciária representada pelas redes de amigos. Todas estas redes direccionam as atitudes e o envolvimento dos jovens à política seja pela via tradicional (organização partidária, associativa) ou manifestações artístico-culturais independentes de cariz político. Paralelamente a estas formas, emerge o novo cenário comunicativo e de narrativas construídas em rede através da internet que influencia cada vez mais atitudes e novos valores acerca do envolvimento político dos jovens. Assiste-se ao reposicionamento individual deste actores que diante das múltiplas demandas de pertença no mundo globalizado torna o envolvimento político mais dinâmico e dependente da formação de novos vínculos sociais fora da família (Rassial, 2007). A extensão das redes sociais on-line bem como a utilização da internet e suas plataformas no alargamento da comunicação e o envolvimento enquanto actores políticos parecem ser peças-chave para entender as actuais dinâmicas sociopolíticas dos jovens apontando para uma nova cultura cívica mediada pela internet. Neste sentido pretende-se decorrer sobre estas questões, apontando para um diálogo que leve a questionar o papel dos jovens na sociedade (portuguesa) actual.

 

 

Associativismo e socialização para a cidadania: uma análise a partir de trajectórias de descendentes de imigrantes em Portugal

Rosana Albuquerque, CEMRI, Universidade Aberta

 

Nesta comunicação apresentam-se resultados de um projecto de investigação sobre a participação associativa de descendentes de imigrantes de origem africana lusófona em Portugal. A partir da recolha de histórias de vida, procurou-se identificar trajectórias associativas e compreender o que leva os/as jovens a envolverem-se no activismo cívico, aderindo a associações ou tomando a iniciativa de realizar projectos próprios, no sentido de identificar os factores facilitadores e as dificuldades subjacentes ao processo de participação associativa. A análise das trajectórias coloca em destaque que a participação associativa é um processo dinâmico e exigente, que implica a convergência entre a posse de recursos e a vontade de intervir na esfera pública. O associativismo revela-se como um projecto que acompanha o curso de vida, numa conciliação indissociável entre capacidade e vontade: a posse de determinados recursos capacita os/as jovens para participar; a vontade que emana das características e motivações pessoais conduz à mobilização dos recursos disponíveis para desenvolver actividades cívicas, ao invés de um investimento em actividades de outra natureza. As motivações para o activismo cívico que emanam dos seus relatos reflectem um equilíbrio positivo entre os contributos do/a activista e os bens tangíveis e intangíveis que recebe e constrói ao longo do percurso associativo, traduzindo complexas opções afectivas e racionais que sustentam a participação com regularidade e continuidade, desde idade jovem até à idade adulta, e que são indissociáveis da (re)construção da identidade pessoal. Os resultados da investigação demonstram, por outro lado, que o associativismo, formal ou informal, acolhe, facilita e estimula processos de vinculação social e de socialização para a cidadania. Tal leva-nos a defender o papel das associações como espaços de educação não formal que potenciam aprendizagens para o exercício da cidadania activa. A promoção e o incentivo ao associativismo devem, assim, constituir um dos alicerces das políticas públicas dirigidas à juventude.

 

 

Experiências de vida de jovens com doença crónica: Que espaços para o exercício de cidadania?

Sofia Castanheira Pais, FPCE, Universidade do Porto; Margarida Guedes, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar; Isabel Menezes, FPCE, Universidade do Porto

 

A investigação revela que o diagnóstico de doença crónica em camadas mais jovens tem aumentado nos últimos anos, apresentando-lhes experiências de vida desafiantes. Como é sabido, a percepção dos jovens com doença crónica sobre os impactos da mesma no seu dia-a-dia varia consoante o tipo de patologia e a severidade com que se manifesta (Oliveira, 2010). Contudo, aspectos de ordem económica, social, cultural, … contribuem também para uma gestão mais ou menos ajustada a estados de saúde crónicos (Shapiro, 2002). Parecem não restar dúvidas sobre a indissociabilidade de agentes e contextos na vivência das pessoas com doença crónica, condicionando a (a melhoria da) sua qualidade de vida (Bronfenbrenner, 1979; Ferguson, 2002). De facto, também a dicotomia público-privado, particularmente no que respeita a grupos historicamente marginalizados (e nos quais se podem enquadrar indivíduos com doença crónica), uma vez que tende a explicar uma certa desresponsabilização abusiva face a situações de discriminação e indiferença emergidas das especificidades dos jovens com doença crónica (Lister, 2007). Este estudo sugere, por isso, uma leitura sobre a vivência e a participação de jovens com doença crónica atendendo a uma abordagem sociopolítica enunciada nos Modelos de Incapacidade (Barnes, 2007). Isto é, um modelo que extrapola o paradigma dominante caracterizado por encarar a incapacidade/doença crónica segundo uma óptica de défice responsável por agudizar a dimensão da necessidade em detrimento da dimensão do direito (Finkesltein, 2004). Ora, se ainda vigoram perspectivas paternalistas legitimadas por discursos de tragédia pessoal, começa a ser progressivamente mais frequente o confronto com novas alternativas e formas de conceptualizar a doença crónica (Nunes, et al., 2006). Trata-se, pois, nesta discussão, de atender ao papel que ocupam as instituições da sociedade civil e o sector político no que concerne à promoção de saúde. Afinal, que lugar lhes tem sido reservado no que toca à (re)configuração de perspectivas de co-responsabilidade e de exercício de cidadania para os jovens com doença crónica? Baseado numa metodologia mista, este estudo inclui i) entrevistas com pais de jovens com doença crónica, profissionais de Educação e de Saúde, ii) grupos de discussão focalizada com jovens com doença crónica; iii) narrativa familiar e iv) inquéritos por questionário dirigidos a jovens com doença crónica. Do confronto metodológico e da abordagem às diversas dimensões exploradas com e pelos actores referidos, será possível uma compreensão mais abrangente e plural da vivência com doença crónica (Barker & Pistrang, 2005). As experiências de vida dos jovens, em particular os ambientes escolar e hospitalar onde se movem e os momentos de transição que marcam as etapas dos seus estados de saúde, serão analisados com especial atenção. Pretende-se, assim, promover a reflexão pública da temática da doença crónica nos jovens salientando os impactos de intervenções, não raras vezes, desajustadas às suas especificidades. Este trabalho dá conta das suas principais necessidades e enfatiza o lugar que ocupam os seus direitos no exercício de uma cidadania que – como mostram os dados – em vez de plena, tende a ser questionada nas mais diversas situações do dia-a-dia.

 

 

Ilusões, desassossegos e desafios sobre a participação das crianças e jovens na escola

Catarina Tomás, ESE Lisboa e CICS/Universidade do Minho; Ana Gama, ESE Lisboa

 

A análise da participação das crianças e jovens na escola adquiriu, nas últimas décadas, uma maior visibilidade social e uma crescente produção académica, sobretudo na sociologia. As investigações neste campo evidenciam a necessidade de uma democratização do papel das crianças e jovens no espaço escolar e a (re)definição do papel da escola na promoção da cidadania. Num ano em que se comemora os 50 anos da Declaração dos Direitos da Criança e 20 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) torna-se pertinente reflectir a (não) acção das crianças e jovens na instituição escola, mais ainda quando a Convenção promove a ideia da participação nas realidades infantis e juvenis. É precisamente sobre o direito de participação das crianças e jovens no contexto escolar que esta comunicação se centra. A partir do trabalho de investigação desenvolvido em seis Agrupamentos de Escolas, alguns dos quais com programa TEIP, situados na área metropolitana de Lisboa, apresenta-se a análise dos discursos de crianças e jovens, dos professores, dos assistentes operacionais e dos mediadores socioculturais sobre a participação. Esta investigação permitiu identificar algumas tensões, nomeadamente a persistência de discursos atravessados por uma aritmética geracional. Identificou-se, também, contradições nos discursos dos actores entrevistados. Por um lado, reconhece-se a necessidade da participação; por outro, não se promovem acções ou se desenvolvem mecanismos e dispositivos que possibilitem a sua real concretização nas (micro)políticas, nos mundos sociais e culturais e nos quotidianos que diariamente permeiam as vidas das crianças e jovens na escola. São identificados ainda, alguns desassossegos, designadamente a insistência em dissociar-se as situações de aprendizagem escolar das situações sociais em que crianças e jovens vivem e vivenciam. Por último, reconhece-se que são vários os desafios que se colocam nesta área: transformar idiomas descoincidentes sobre a participação em princípios comuns a todos os actores da comunidade educativa; considerar as crianças e jovens cidadãos de pleno direito, com competência, acção e voz no espaço escolar; e, repensar as estratégias e a organização das escolas de forma a promoverem lógicas (mais) democráticas com vista à efectiva participação das crianças e jovens.

 

 

 

SALA 2 – “Consumos e lazeres juvenis”

MODERADOR: Rui Gomes, Observatório das Actividades Culturais

 

 

“Conhecer culturas diferentes, aprender coisas novas, abrir a cabeça!” – Consumos culturais, práticas expressivas e gestão de identidades entre jovens portugueses residentes em Amesterdão

Vanessa Cantinho de Jesus, FCSH, Universidade Nova de Lisboa / CRIA, Instituto Universitário de Lisboa

 

Embora a emigração portuguesa não seja um fenómeno novo, nos últimos anos tem-se assistido a um recrudescimento do mesmo com contornos ainda por definir, mas que se diz numericamente equiparável aos grandes fluxos dos anos 60 e 70 do século passado. Grande parte deste movimento será constituído por jovens adultos cujas expectativas, motivações e objectivos se distinguem daqueles que os seus homólogos teriam há três ou quatro décadas atrás. A conjuntura social actual, caracterizada por uma maior facilidade de movimentação entre fronteiras, a evolução tecnológica e das comunicações a nível global; somada às novas competências adquiridas por estes jovens ao nível da educação, do acesso a produtos culturais geograficamente distantes e da própria imaginação e construção de si, concorrem para a criação de desfechos originais. A forma como este jovens encaram a migração, e escolha dos destinos e o que esperam da experiência no local são indicadores desta suposta originalidade e algumas das questões que nos propomos aqui discutir. Esta comunicação parte de um terreno realizado na cidade de Amesterdão entre uma dezena de jovens adultos portugueses residentes naquela cidade. Numa pesquisa em que se deu especial destaque aos seus consumos culturais e práticas expressivas e sua relação com a cultura material, pretendeu-se a partir destas coordenadas contribuir para o estudo dos novos movimentos migratórios portugueses, da manutenção identitária e a relação com a nação neste contexto, bem como para a teorização mais geral acerca do movimento de indivíduos na contemporâneidade e suas implicações na construção de pertenças, bem como a sua relação com as diversas culturas de consumo, sejam elas referentes a objectos, ideias, imagens, locais ou tendências. Gostaríamos, a partir da descrição dos quotidianos, especificidades e discursos de alguns destes jovens, de partilhar os resultados e interrogações que saíram desta investigação e lançar à discussão as implicações dos mesmos para a constituição de um quadro sobre a juventude portuguesa contemporânea.

 

 

Tendências nos tempos livres entre os alunos universitários na Madeira (2011)

Ricardo Fabrício Rodrigues, Universidade da Madeira / SOCIUS

 

As práticas dos jovens no âmbito dos tempos livres dão conta da transferência dos comportamentos centrados nas atividades dos domínios físicos para os ambientes virtuais, permitindo que se sustente a hipótese de que a virtualização em curso seja efetivamente de amplitude larga, cobrindo domínios não laborais ou que extravasam os limites da atividade estudantil, como é o caso do lazer em geral e do lazer juvenil em particular. A utilização dos tempos livres entre os jovens universitários, ainda que não oblitere a simbologia de classe social ou outros processos inerentes à reprodução dos grupos sociais, nos moldes em que decorre, indicia a validade do efeito gravitacional dos comportamentos individualistas, ambivalentes e paradoxais, tão característicos da ação individual na contemporaneidade, só que agora potenciados pela crescente disponibilidade tecnológica que lhe povoa o quotidiano. Na verdade, parecem estar reunidas as condições para que se equacione e refira algumas implicações dum individualismo que se virtualizou, cujo alcance e implicações são agora ainda maiores, com impactos nas práticas sociais, nomeadamente, no que concerne a relações económicas de produção/consumo. Deste modo, o objetivo desta comunicação é apresentar as leituras preliminares resultantes dum inquérito eletrónico levado a efeito entre alunos universitários na Madeira sobre a utilização que dão aos seus tempos livres e, desse modo, contribuir para uma reflexão em torno das tendências no domínio dos consumos e lazeres juvenis.

 

 

“Sem ela era complicado viver”: Representações, crenças e práticas juvenis sobre o consumo de energia

Augusta Correia1; Luísa Schmidt1; Ana Horta1; Susana Fonseca1; Margarida Rebelo2; Marluci Menezes2; Sílvia Almeida2, 1 – ICS, Universidade de Lisboa; 2 – Laboratório Nacional de Engenharia Civil

 

É cada vez mais evidente que os comportamentos têm um papel basilar na questão da eficiência energética. As representações, crenças e valores traduzem-se em comportamentos que afectam a forma como os indivíduos se posicionam face ao consumo de energia. Sendo este um dos maiores problemas globais da actualidade, afectando as condições de vida de milhões de pessoas e comprometendo as gerações futuras, é fundamental promover a mudança de comportamentos, sobretudo junto de populações que têm na sociedade um posicionamento estratégico. Neste contexto, conhecer as representações, crenças e práticas de consumo de energia por parte dos jovens é essencial para conceber medidas eficazes que conduzam à alteração de comportamentos. Nesta comunicação apresenta-se parte dos resultados de um estudo mais vasto que tem como um dos seus objectivos conhecer as atitudes e práticas relacionadas com o consumo de energia em contexto doméstico e escolar, através da monitorização das representações e práticas de consumo de energia dos alunos, bem como da implementação de um plano de intervenção na escola, com o objectivo de incrementar a eficiência energética. É ainda, um objectivo central deste projecto analisar o impacto que a intervenção realizada terá nas famílias e no seu consumo doméstico. Este é assim um projecto de espectro alargado que conjuga a problemática social com a utilização de tecnologias. Os resultados, que têm por base a análise de um inquérito realizado junto de 731 alunos, do 3º ciclo (N=306) e Ensino Secundário (425) de uma escola de Lisboa, permitiram identificar diferenças significativas ao nível de género, grau de ensino e classe social. São as raparigas que revelam maior preocupação com a necessidade de diminuir o consumo de energia, no entanto são os rapazes que demonstram ter mais conhecimentos nesta matéria. Não obstante, verificamos que são as raparigas que estão mais expostas à informação sobre redução do consumo de energia em casa. Enquanto os rapazes demonstram associar mais a energia à ciência e à tecnologia, as raparigas revelam uma visão mais tradicionalista, muito centrada no consumo de energia eléctrica. Ao nível da classe social, verificamos que são os alunos da classe intermédia (Classe B) que revelam ter mais conhecimentos sobre as questões energéticas. Os dados indicam, ainda, uma forte representação das energias renováveis como uma das soluções, ou mesmo a única, para o problema do consumo excessivo de energia. Em alguns casos, esta representação permite inclusivamente sustentar a ideia de que não é necessário poupar energia dada a riqueza do país em fontes de energia renováveis. A redução do consumo de energia como forma de poupar dinheiro encontra-se entre as principais razões que os alunos evocam para diminuir o consumo de energia. Neste caso, é possível constatar que os alunos da classe mais desfavorecida (Classe C) vêem, tendencialmente, a poupança de energia como um benefício para si próprios, ou seja, equacionam-na como uma preocupação de carácter individual, enquanto os alunos das classes mais elevadas (Classes A e B) atribuem uma importância mais colectiva à poupança, considerando-a um benefício para o país.

 

 

SALA 3 – “Território, mobilidade e migrações”

 

MODERADOR: Teresa Seabra, ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa

 

 

Parentalidade e sistemas de “cuidados” às “crianças” de origem angolana em Portugal

Marzia Grassi; Jeanne Vivet, ICS, Universidade de Lisboa

 

A migração do Sul global para o Norte global está em crescimento apesar das políticas migratórias restritivas no norte tornarem difícil para as famílias se movimentarem em conjunto. Isso faz com que muitas famílias vivam fisicamente separadas dos próprios filhos utilizando redes locais e transnacionais para encontrar formas adaptadas para criar as suas “crianças”. A pouca informação que existe sobre as formas de criar crianças transnacionais baseia-se em evidências parciais ou de pequena escala que indicam que existem consequências negativas para o desenvolvimento das crianças bem como custos emocionais para elas assim como para os pais. Estes estudos indicam ainda como os aspectos negativos podem ser compensados pelos efeitos positivos das remessas. Este último aspecto constitui o foco principal à volta do qual a literatura e os debates sobre migração e desenvolvimento se têm debruçado. A presente comunicação propõe um olhar sobre as formas que assumem os cuidados transnacionais às crianças e jovens de origem angolana, em Portugal e como estas afectam as oportunidades de vida daquelas que permanecem no país de origem, dos seus pais migrantes e dos seus prestadores de cuidados entre Angola e Portugal. A partir de um projecto de investigação em curso no ICS-UL financiado pelo programa Norface (TCRAf 2008), tendo em conta uma escala de análise transnacional, será questionada a fiabilidade das noções/pressupostos modernistas nação/tempo/espaço embebidos em conceitos como parentalidade/ acolhimento/integração. Particular ênfase será dada aos desafios metodológicos que a abordagem transnacional apresenta. Serão discutidos, por um lado, alguns aspectos relevantes que emergem das culturas “familiares” diferentes que determinam à partida a representação de cuidados na criação dos filhos em formas também diferentes. Por outro lado será discutido como as “crianças” que pertencem a famílias transnacionais não são contempladas pelas leis portuguesas que regulam o seu acolhimento: a regulamentação que existe abrange exclusivamente os “filhos menores em risco”. As novas formas de família, na realidade, obrigam a repensar a sociedade europeia contemporânea a contar com a presença cada vez mais importante dos imigrantes de outros países e suas famílias. A hipótese que se coloca na nossa comunicação é da existência de uma Consuetudo praeter legem, isto é um “costume além da lei” que disciplina um âmbito ainda não contemplado pela lei em todos os seus aspectos. Considerar a imigração para Portugal como sendo geradora exclusivamente de situações de risco para a educação das crianças no âmbito de famílias transnacionais, parece quanto menos uma visão parcial da mudança social em curso no âmbito da família e da sociedade contemporânea. Os desafios para a implementação de leis internacionais e nacionais para a protecção dos direitos das “crianças” em contextos migratórios são complexos e as “crianças” fazem parte do processo migratório numa variedade de situações distintas. O projecto que estrutura a nossa comunicação pretende estudar em profundidade uma destas.

 

 

“Kông hei fát tch’ói lai si tao loi?”: a apropriação de práticas e referências culturais locais por parte de jovens portugueses em Macau

Inês Pessoa, ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa

 

Em Macau, no contexto do ano novo chinês, é prática corrente os adultos oferecerem “lai-sis” (envelopes vermelhos com dinheiro) às crianças e jovens locais, chineses e macaenses, em resposta à ladainha “Kông hei fát tch’ói lai si tao loi?” (Bom ano novo! Dás-me um lai-si?). Este costume foi, a par de outros (poucos), assimilado por uma parcela da população juvenil portuguesa durante a sua estadia no território, no decurso das duas décadas que precederam a devolução do poder administrativo sobre Macau à China, facto revelador de que apesar do padrão de integração tendencialmente “comunitarizado” dos migrantes portugueses em Macau, o seu alheamento face à realidade circundante não foi total. Baseando o nosso estudo em relatos de vida de jovens portugueses que viveram em Macau no arco temporal referido, é nosso objectivo demonstrar que a prevalência de um modelo “tipo” de adaptação às sociedades receptoras - etnicizado no caso em análise - é compatível quer o desenvolvimento de dinâmicas assimilativas em alguns domínios, quer com processos de contágio cultural entre migrantes e autóctones. Iremos, por conseguinte, deter-nos em torno de alguns exemplos de apropriação de matrizes valorativas e de actuação locais por parte dos jovens e seus familiares, conferindo particular destaque aos factores e contextos que os proporcionaram.

 

 

Leaving for the Passion and the Cause: Portuguese female football talent on the move

Nina Clara Tiesler, ICS, Universidade de Lisboa

 

In the last twenty years, a phenomenon has emerged which is entirely new in the study of youth, gender, migration, women and sport, namely the international migration of female football talent and labour. Just as boys all over the world, also a growing number of girls dream about becoming a professional footballer and pursue this dream at intensively investing into their skills over years. The number of registered players has in fact more than doubled since 2000, with now over 30 million female footballers (FIFA 2007); but until date, “making a living” as a female player is only possible in about 20 out of 168 FIFA-listed women’s football countries. This means for highly talented and skilled young women in 88% of the countries that they actually have to leave their home in order to act as professionals. These movements have appeared before the necessary legal and economic conditions to safeguard WF migrants’ rights had been established, and Portugal is no. 6 in the world ranking with regard to the top level players’ mobility. Furthermore, 13-years-old girls from a number of European countries are ready to migrate once they are not allowed anymore to play in male teams - due to a lack of domestic league competitions for girls of their age group. This is also the case for Portugal. On the basis of qualitative data material derived from an ethnographic case study, the paper presents migration projects (motivation, aspiration, adaptation, and outcomes) of young Portuguese players who went to China, Spain, Iceland, England, Norway and the USA. If there are little or no financial prospects or savings to make, it might be social capital what these women pursue. Or are they on the move for the love of the game? The question for young female football migrants is the same as for other professional athletes, namely which strategies can they develop to turn this social capital into a long-lasting, as a professional football career is short and requires investing in your bodily capital which is only temporary.

 

 

Educação não-formal para jovens migrantes em Portugal: necessidade ou possibilidade?

Raquel Evangelista, Universidade do Minho / FCT

 

Embora Portugal tenha promovido diversas iniciativas com o intuito de melhorar seu sistema de ensino nos últimos anos, os resultados oficiais continuam a ser decepcionantes. Diversas causas podem ser listadas para justificar tal fato. Dentre eles, destacamos a heterogeneidade da população escolar, resultante da migração, e que hoje constituí um desafio para os professores portugueses, uma vez que estes não são preparados adequada para gerir a pluralidade visível nas salas de aulas. O objectivo deste trabalho é identificar de que forma a educação não-formal pode contribuir para amenização da situação exposta e propor uma reflexão sobre a eficiência desta metodologia de ensino junto a um público específico: os jovens migrantes. Para isso, um estudo de caso sobre o Programa Juventude em Acção foi adoptado com método de pesquisa. Esta escolha não é infundada, pois já existe algum consenso com relação a eficiência desta metodologia de pesquisa no campo das Ciências Sociais. Devido ao potencial de expansão inerente a este método (da unidade para o todo), pode-se analisar situações nas quais os comportamentos relevantes não podem ser manipulados, mas onde é possível se fazer observações directas e entrevistas sistemáticas. “…não é uma técnica específica. É um meio de organizar dados sociais preservando o carácter unitário do objecto social estudado" (GOODE & HATT, 1969: 422). No que se refere ao ensino não-formal e à forma como este actualmente é praticado em Portugal, pode-se afirmar que seu reconhecimento como metodologia passa despercebido e ainda são pouquíssimas as entidades que contribuem para uma melhor visibilidade do assunto. O destaque é o Programa Juventude em Acção que, desde 2007, oferece diversas possibilidades de acção e é administrado por uma agência nacional, hierarquicamente submissa à agência executiva em Bruxelas. De uma forma geral, o programa incentiva o desenvolvimento de oito competências de aprendizado junto ao público jovem, além de promover valores como a cidadania europeia, a solidariedade e a tolerância frente à diversidade cultural. Se por um lado o Juventude em Acção oferece novas possibilidades para o desenvolvimento do ensino não-formal e a aquisição de competências conforme a Proposta de Recomendação do Parlamento e do Conselho Europeu; por outro, ainda encontra dificuldades para estimular a participação activa dos jovens portugueses através da elaboração e submissão de projectos que vão de cursos de formação, passando pelo voluntariado, até intercâmbios. A maioria destas actividades envolve jovens migrantes, sobretudo do Brasil, Angola, Cabo Verde e de Moçambique e buscam complementar determinadas acções que deveriam, a princípio, ser realizadas pela educação formal em sala de aula. Os resultados obtidos com a análise de conteúdo do Guia Juventude em Acção 2011 e com os relatórios finais publicados individualmente pelas entidades responsáveis pela execução dos projectos educativos indicam que os jovens migrantes constituem um público-alvo estratégico, mas que ainda necessita de mais apoio no contexto educacional português.

 

 


SALA Polivalente – “Horizontes profissionais e transições para o mercado de trabalho”

MODERADOR: Natália Alves, Instituto de Educação, Universidade de Lisboa

 

 

Jovens, reputação e mercado de trabalho nas artes

Vera Borges, ICS, Universidade de Lisboa

 

Este paper tem como objectivo apresentar os jovens e a sua relação com a reputação, a fama e a notoriedade nas artes. Em particular, analisam-se aqui os mercados da arquitectura, da dança e do teatro que temos vindo a estudar nos últimos anos. A literatura produzida sobre este assunto mostra como a reputação e a fama das “estrelas” tem profundas implicações na sociedade, na cultura, na economia, no mercado e na vida de todos os dias. Muitos autores têm questionado o papel dos “winner-take-all-markets” que açambarcam para si todos os créditos reputacionais e alimentam os sonhos dos mais jovens. Partindo dos resultados de duas pesquisas empíricas, de carácter qualitativo e quantitativo, realizada no interior de 14 ateliers, junto de 23 arquitectos, e junto de 187 bailarinos e actores, procura-se descrever: (1) o papel da reputação no mercado das artes, (2) a desilusão profissional dos jovens arquitectos, bailarinos e actores, caracterizada pelo desejo de deixar a profissão (contudo, nunca chegam realmente a fazê-lo, permanecendo além dos seus limites) e pela quantidade de tempo sem trabalho nas artes; por fim, (c) exploram-se as relações entre a reputação artística e a incerteza profissional nos domínios em análise.

 

 

Novas ocupações para novos profissionais – o caso dos mediadores culturais

Teresa Duarte Martinho, Observatório das Actividades Culturais

 

Na comunicação “Novas ocupações para novos profissionais – o caso dos mediadores culturais” propomo-nos explorar as razões e as configurações do cruzamento de duas juventudes: i) a juventude das ocupações relacionadas com a mediação cultural em Portugal, sendo notória a existência de uma tendência para a generalização deste tipo de actividades; ii) a juventude dos que desempenham funções nessa área profissional, especificamente em instituições e iniciativas situadas nos domínios das artes visuais, música, livro e leitura. O aumento da programação de actividades pedagógicas para os públicos de museus, teatros e outros espaços culturais constitui uma das principais mudanças que marca o sector cultural, em Portugal, nas últimas duas décadas. Surge em consonância com os desígnios de democratização e formação de públicos para a cultura, crescentemente enfatizados e defendidos pelas políticas culturais das administrações públicas nesse horizonte temporal. As actividades de mediação cultural e os seus agentes situam-se numa zona de intercepção entre duas esferas: i) políticas culturais e educacionais – com os seus objectivos e medidas; e ii) instituições com programação cultural, tendo crescente percepção da importância deste tipo de actividades para captar novos públicos e fidelizar os existentes. Ao requisitar diversos agentes, incluindo artistas, para a concepção e realização de visitas guiadas, ateliês, concertos comentados, oficinas e outras actividades de contacto directo com os públicos, o processo de mediação cultural realça a importância dessas figuras, das quais pouco se sabe quanto a: caracterização sociográfica, motivações, conjugação com outras actividades, tipo de vínculo com as instituições empregadoras – entre outros aspectos. Com o estudo Mediação Cultural. Alguns dos seus Agentes – produzido no âmbito da nossa tese de doutoramento em sociologia, pelo ISCTE – procurou-se contribuir para aprofundar o conhecimento das trajectórias e dos perfis dos mediadores culturais. O objectivo principal foi obter um retrato dos profissionais que intervêm em actividades de mediação cultural, promovidas por serviços educativos de instituições culturais ou por programas públicos concebidos no âmbito das políticas nos sectores da cultura e da educação. A partir da caracterização de alguns contextos com actividades de mediação cultural (instituições e iniciativas nos domínios das artes visuais, música, livro e leitura) e da realização de entrevistas aprofundadas a mediadores culturais que neles operam, verificou-se tratar-se de uma população inscrita, maioritariamente, numa faixa etária jovem (concentram-se no intervalo dos 25 aos 40 anos). A análise dos percursos destes entrevistados, alguns com formação e actividade artística, permitiu identificar linhas distintivas e afinidades e, a partir delas, traçar oito diferentes perfis. Cada perfil dá a ver, ao seu modo, a importância que as actividades de mediação cultural representam na definição de horizontes profissionais e na busca de lugares e caminhos no mercado de trabalho – com as especificidades associadas ao trabalho no sector cultural e artístico.

 

 

Transição para a vida independente de jovens com deficiência: políticas públicas e práticas de gestão familiar

Belén Rando, César Madureira, Matilde Gago da Silva, Conceição Baptista, Cláudia Anjos, Instituto Nacional de Administração

 

Na transição para a vida adulta, após a saída do sistema de ensino, os jovens constituem-se como um grupo vulnerável aos apoios (ou falta deles) para que possam ter uma real integração na sociedade. Esta realidade torna-se mais evidente para os jovens com deficiência, que geralmente encontram numerosos obstáculos em consequência da interacção das suas limitações funcionais com outros factores, nomeadamente os condicionantes ambientais (físicos e sociais) e as características individuais. Para eles, a organização familiar revela-se num elemento crucial no preenchimento das suas necessidades, especialmente no caso de jovens com deficiência severa que precisam de assistência de uma terceira pessoa para levar a cabo as actividades da vida diária (i.e. higiene pessoal, alimentação, tarefas domésticas, assistência fora de casa, no trabalho e no lazer). O propósito da presente comunicação é apresentar os resultados parciais do estudo “Transição para a vida independente de jovens com deficiência: políticas públicas e práticas de gestão familiar”, que está a ser desenvolvido pela Unidade de Investigação e Consultoria (UNIC) do Instituto Nacional de Administração (INA, I.P.) em colaboração com a associação Pais-em-Rede (PER). Consoante o Modelo Biopsicossocial, subjacente à Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – CIF (OMS, 2001), e de acordo com o Paradigma da Vida Independente e com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, o objectivo central desta investigação é avaliar a adequação da política portuguesa para a inclusão dos jovens com deficiência que saem do sistema educativo, em função das necessidades destes e das suas famílias. Com esse intuito, esta investigação está a desenvolver-se em duas fases. Numa primeira fase, após a revisão da literatura e da legislação portuguesa, foram identificadas as medidas políticas adoptadas, bem como as entidades centrais e locais envolvidas na implementação das mesmas, onde actualmente estão a decorrer entrevistas semi-dirigidas aos diversos representantes. Numa segunda fase, será efectuado um levantamento de informação sobre as famílias com jovens portadores de deficiência que já saíram do sistema educativo e sobre as práticas de gestão familiar na perspectiva da inclusão social destes jovens e da sua preparação para a vida independente. Este levantamento será efectuado, em primeiro lugar, utilizando a técnica de focus group com famílias nestas circunstâncias. Posteriormente, será levado a cabo um inquérito por questionário de âmbito nacional às famílias com jovens portadores de deficiência que já saíram do sistema educativo.

 

 

“Jovens? Às vezes sim, para sempre.”

Fátima Forreta, Instituto de Educação, Universidade de Lisboa

 

A diversidade da condição juvenil (Pais, 1993) expande-se quando a associamos a um atributo adicional e habitualmente ausente dos estudos sobre o universo juvenil, a ‘deficiência mental’ (nota: não obstante esta terminologia se encontrar em desuso, substituída por deficiência intelectual, optou-se por a manter em virtude de ter sido a utilizada na classificação destas pessoas, num determinado momento das suas vidas). Por outro lado, a apreciação da produção académica nas ciências sociais, em Portugal revela a pouca atenção prestada ao campo teórico da deficiência enquanto construção social, por contraste com a produção teórica anglo-saxónica impulsionada, a partir da década de 70, pelo envolvimento de investigadores com deficiência em movimentos reivindicativos da igualdade, emancipação e direito à plena participação (UPIAS, 1976; Bowe, 1978; Oliver, 1996), e que deu origem ao modelo social da deficiência e incapacidade (Barnes e Mercer, 2003). Partindo da assumpção de que a juventude é uma passagem para a vida adulta, a transição da escola/formação para o trabalho assume particular relevância na independência económica, um dos marcadores clássicos do estatuto de adulto. No que diz respeito aos jovens com deficiência mental, não raras vezes eternizados socialmente como crianças (Amor Pan, 2000; Edgerton, 1967), a literatura sublinha existirem condições de vida que os tornam mais vulneráveis, nomeadamente reduzidas habilidades intelectuais e adaptativas que se traduzem em baixas qualificações escolares (Snell, Luckasson e outros, 2009) e barreiras de natureza social como a marginalização e o assédio (Janus, 2009), aspectos condicionantes dos processos emancipatórios, na medida em que colocam os sujeitos em maior desvantagem no acesso e manutenção do emprego (Barnes e Mercer, 2003). Justapondo conceptualmente juventude e deficiência mental, a presente reflexão pretende focalizar os ‘mundos de vida’ (Pais, 2001) de uma amostra de jovens, que acedeu a programas de reabilitação profissional e emprego por via de medidas inscritas nas estratégias de emprego, específicas para este segmento da população. Com base em entrevistas em profundidade, complementadas com observação de cariz etnográfico de alguns momentos do quotidiano, procura-se mapear as suas trajectórias de vida, as suas representações sobre o lugar que ocupam e os deixam ocupar na sociedade, bem como as suas aspirações.

 

 

 

 

Auditório A. Sedas Nunes – “Educação, formação e aprendizagens”

MODERADOR: Maria Manuel Vieira, ICS, Universidade de Lisboa

 

 

A Escola e os Adolescentes

Maria Gabriela de Sousa Silva, CIES, Instituto Universitário de Lisboa

 

Na minha Comunicação proponho-me falar sobre a Escola e os Adolescentes, numa pluralidade de ângulos e vertentes, atendendo particularmente à instituição escolar como espaço de aprendizagens e de estabelecimento de laços sociais e ao adolescente como elemento preferencial desta comunidade. Mostrarei a Escola como espaço privilegiado de socialização dos adolescentes, ambiente de circulação de ideias, conhecimentos, atitudes, comportamentos, afectos, aprendizagens, hábitos, descobertas, rotinas e ousadias. Falarei dela como ambiente multicultural, multirracial, onde se cruzam costumes, religiões, saberes, competências, teorias e ideologias plurais. Partindo do princípio de que os adolescentes se encontram num processo continuado de crescimento, a minha principal preocupação será mostrar a Escola como peça fundamental do processo de articulação directa com “o outro”, o colega de turma ou de Escola na sua globalidade, levando-os a entender e aceitar a heterogeneidade que os diferencia e congrega no espaço comum que habitam. Os adolescentes transformam-na muitas vezes no seu espaço de quase-Família, pelo cômputo geral das horas que nela permanecem, pelas emoções que nela vivem, pela convivência reiterada com professores, colegas, namorados, amigos ou simplesmente conhecidos, pelas aprendizagens de toda a ordem que nela fazem, pelas competências que nela adquirem, pelas representações e atitudes sociais que a instituição escolar lhes transmite. Na Escola encontram o amigo com quem desabafam os problemas que trazem de casa ou o professor em quem vêem um referente e a quem recorrem no final das aulas para pedir uma opinião, um parecer, uma ajuda pessoal ou até mesmo o apoio para um colega a quem pretendem ajudar e não sabem como fazê-lo. É também na Escola que encontram muitas vezes a “refeição” que lhes faltou em casa, por este ou aquele motivo, sobretudo porque o pai ou a mãe estão desempregados, os manuais escolares que a Acção Social Escolar consegue disponibilizar gratuitamente para eles e que de outro modo não poderiam ter. É a Escola o espaço de preocupação, trabalho e estudo, mas também de diversão e brincadeira, de “fuga” a problemas vários e de encontro e desencontro de afectos e compromissos diversificados. Falarei da Escola actual e apresentarei depoimentos autênticos da realidade escolar resultantes da aplicação de Inquéritos para o efeito realizados. A Escola, o Adolescente, os Amigos, os Namorados, o Professor, a vida da Comunidade Educativa farão parte integrante da minha Comunicação sempre com base em testemunhos reais obtidos junto do público-alvo – a Comunidade Escolar na sua abrangência.

 

 

Novas relações entre jovens e professores: uma crise de autoridade?

João Graça; Manuela Calheiros, CIIS, Instituto Universitário de Lisboa

 

As mudanças ocorridas nas sociedades ocidentais têm levado a um progressivo declínio da influência da tradição e das instituições na formação dos valores sociais (Heelas, Lasch, & Morris, 1996). Paralelamente, à medida que se acentua o declínio da influência da tradição e da transmissão intergeracional de valores, as gerações mais novas tendem a não reconhecer de forma incondicional a autoridade a figuras tradicionais como a polícia, os líderes religiosos e os professores (Thomson & Holland, 2002). Esta realidade não é estranha a Portugal. Com efeito, no contexto nacional, observa-se nos últimos anos uma crescente atenção por parte da comunicação social a episódios de conflito entre alunos e professores, suscitando vagas de discussão não só no meio especializado (professores, psicólogos, etc.), mas também na opinião pública. Questiona-se, frequentemente, a autoridade das escolas e dos professores na sociedade actual. No eco desta discussão, o Ministério da Educação ajusta a sua agenda, reconhecendo que “o problema da indisciplina e da incivilidade, hoje sentido em muitas escolas, compromete a qualidade da relação pedagógica entre professores e alunos, impedindo o desenvolvimento do trabalho e do estudo” (Ministério da Educação, 2007). Partindo da visão de que os professores assumem um papel fundamental no processo de transmissão de conhecimento e respectiva acção educativa, a presente comunicação apresenta um estudo que pretende contribuir para uma melhor compreensão dos factores que afectam o reconhecimento da legitimidade dos professores enquanto figuras investidas de autoridade, por parte dos alunos. Para cumprir este propósito procedeu-se à operacionalização das variáveis Autonomia, Suporte da autonomia e Legitimidade percebida através do recurso a três questionários, aplicados a uma amostra de estudantes do terceiro ciclo do ensino básico e secundário (N=323). Os resultados obtidos indicam que a legitimidade que os adolescentes reconhecem aos professores varia em função da sua percepção de suporte da autonomia. Adicionalmente, sugerem ainda que os jovens mais autónomos vêem os contextos controladores como uma ameaça à sua autonomia, regulando esta ameaça através da rejeição da legitimidade das figuras de autoridade responsáveis por esse controlo. As evidências encontradas acentuam, assim, a importância da qualidade das relações para a legitimação dos professores.

 

 

Percursos escolares na confluência dos contextos familiar e escolar: os jovens como actores plurais

Ana Diogo, Universidade dos Açores

 

Esta comunicação pretende apresentar resultados de duas investigações que desenvolvemos sobre os percursos escolares dos jovens no 9º ano de escolaridade, equacionando os jovens como actores plurais (Lahire, 2008) situados na confluência dos contextos familiar e escolar. Retoma-se, em primeiro lugar, resultados de uma pesquisa realizada na ilha de S. Miguel (Diogo, 2008) que permitiu identificar quatro lógicas de investimento escolar, considerando, por um lado, os projectos escolares e profissionais, bem como a experiência escolar dos jovens e, por outro, os contextos familiar e escolar onde esses se integram. Procura-se mostrar que o investimento escolar se inscreve nos contextos familiar e escolar, salientando, no entanto, como esse é, em última instância, protagonizado pelo jovem. Aprofunda-se, em segundo lugar, a partir de um outro estudo que realizámos na Região Autónoma dos Açores, incidindo igualmente nos jovens a frequentar o 9º ano de escolaridade (Diogo, Caldeira, Serpa e Carvalho, 2008), em que medida os contextos de escolarização se constituem como contextos de oportunidades desiguais na construção dos percursos escolares dos jovens. O investimento escolar protagonizado pelos jovens surge condicionado pelo contexto escolar onde decorre, nomeadamente pelo estabelecimento escolar e/ou pela turma frequentados, podendo estes constituírem um constrangimento a que alguns jovens estão sujeitos ou uma estratégia que é mobilizada. Analisam-se as desigualdades sociais ligadas aos contextos de escolarização, através da composição social das escolas e das turmas, assim como se essas desigualdades afectam os projectos escolares. Em consonância com estudos realizados noutros países (Bressoux, 1994; Duru-Bellat e Mingat, 1993), destaca-se o efeito de turma, mais do que o efeito de estabelecimento, nos percursos escolares dos jovens.

 

 

As imagens na escola: os jovens e a literacia visual

Ricardo Reis, Universidad de Barcelona

 

Esta proposta de comunicação pretende dar conta da investigação em curso, a propósito do doutoramento em Artes e Educação na Universidade de Barcelona, com o tema “O papel da escola no desenvolvimento e valorização social da literacia visual”. Esta tese pretende conhecer e cruzar três discursos diferentes: os discursos do campo científico da Educação Artística: os discursos Administrativos do Ministério da Educação, do Curricula e da Legislação; e os discursos dos sujeitos, ou seja, dos alunos e professores. Na recolha desses discursos diversos métodos de investigação estão em curso. Uma das acções que está em curso é a colaboração de professores de todo o país e de todos os níveis de ensino que me enviam regularmente as imagens que mostram, os materiais pedagógicos usam, e os museus que visitam com os seus alunos. A importância de conhecer estas informações prende-se com as previsíveis implicações que isso terá no desenvolvimento da literacia visual dos alunos, bem como nas suas concepções de arte e cultura visual. Outra das acções de investigação que será levada a cabo (e que à data do congresso já deverá ter decorrido uma sessão de trabalho) pretende reunir um grupo de jovens de 15 anos, em 3 escolas do país, e investigar com eles sobre o que é literacia visual, a que competências se associam, como e onde se adquire. Os resultados a apresentar serão preliminares mas não deixarão de nos dar uma perspectiva sobre que imagens os alunos vêem na escola e como lhe são mostradas. Com base nas perspectivas da Educação para a Cultura Visual e no conceito de direccionalidade de Ellsworth, analisarei as imagens que os professores dizem mostrar aos seus alunos, discorrendo sobre os possíveis efeitos que essas imagens têm no desenvolvimento da literacia visual, colocando-as em contraponto com a cultura mediática das revistas juvenis, da publicidade ou das redes sociais.

 

 

16h-16,30h Coffee Break

 

16,30h – 18h Mesa Redonda – Auditório A. Sedas Nunes

Portugal na Europa: políticas de juventude e transições em debate

 

Helena Alves, Presidente do Instituto Português da Juventude

Luís Capucha, Presidente da Agência Nacional para a Qualificação,I.P.

Dulce Moura, Dinâmia/CET, Instituto Universitário de Lisboa

João Cóias, Ministério da Justiça

 

MODERADOR: Mª das Dores Guerreiro, ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa


 

3 Junho

 

 

10,00H-11,15H Conferência plenária – Auditório A. Sedas Nunes

"Gangs Attack! Capitals and subaltern creativity in street organizations"

Luca Palmas, Universidade de Génova

 

11,15H-11,30H Coffee Break

 

11,30H-13,00H Sessões simultâneas


SALA 1 – “Identidades e culturas juvenis”

MODERADOR: Vítor Sérgio Ferreira, ICS, Universidade de Lisboa

 

 

The disenchanting of youth studies: from its exocitazion to its failure to explain the today’s global revolution of youth

Jordi Nofre, CesNova, Universidade Nova de Lisboa

 

Along these latter decades, consumption and leisure has become central in the configuration of subcultures and youth identities. This fact has been considered by many authors as a clearer de-politicization of Western youth subcultures, though other ones have come recently suggesting their hypothetic re-politicization. In that sense, some episodes of youth violence as well as an increasing number of demonstrations mainly played by young people throughout not only the Western world would be able to be considered as examples of this re-politicization of global youth. However, youth studies do not reflect this fact, avoiding a political interpretation of the recent global revolution of youth by excessively focusing in highly-exoticized, de-politicized case studies. Focusing on the case of Portugal, this paper aims to present some notes about what I call “the disenchanting of youth studies”. In that sense, this paper pretends to highlight the reasons because today’s youth studies in Portugal do provide no answers to the so-called “geração à rasca” [hard up-generation]. To exemplify this, I will focus on how Portuguese youth studies have been contributing to de-activate the so-called “working-class question” among Portuguese youth by displacing, marginalizing class-based studies, prioritizing highly-exoticized case studies of youth subcultures and paying no attention to the decline in the living conditions of youth. Hence this paper pretends to open a debate on how refocusing youth studies in Portugal to be able to “answer” today’s challenges faced up by Portuguese youth.

 

 

 

 

Não tem nada a ver com seres preto ou não, não podes é ir vestido à ‘mitra’, tens de ir vestido à ‘beto’.” – Consumo, classe social e estratégias de posicionamento de um grupo de jovens migrantes em Lisboa

Marta Vilar Rosales; Vanessa Cantinho de Jesus, FCSH, Universidade Nova de Lisboa / CRIA, Instituto Universitário de Lisboa

 

Esta comunicação é fruto de uma etnografia levada a cabo na zona metropolitana de Lisboa que teve como objecto vários grupos de jovens de origem angolana e os seus quotidianos. A partir da observação intensiva das culturas materiais, práticas de consumo e processos expressivos de apropriação desenvolvidos por estes, num terreno complexo como são os das culturas juvenis em contextos migratórios, procurou-se chegar às modalidades a partir das quais negoceiam e gerem os seus posicionamentos no quadro da sociedade portuguesa contemporânea. Tais modalidades irão aqui ser discutidas e equacionadas no quadro dos estudos sobre segundas gerações migrantes, chamando-se a atenção para a necessidade de se reverem as abordagens exclusivamente centradas na etnicidade. Esta linha de discussão sustenta-se nos resultados apurados que parecem apontar para a importância de factores que, a par das especificidades inerentes a esta condição específica, intervêm decisivamente nos processos de relacionamento com as diferentes instituições e demais agentes sociais. Chamar-se-á particularmente a atenção para a centralidade que a classe social, tanto nas suas dimensões objectivas (recursos) como subjectivas (identidade), parece adquirir enquanto factor estruturante das práticas e dos discursos dos jovens acerca das suas experiências de vida e dos posicionamentos que assumem face ao que os rodeia. Irão descrever-se os quotidianos dos jovens, as suas expectativas face ao futuro, os seus relacionamentos com as instituições sociais e as suas representações e discursos dominantes sobre os contextos de origem e acolhimento; e ao mesmo tempo observar-se criticamente um conjunto significativo e plural de práticas de consumo (alimentação, vestuário, música, tecnologias de informação) e discutir de que formas estas participam, confirmam, expressam, e objectificam as trajectórias percorridas, as pertenças e as referências dos jovens face as diferentes esferas que compõem e estruturam os seus quotidianos enquanto filhos de imigrantes no Portugal contemporâneo.

 

 

O grupo de pares nas trajectórias para a vida adulta. Red Eyes Gang ontem e hoje

Otávio Raposo, CIES, Instituto Universitário de Lisboa

 

Red Eyes Gang é o nome de um colectivo informal de jovens que vive na Arrentela, margem sul de Lisboa. Mais de 15 anos se passaram desde a sua formação em 1995, quando um número restrito de rappers criou este emblema de grupo para dar “corpo” às suas amizades e impulsionar os seus projectos musicais. Na pesquisa que realizei no bairro entre os anos de 2005 e 2006 – quando contabilizei cerca de 40 rappers – pude perceber que a pertença a esta crew não se limitava aos cantores de rap, pois abrangia todos aqueles que conviviam nas ruas da Arrentela. Embora o hip hop (o estilo rap em particular) tivesse importância nas referências culturais do grupo, não definia a priori os participantes do colectivo. A partilha de um mesmo estilo de vida e a vivência de experiências em comum nas ruas do bairro era o que determinava a adesão ao Red Eyes Gang. Estabeleciam entre si uma sociabilidade inovadora, estruturada em torno de uma “cultura de rua”, sendo o resultado de uma identidade territorial, um símbolo identitário de reconhecimento e de demarcação com jovens de outros bairros. Actualmente, as ruas da Arrentela deram lugar a uma outra geração de jovens. São eles os novos “donos do pedaço”, os novos responsáveis por agitar a “bandeira” do Red Eyes Gang. Aqueles que estiveram na origem desta crew já não são assim tão jovens. A trajectória para a vida adulta, com o aumento das responsabilidades daí decorrente, significou, para grande parte deles, o abandono progressivo da produção artística e do tempo disponível para estar na rua a conviver. Uns casaram e tiveram filhos, tendo empregos mais ou menos estáveis. Outros foram presos (alguns deles continuam “de cana”), muitos emigraram e uma minoria continua a parar na street para conversar, embora não com a frequência de outrora. Anos depois da minha primeira entrada no “terreno”, regresso à Arrentela para conversar com alguns dos meus antigos entrevistados e discutir algumas questões fundamentais sobre as culturas juvenis. Uma delas relaciona-se justamente com o significado de ser jovem para eles. Ao rejeitar a perspectiva da juventude como uma condição natural, quero compreender o sentido que eles dão a esta categoria, utilizando uma abordagem que seja simultaneamente relacional e situacional. Também pretendo expor os seus percursos biográficos, tendo como objectivo compreender se a pertença a esta crew operou, no caso deles, como um recurso de integração social. Ou se, pelo contrário, potenciou percursos “marginais”, derivados de uma “cultura de rua” antagónica aos valores necessários para conseguirem empregar-se ou manter-se nos postos de trabalho, em que a precariedade e a subalternidade são, ambas, características marcantes, principalmente nos sectores de serviços. Acompanhar os mesmos jovens em diferentes períodos de vida e momentos históricos poderá proporcionar uma visão mais aprofundada da juventude, podendo dar novas “luzes” sobre a importância dos grupos de pares e das expressões artísticas nas suas vidas.

 

 

Rock é juventude! Práticas, gostos e fruições musicais nas cidades, um ensaio tipológico dos públicos de uma cena

Paula Guerra, IS-FL, Universidade do Porto

 

Iremos traçar um retrato tendencial dos públicos que frequentaram e fruíram de espaços de divulgação musical e sociabilidades nocturnas do Porto e de Lisboa entre 2007 e 2008, levando-nos a discutir se estamos perante um conjunto de agentes sociais onde são visíveis os efeitos geracionais de uma «cultura de saídas», em virtude da sua maior disponibilidade temporal e etária. O exercício será ainda enriquecido pela identificação e matização explicativa das pertenças e vinculações musicais e sua interligação com uma condição etária e geracional, demonstrando a pertinência de um questionamento de uma orientação musical única, absoluta e tutelar no universo de saídas juvenis. A importância que, de uma maneira geral, os jovens atribuem à convivialidade musical pode interpretar-se como um signo geracional próprio das culturas juvenis, interessando discutir a própria abrangência e contornos do que geralmente apelidamos de jovens. É em redor das actividades de lazer que a juventude ganha, em certo sentido, especificidade unitária, mas é igualmente a partir dessas actividades que melhor podemos compreender as diferentes culturas juvenis e, a partir destas, a juventude na sua diversidade sócio-musical. Assim, a heteronomia da condição juvenil serve tanto para os que são biologicamente «jovens», como de um modo geral, para o conjunto da sociedade: veja-se a idolatria da beleza e de uma «eterna juventude». Jovens não são somente aqueles que biologicamente podemos caracterizar como tal, mas antes, todos os que se deixam guiar por um modo de vida juvenilizado, ou aqueles que adquirem ou procuram mais ou menos intensamente posturas e práticas ditas juvenis. Complexificando a análise, iremos aprofundar o olhar acerca daquilo que designamos como «encontro feliz» entre as disposições juvenilizadas (ou seja, susceptíveis de se identificarem com o arbitrário socialmente constituído para designar o que é a juventude) e as posições objectivas disponíveis no espaço social da cultura urbana é tudo menos fortuito. Resulta precisamente dos jovens estarem predispostos a reverem-se neste género de cultura («isto é para a malta nova», «é preciso ser jovem para se compreender isto», «vá-se lá entender estes jovens», etc.) porque são eles que se encontram dotados quer com os recursos (onde se incluem os interesses, ou seja, os propósitos), quer com a oportunidade (como algo que vem a-propósito, isto é, simultaneamente conforme as expectativas e as possibilidade que se têm), quer ainda com as pré-disposições que os sensibilizam a apropriarem-se destes produtos como apropriados para eles (como estando no seu «destino» de jovens). É este concerto não intencionado entre disposições interiorizadas e posições (culturais) ocupadas que fornece a aparência de uma vontade tipicamente juvenil que precipita os jovens nas malhas das sociabilidades urbanas. Os jovens são os depositários mais fiéis destas dinâmicas culturais porque, em virtude da sua condição social objectiva, são aqueles que reúnem os meios e as intenções para se reconhecerem como tal, fazendo emergir uma homologia entre corpos jovens e as coisas cria e anima os espaços e os tempos da cultura urbana musical.

 

 

SALA 2 – “Jovens, media e tecnologia”

MODERADOR: José Alberto Simões, CesNova, Universidade Nova de Lisboa

 

 

Jovens fãs de celebridades: do consumo à participação

Ana Jorge, CIMJ, Universidade Nova de Lisboa / FCT

 

A partir de um estudo de doutoramento sobre a relação dos jovens com a cultura das celebridades, exploramos nesta comunicação as dimensões de consumo e participação implicadas nas práticas de jovens fãs. A categoria de celebridade representa a fusão dos discursos mediáticos de entretenimento e informação, editorial e publicidade, circulando as figuras desta cultura entre os vários produtos dos media. Esta cultura especialmente fluida é favorecida pela organização comercial dos media e das indústrias culturais, resultando numa influência comercial e simbólica particularmente eficaz para promover os próprios media e seus conteúdos a baixos custos, outros produtos e objectos, sobretudo de estilo de vida. No entanto, as celebridades cristalizam também debates sobre valores, revelando a importância das identidades na sociedade contemporânea. Não sendo as únicas audiências desta cultura, os jovens ocupam aí um lugar privilegiado, no quadro do seu lazer e consumo hedonista. A cultura das celebridades ajuda, assim, a dar visibilidade aos jovens no espaço cultural e social, reclamando a importância do lazer na juventude e contribuindo também para uma incipiente participação cultural. Em particular, os fãs desenvolvem sociabilidades em torno das suas celebridades, que lhes permitem não só aprofundar redes sociais imediatas como estabelecer novas redes. O estudo baseou-se nas entrevistas a 12 jovens fãs entre os 12 e 17 anos, produtores ou participantes em blogues e redes sociais de celebridades, nomeadamente Tokio Hotel, Crepúsculo e seus actores, Miley Cyrus e Justin Bieber. Foi também conduzida observação participante em encontros de fãs, dias de concertos, flashmobs e eventos comerciais em redor destes artistas ou produções, bem como análise de debates em blogues. As entrevistas a directores de media juvenis complementaram esta incursão no campo das interacções entre fãs. Através da exploração das figuras das celebridades, os jovens fãs desenvolvem mais sentido crítico acerca do comercialismo desta cultura, mas continuam ávidos para consumir os produtos da celebridade e exercer as suas práticas de fãs. Por outro lado, as celebridades a que se dedicam tornam-nos mais cientes de questões como direitos de autor, procedimentos de produção e participação nos media, como dar entrevistas e manter o seu próprio blogue, fontes e reflexões sobre os limites da privacidade da cobertura sobre celebridades. Os fãs entrevistados mostram como estas celebridades globais os levaram a explorar mais línguas e culturas estrangeiras e a valorizar a discussão e o encontro com outros fãs. As suas práticas de fãs não passam apenas pelo consumo de produtos das celebridades, como livros, CDs, concertos, etc, mas também por trocas e procura de objectos únicos. Embora possam ser críticos acerca da dimensão comercial desta cultura, mostram-se também bastante ávidos em consumir, falhando um nível de activismo ou lobbying na prossecução dos seus objectivos enquanto fãs e consumidores. Este trabalho pretende, assim, destacar as práticas dos jovens fãs, particularmente com recurso às tecnologias digitais, na construção de espaços culturais de lazer e sociabilidade que se revelam como embriões de experiências de participação cultural, ainda que bastante influenciadas pelas indústrias.

 

 

Jornalismo e jovens: as pontes entre o online e tradicional

Maria José Brites, CIMJ, Universidade Nova de Lisboa / FCT; Cristina Ponte; FCSH, Universidade Nova de Lisboa; Isabel Menezes, FPCE, Universidade do Porto

 

A construção da cidadania numa sociedade mediatizada é sempre tipificada através de consumos, no sentido atribuído por Appadurai (2003: 3), enquanto elementos de empoderamento. Entre esses consumos estão os das notícias, que continuam a ser importantes janelas para o mundo. Sendo os jovens identificados como os experts na internet – geração digital, nas palavras de Don Tapscott (1998) –, colocámos a seguinte questão no âmbito de uma investigação de doutoramento sobre jovens, jornalismo e participação: O jornalismo enquanto profissão continua a ser importante ou não faz sentido pois qualquer cidadão pode ser informador? Através desta questão aplicada em mais de 30 entrevistas realizadas a jovens (15-18 anos), de diferentes perfis e origens sociais, potenciamos o confronto entre uma tendência de associar linearmente a cultura juvenil à cultura online e o que revelam as vozes dos próprios jovens relativamente à informação e ao jornalismo. As respostas indicam uma ambivalência muito grande, entre uma aproximação à informação alargada e sem triagem profissional que os entrevistados sentem que podem encontrar na internet e a segurança que encontram na informação feita por jornalistas, seja online ou não. Um dos jovens mais digitalmente incluídos (Writer de graffities, MC e produtor activo de conteúdos de internet, numa página pessoal e no MySpace) respondeu: “O jornalismo para mim é das profissões mais importantes. Há bons jornalistas e há os jornalistas do YouTube”. As respostas nem sempre são a preto e branco e revelam que também estes jovens se sentem em fase de adaptação a estas novas realidades, tal como acontece com outras faixas etárias. Aprofundando estas ambivalências, procuraremos entender as representações sobre informação nos jovens, evidenciadas nos discursos sobre a informação que preferem, quer seja na dimensão mais tradicional quer seja na mais actual, como o YouTube ou os blogues. Se os bloguers podem actuar como jornalistas acidentais, pluralizando a esfera pública nos seus dois modelos de ligação ao jornalismo: (como líderes de opinião e como meios de monitorizar as notícias) e ser watchdogs do jornalismo (Papacharissi, 2009: 37), será que esta dimensão está presente nos discursos dos jovens? Para melhor compreendermos estas complexidades, vamos analisar os discursos dos jovens entrevistados quanto às suas atitudes e práticas relacionadas com a participação e com o jornalismo, dando conta dos seus resultados nesta comunicação.

 

 

Lugares dos Jovens: Pontos de Partida, de Viragem e de Chegada

Raquel Pacheco, CIMJ, Universidade Nova de Lisboa

 

O objectivo deste trabalho é apresentar e analisar trechos de um diário de campo de uma pesquisa etnográfica envolvendo jovens de uma escola dita “problemática” de Lisboa. Através deste trabalho empírico fomos perceber a visão destes jovens, como eles se vêem e pensam ser vistos pela sociedade (o que inclui o cinema, os media, etc.) em que fazem parte. Nosso ponto de partida foi trabalhar conceitos como violência e cidadania a partir da exibição dos filmes Zona J e Cidade de Deus. A intenção era realizar debates em grupo, entre outras actividades, onde esses temas fossem trabalhados de acordo com a realidade e o dia a dia destes jovens. A filosofia deste trabalho de campo foi baseada na pedagogia dialéctica de Paulo Freire. Foi através do diálogo problematizante desenvolvido principalmente após a exibição dos filmes, nas aulas e nos encontros de uma maneira geral, que pretendíamos estimular o questionamento e a problematização destes jovens. A partir de questões, opiniões e ideias, realizamos um vídeo onde estes jovens foram os protagonistas, tanto no processo de idealização (pré produção), como no processo de produção/execução e pós produção (edição, música, etc.). O vídeo que veio a ser realizado (no final do projecto) é um documentário de 13 minutos, composto basicamente por depoimentos de vários jovens (alguns alunos da turma, outros alunos da escola e também de fora dela) e seu objectivo foi ser o veículo para que estes jovens tivessem voz, contassem a sua versão da história e fossem protagonistas do seu próprio filme, da sua própria história de vida. Dividimos esta experiência em três partes ou pontos, pontos de partida, de viragem e de chegada, estes pontos mostram as acções e reacções destes jovens durante o processo de realização do projecto como um todo, suas ideias, expectativas, opiniões foram registadas num diário de campo e será analisado nesta comunicação.

 

 

Jovens, Individuação e redes sociais

Pedro Daniel Rodrigues da Costa, Universidade do Minho

 

Este artigo é uma síntese de algumas das conclusões da tese “Esboços de uma percepção Cyborg. Ligações entre jovens portugueses e o social-networking Hi5”. Aqui é analisada a relação excêntrica entre jovens e redes sociais digitais, nomeadamente o Hi5 e o Facebook. Usando o conceito de individuação como conceito central para perceber as dinâmicas e os fluxos entre humanos e computadores, tenta-se esboçar sobre um novo tipo de percepções que parecem emergir de uma relação metaestável, tensa, por cima de um nível normal de estabilidade, e que contribui para a formação de uma cultura juvenil que escapa às formas tradicionais das culturas anteriores. Sob o prisma da metamorfose, resultado de complexos processos de individuação, a relação entre jovens e computadores é aqui entendida como uma fusão de processos meio humanos e meio tecnológicos, dando origem não a uma metamorfose física entre antropológico e tecnológico mas a uma metamorfose sensorial e perceptiva, repleta de misturas entre orgânico e inorgânico, algo que origina aquilo a que Perniola (2004) apelidou de uma nova «ordem sensológica». Marcada por esta ordem sensológica, mas também por uma tendência para a «mobilização infinita» (Sloterdijk, 2008) num tempo onde se usam «meios sem fins» (Agamben, 1996)), e enquadrada num sistema reticular que permite ora o alargamento ora o fecho das dinâmicas de socialização, a cultura juvenil de hoje pensa, age e sente de forma muito diferente do passado.

 

 

 

SALA 3 – “Corpo, saúde e sexualidades”

MODERADOR: Vanda Aparecida da Silva, CRIA, Instituto Universitários de Lisboa

 

 

Consumo alimentar das crianças e adolescentes: uma reflexão crítica sobre as biopedagogias nas escolas

Mónica Truninger, ICS, Universidade de Lisboa, Vanda Aparecida, CRIA, Instituto Universitário de Lisboa, Sílvia Alexandre, SOCIUS e Ana Horta, ICS, Universidade de Lisboa

 

Hoje em dia assiste-se a uma crescente mobilização sócio-política em torno do combate à obesidade infantil e juvenil. Um dos palcos desta mobilização é a escola, vista como espaço idealizado e promotor de consumos alimentares mais saudáveis. Esta ‘guerra à obesidade’ é posta em prática através do recurso a dispositivos de educação alimentar, de certo modo, àquilo que Wright e Harwood (2009) denominam por ‘bio-pedagogias’. Este conceito baseia-se na noção Foucauldiana de ‘biopoder’, e expressa em parte, mas não só, as iniciativas para normalizar os corpos das crianças e dos adolescentes de acordo com as imagens de saúde legitimadas e colectivamente partilhadas, sobretudo veiculadas nas sociedades ocidentais ou ocidentalizadas. Estas iniciativas envolvem a melhoria dos hábitos alimentares das crianças e adolescentes em idade escolar, e constituem, por exemplo: as refeições escolares saudáveis, a educação nutricional e alimentar na sala de aula, a monitorização regular do índice de massa corporal, as recomendações governamentais sobre quais os alimentos que devem ser encorajados ou restringidos nos menus das cantinas e nas cafetarias das escolas. O objectivo desta comunicação é convidar a uma reflexão crítica sobre as várias formas de implementar a governamentalidade de corpos saudáveis através destas biopedagogias, tendo em consideração os seus efeitos nos hábitos e gostos alimentares das crianças e adolescentes (Leahy, 2010). Esta reflexão será consolidada com base numa análise preliminar de dados documentais realizada no âmbito de um projecto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia sobre as várias iniciativas e programas que estão a decorrer para implementar refeições mais saudáveis nas escolas portuguesas. Esta reflexão crítica debruça-se sobre o quadro de representações e valores subjacente a estas biopedagogias implementadas em Portugal, e tenta avaliar as suas implicações e potenciais impactos no desenhar de determinados perfis de educação alimentar. Por exemplo, perfil de consumidor versus o de cidadão; educar crianças e adolescentes a moverem-se num contexto de mercado versus num contexto de comunidade ou cultura alimentar local; fomentar um envolvimento com a alimentação restrita às suas qualidades nutricionais versus um envolvimento mais alargado a outras qualidades alimentares, por exemplo, ética, cultura local, sustentabilidade, prazer e gosto pela comida independentemente das questões nutricionais e de saúde.

 

 

Imagem corporal e excesso de peso em adolescentes

Daniel Ataíde Sampaio, Maternidade Dr. Alfredo da Costa; Abílio Oliveira, CIES, Instituto Universitário de Lisboa

 

Em Portugal, a incidência e a prevalência da pré-obesidade e da obesidade têm vindo a aumentar, assumindo particular relevância na adolescência, período de intenso desenvolvimento, nomeadamente cognitivo, emocional e corporal. Caracteriza-se por profundas transformações físicas, psicológicas e sociais, aceleração de crescimento e, consequentemente, pelo aumento das necessidades energéticas. O elevado grau de insatisfação com a imagem corporal, entre a população adolescente com excesso de peso (pré-obesidade ou obesidade), associado a um potencial isolamento social, poderá influenciar negativamente o seu desenvolvimento. Apresentamos um estudo exploratório que teve como grande objectivo verificar de que modo a imagem corporal e o padrão alimentar, numa população adolescente, varia em função das pertenças sociais (sexo e idade) e índice de massa corporal (IMC). A amostra englobou 290 adolescentes de ambos os sexos com idades compreendidas entre os 14 e os 19 anos, estudantes do terceiro ciclo do ensino básico e secundário, em 2009/2010, em escolas do Montijo. Os dados foram recolhidos através de um questionário de frequência alimentar, de uma Escala de Estima Corporal (Franzoi e Shields, 1984) e um Inventário de Esquemas de Aparência (Cash e Labarge, 1996). Os estudantes foram medidos e pesados e calculado o seu IMC, de acordo com as regras internacionais. Os dados foram tratados através de Análises Factoriais de Componentes Principais, para descrever a estrutura factorial das escalas utilizadas, análises de variância e análises correlacionais. Verificámos que os rapazes de 17-19 anos com excesso de peso consumiram mais álcool, o que pode indicar uma função social de integração no grupo de pares, em que o consumo baixo a moderado poderá ter um efeito protector e, por outro lado, um consumo excessivo poder ser prejudicial. Os adolescentes mais velhos com excesso de peso consumiram mais fast-food, o que parece indicar a instalação de maus hábitos alimentares, bem como os mais novos (14-16 anos) sem excesso de peso, o que nos leva a pensar que a opção por alimentos de baixa densidade nutricional e com elevado conteúdo calórico representam um comportamento de risco para o ganho de peso. Daqui emerge a necessidade de agir através de regulamentos que definam as porções e o tipo de alimentos que podem ser consumidos. Por outro lado, os adolescentes mais novos sem excesso de peso revelaram mais Crenças e Estereótipos de Aparência Física, o que se associa a uma Identidade pouco definida, em que a avaliação dos outros é fundamental para a auto-estima e integração grupal; os adolescentes mais velhos com excesso de peso também mostraram ter mais Crenças e Estereótipos de Aparência Física, o que parece relacionar-se com a estigmatização do corpo socialmente, em que a Crença de que um corpo mais «aceitável» traria mais felicidade. Os adolescentes com pré-obesidade e obesidade foram os que mais evidenciaram insatisfação com a sua imagem corporal e sexualidade, revelando uma maior vulnerabilidade em relação à sua aparência, o que nos sugere programas de prevenção que incluam questões relacionadas com a promoção da saúde, incluindo a satisfação com o corpo, a socialização, o estilo de vida e alimentação.

 

 

 

 

A relação dos jovens com os serviços e os profissionais de saúde: Um primeiro olhar pela lente de um grupo de adolescentes

Mª da Graça Vinagre, Escola Superior de Enfermagem de Lisboa; Luísa Barros, FPCE, Universidade de Lisboa

 

A aceleração e a diversidade das mudanças sociais e culturais que animam as sociedades actuais impõem aos jovens novas realidades nos seus múltiplos contextos de vida. Contextos que, numa fase de transição crucial do seu desenvolvimento, poderão dificultar o confronto com as incertezas internas e externas, assim como potenciar as (in)vulnerabilidades designadamente nos seus percursos de saúde. Os dados disponíveis indicam que os adolescentes procuram menos os serviços de saúde do que o esperado e desejável pelos profissionais, sobretudo em situações de promoção e manutenção da saúde e bem-estar. O que é relevante não só pelas ameaças associadas aos comportamentos de risco desta etapa da vida, e pelas actuais instabilidades sociais, bem como pelo facto dos hábitos de saúde e os padrões de utilização dos serviços terem tendência a manter-se na idade adulta. Reafirmando as ideias de alguns autores, consideramos que se sabe muito pouco sobre as opiniões e preferências dos jovens em relação aos cuidados de saúde e que as politicas e os programas baseados apenas nas ideias dos adultos, sobre como devem ser os cuidados aos adolescentes, têm uma eficácia reduzida. Reconhecendo a importância das ideias dos jovens e acreditando no seu contributo para a mudança dos olhares e das práticas dos profissionais, com este estudo pretende-se explorar e analisar as perspectivas dos adolescentes sobre os serviços e os profissionais de saúde no âmbito dos cuidados de saúde. Em particular, e numa primeira fase, propomo-nos conhecer os pensamentos, sentimentos, preferências e a avaliação subjectiva das experiências de atendimento dos adolescentes em serviços de saúde. Trata-se de um estudo misto, integrando metodologias de natureza qualitativa e quantitativa. Nesta primeira fase, de natureza exploratória e qualitativa, apresentam-se os dados obtidos através da realização de grupos focais “focus group” e de grupos nominais “nominal group technique” efectuados em escolas públicas de Lisboa, onde participaram 64 adolescentes com idades compreendidas entre os 13 e 17 anos. Os dados, submetidos a análise de conteúdo, espelham as ideias e os sentires dos jovens, realçando-se algumas preferências relativas às condições dos serviços e às atitudes dos profissionais de saúde no atendimento, contribuindo para a etapa seguinte deste estudo através da identificação das dimensões e indicadores mais relevantes com vista à elaboração de um inquérito por questionário a submeter a uma amostra mais alargada. Espera-se que os resultados do estudo mais amplo constituam um contributo relevante para informar mudanças, quer nas políticas de saúde quer nas práticas dos profissionais, que se pretendem mais ajustadas às necessidades e preferências dos adolescentes.

 

 

Caracterização dos Comportamentos alimentares dos alunos do Instituto Politécnico da Guarda

M. E. Ferreira; R. B. Tracana; J. Leitão; Francisca Oliveira; Filomena Velho; C.F. Reis, Instituto Politécnico da Guarda

 

Este estudo insere-se num projecto em Educação e Promoção da Saúde sendo privilegiada a investigação sobre o estilo de vida dos indivíduos que se tem demonstrado condicionar o seu bem-estar e, por conseguinte, o seu estado de saúde. O objectivo desta investigação é caracterizar o estilo de vida dos jovens do Ensino Superior Politécnico da Guarda. A avaliação dos comportamentos de saúde é realizada através da aplicação de um inquérito por questionário. O nosso instrumento de recolha de informação, incide sobretudo sobre três aspectos fundamentais, hábitos alimentares e de actividade física, contexto social e económico, dos alunos. Este estudo, tem por objectivo a cobertura das quatro escolas que compõem o nosso Politécnico, bem como os diversos cursos e anos lectivos, sendo que neste momento já se procedeu ao levantamento da Escola Superior de Saúde, dados sobre os quais já se procede à análise dos resultados obtidos no trabalho de campo. Em momentos posteriores iremos proceder com outros instrumentos de recolha de informação, in loco, através de grelhas de observação, de forma a registar junto dos alunos, as suas práticas alimentares nas diversas cantinas da nossa Instituição. O culminar deste projecto, implicará seguramente, um conjunto de recomendações à instituição por relação aos dados obtidos em cada escola bem como ao nosso objecto de estudo que são os nossos alunos, no sentido de potenciar mudanças de atitude face ao estilo de vida.

 

 

 

SALA Polivalente – “Horizontes profissionais e transições para o mercado de trabalho”

MODERADOR: Natália Alves, Instituto de Educação, Universidade de Lisboa

 

 

Retratos do desemprego juvenil: Portugal no contexto Europeu

Sérgio Estevinha; Luísa Oliveira; Helena Carvalho; Luísa Veloso, CIES, Instituto Universitário de Lisboa

 

Este artigo analisa o desemprego juvenil nos países da UE. A abordagem realizada tem uma perspectiva de natureza estrutural procurando escrutinar em que medida o desemprego juvenil tem características específicas associadas ao ciclo de vida dos indivíduos e, em particular, à transição entre a escola e o mercado de mercado ou se, pelo contrário, o fenómeno tem uma dimensão idêntica para todos os trabalhadores independentemente da idade. Para o efeito, compara-se a taxa de desemprego juvenil com outros grupos etários, assim como a evolução do desemprego em gerações distintas de trabalhadores nos últimos 20 anos. São ainda analisados outros aspectos associados ao desemprego dos jovens, nomeadamente o desemprego de longa duração, a estrutura de habilitações e as estratégias de procura de emprego nos diferentes países da UE. Para uma interpretação sustentada dos dados, a análise do desemprego é por vezes acompanhada pela das taxas de actividade, de natalidade, de emprego e de emprego a tempo parcial. O estudo foi feito com base em informação estatística do Eurostat e a análise articulou a comparação intra e interpaíses, tendo-se aplicado uma análise factorial não-linear – Principal Component Analysis for Categorial Data (CatPca) – para definir estratégias-tipo de procura de emprego por parte dos jovens.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ter entre 25 e 34 anos em 1985 e 2010. Retrato de duas gerações na transição para o mercado de trabalho

Hugo Santos Mendes, CesNova, Universidade Nova de Lisboa; Sofia Amândio, École Normale Supérieure de Lyon, Centre Max Weber

 

Cada geração produz uma visão muito própria do presente e do passado. Em contextos de crise económica e social que tornam particularmente adversa a transição para a idade adulta nas suas várias dimensões (profissional, familiar, etc.), a leitura do presente feita pelos jovens corre o risco de idealizar o passado vivido pela geração a que pertenceram os seus pais quando tinham a sua idade. Esta comunicação debruça-se sobre as diferenças que marcam uma dimensão essencial da vida dos jovens entre os 25 e os 34 anos – a da transição para o mercado de trabalho – em dois momentos históricos: 1985 e 2010. A geração nascida entre 1951 e 1960 estava sujeita a um equilíbrio de baixas qualificações e competências, caracterizado por uma escolarização curta e/ou um elevado abandono escolar de jovens que alimentavam um mercado de trabalho onde abundava o emprego pouco qualificado e os incentivava a sair muitas vezes precocemente do sistema educativo. O equilíbrio de baixas qualificações e competências produzia aparentes vantagens de curto prazo – uma transição rápida para o mercado de trabalho para os jovens que abandonam o sistema educativo com baixas qualificações -, mas importantes desvantagens a longo prazo, uma vez que reproduz um padrão produtivo caracterizado por um peso importante do emprego pouco qualificado, salários baixos e fortes desigualdades socioeconómicas. A geração nascida entre 1976 e 85, por sua vez, beneficia da progressiva massificação escolar e modernização do tecido económico, mas este duplo processo produz tensões no equilíbrio anterior: a redução do abandono escolar precoce e o prolongamento da formação escolar dos jovens, com incidência particular na maior procura e obtenção de diplomas do ensino superior, por um lado; e a redução da oferta de emprego em actividades menos qualificadas fortemente atingidas pelo desemprego na última década, por outro, desestrutura o processo de transição dos jovens para o mercado de trabalho. Mais qualificada – logo, dotada de outros recursos sociais e educativos e horizontes profissionais – que a geração 1951-1960, a geração 1976-85 está, porém, sujeita a condições de maior competição e maior incerteza no processo de inserção profissional. A somar ao aumento do desemprego quase ininterrupto que se verificou na primeira década deste século, a desarticulação dos ritmos a que, por um lado, o sistema universitário produz indivíduos dotados de capital humano avançado, e a que, por outro, o tecido empresarial se moderniza (e aumenta a procura de recursos humanos qualificados) é passível de produzir uma situação de desequilíbrio entre a oferta e procura de capital humano, de desadequação vertical entre os diplomas e o emprego, e de dificuldades na inserção profissional estável dos jovens. Esta situação gerou a ideia de que existe hoje uma “inflação de diplomas”, categorização sociológica que por vezes alimenta a ideia de que os diplomas perderam o seu valor de outrora, num momento em eles são, mais do nunca, pontos de passagem obrigatória no processo de transição para o mercado de trabalho.

 

 

 

 

 

 

Associativismos e recriação de mercados de trabalho

Isabel Rufino, ESECS, Instituto Politécnico de Leiria / CIES, Instituto Universitário de Lisboa / Barafunda AJCSS / ADEB – Associação de Desenvolvimento Empresarial de Benedita; Sandra Gonzaga, CIES, Instituto Universitário de Lisboa / Barafunda AJCSS / CEPSE – Cooperativa de Estudos e Intervenção em Projectos Socioeconómicos

 

Na constante da incerteza, a par da permanência da necessidade de conduzir a mudança, auto e hetero orientam-se práticas de trabalho no terceiro sector, com recurso a associações (IPSS, juvenis e empresariais). Trata-se de uma prática de reconversão das qualificações dos/as jovens licenciados/as desempregados/as, localizada no Oeste de Portugal, numa lógica da acção cootransformadora dos actores (individuais e colectivos). Reinventam-se factores de empreendedorismo individual e colectivo nas novas gerações mais escolarizadas, ultrapassando o empreendedorismo assente na transformação de produtos e matérias primas (que desencadeou lógicas de desenvolvimento endógeno a partir da multiplicação de empresas PME dos ditos sectores tradicionais), para o campo da imaterialidade (formação formal e não formal) no estimulo e ancoragem da/na sociedade do conhecimento. Para lá das concepções teóricas, na prática de acção a relatar com o estudo de caso – a Barafunda AJCSS - afirma-se a era do individualismo na concomitância das redes, onde cada actor individual é a resultante das suas qualificações e interacções, que se afirmam potenciadoras de empregabilidade na medida em que dispõem de espaços colectivos (associativos e/ou cooperativos) sustentados numa ancoragem materializada, isto é, num espaço - território (geográfico, socioeconómico e cultural). Este possibilita assumir o risco em conjunto que minimiza incertezas enquanto reforça o potencial de autoliderança individual no caminho do conhecimento/aprendizagem. No primado de que sabemos o que vivemos, nas dinâmicas de trabalho da organização está a defesa da conduta que orienta a pressão/acção proactiva, a procurar fazer bem o que deve ser feito (a focagem no problema).

 

 

ALMOÇO

 

14,30h – 16h - Sessões simultâneas

SALA 1 – “Identidades e culturas juvenis”

MODERADOR: Vítor Sérgio Ferreira, ICS, Universidade de Lisboa

 

 

Práticas culturais dos “jovens herdeiros”: entre o “vulgar” e o “distintivo”

Maria Luísa Quaresma, FL, Universidade do Porto / ESE-IPP

 

Nesta comunicação pretendemos traçar um retrato das práticas culturais dos jovens “herdeiros” que frequentam dois dos mais prestigiados colégios lisboetas, problematizando a relação homológica daquelas práticas com a posição no espaço social ocupada por estes alunos, bem como a pluralidade disposicional destes jovens. Os dados de suporte a esta reflexão foram recolhidos no âmbito de uma tese de Doutoramento sobre o (in)sucesso educativo no ensino privado que elegeu, como principais técnicas de recolha de dados, a entrevista semi-directiva realizada a representantes colegiais, pais e antigos alunos, o inquérito por questionário administrado aos discentes, a discussão focal grupo aplicada a um conjunto de alunos e a outro de professores e a observação directa em diferentes tempos/espaços escolares. Porque indissociável da posição social dos alunos e da sua imersão numa maior ou menor pluralidade e diversidade de contextos socializadores, o debate entre homologias disposicionais e pluralidade disposicional exige-nos uma reflexão prévia em torno das características deste “público” escolar - no que diz respeito à sua pertença de classe e à sua trajectória de escolaridade (marcada pela fidelização aos colégios) – e do corpus de valores plasmado nos projectos educativos destas escolas, onde se aliam objectivos de formação académica com missões ao nível da formação cívica e cultural. Traçado o “retrato” dos alunos e dos colégios que os acolhem, analisaremos as práticas dos jovens “herdeiros”, situando-as no campo da “alta cultura” ou da “cultura de massas”. De entre a matriz plural e diversa dos consumos culturais destes jovens, incidiremos apenas em algumas práticas, umas de cariz mais “informal”, outras que se “curricularizam” em actividades extra-escolares e que, mais directamente, são mobilizáveis para a “performance” académica – uma das metas destes alunos, fortemente orientados para o futuro. No âmbito das práticas culturais “não curricularizadas”, reflectiremos não apenas sobre os consumos mais massificados (caso da ida ao café, do visionamento televisivo, da frequência das salas de cinema “comerciais” e do recurso à Internet), mas também sobre os consumos mais “elitizados” (como a leitura, a visita de museus/exposições, a ida ao teatro e as viagens ao estrangeiro). Quanto às actividades extra-curriculares, analisaremos a centralidade que elas assumem no processo formativo dos “herdeiros” e identificaremos as que se constituem, no amplo leque de possibilidades, como opções discentes nos campos do desporto, do ensino da música e das línguas e das actividades de expressão artística. Este debate entre o “vulgar” e o “distinto” no campo das práticas culturais será sempre mediado pelas contribuições teóricas de diversos autores, como Bourdieu, Lahire, Savage, Kellerhals e Montandon e terá como pano de fundo analítico quer as dinâmicas de socialização familiar e escolar destes jovens – com matrizes e práticas claramente propiciadoras da interiorização de disposições favoráveis à adesão ao gosto legítimo e a consumos culturais distintivos , quer a comparação com os consumos culturais da juventude portuguesa.

 

 

Jovens, consumo e identidade: uma trilogia contemporânea

Cristina Figueiredo Santos, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

 

A passagem da sociedade dos produtores para a dos consumidores foi um processo gradual de emancipação dos indivíduos, que deixaram de não ter escolhas, transitando de um cenário de constrangimentos para um panorama em que prevalece a autonomia individual. É a actividade do consumidor, e não do produtor, que se presume providenciar o interface essencial entre os indivíduos e a sociedade (Bauman, 2007), uma vez que a vida dos actores sociais é determinada mais pelo consumo de bens do que pela respectiva produção (Ransome, 2005). Numa época em que prevalece o risco, as compras surgem como uma forma de escapar à agonia da insegurança, como um ritual diário que visa exorcizar a incerteza (Bauman, 2000). Assim, os jovens, que se encontram numa fase em que a identidade está em plena formação (Pais, 2003), cresceram numa sociedade consumista (Miles, 1998). Existe, de facto, uma propensão juvenil para o consumo, que surge como uma alternativa de integração social, dada a progressiva incapacidade em absorver este segmento nas estruturas produtivas da sociedade. A erosão do trabalho, enquanto ocupação e fonte identitária, conduziu a juventude a procurá-los na esfera do consumo (Cruz et al., 1984; Schmidt, 1992; Pais, 2007), que representa a principal área na qual os jovens jogam a relação entre estrutura e agência, enquanto negoceiam o seu papel e posição numa sociedade em constante mutação (Miles, 2000). A construção identitária juvenil encontra-se associada ao consumismo, o qual providencia uma área flexível para a construção das maleáveis identidades pós-modernas (Miles, 2000). Ora, a edificação de identidades é um jogo complexo que caracteriza as sociedades contemporâneas (Pinto, 1991). Trata-se de uma problemática que surgiu com a modernidade, ao propulsar os indivíduos para uma dinâmica social em que predominam a liberdade e as possibilidades de escolha para modificar a própria identidade, consoante a vontade demonstrada, instaurando-se um apelo constante à novidade e à transitoriedade, confrontando os sujeitos com este desafio e responsabilidade (Giddens, 1989; Rosales, 2002). Essa transição tornara-se um dos problemas centrais com que os jovens se debatiam, pelo que existia uma crise da identidade juvenil. Esta indeterminação e consequente dilema encontravam-se ausentes das sociedades tradicionais, nas quais a identidade era socialmente atribuída e imposta à maioria dos jovens, prevalecendo uma lógica condicionalista. Consequentemente, os conteúdos colectivos permaneciam idênticos, percorrendo os contextos geracionais, pelo que a mudança de identidade esbarrava numa delimitação previamente estabelecida, quando actualmente, a independência acarreta dúvidas (Nunes, 1968). Aliás, a tarefa de desenvolvimento basal da juventude cristaliza-se em torno da dimensão identitária, na procura de uma resposta à pergunta: «Quem sou eu?» (Pinto, 1995), tarefa que se adivinha difícil.

 

 

Jovens das margens: a construção da identidade dos descendentes de imigrantes

Alejandra Ortiz, CIES, Instituto Universitário de Lisboa

 

As sociedades modernas, com a sua diversidade cultural, permitem-nos encontrar identidades múltiplas, mas também produzem situações ambíguas, particularmente quando as nossas pertenças se confrontam com as pertenças que os outros nos atribuem, mediadas pelos estereótipos dominantes. Os processos migratórios traduzem-se em espaços privilegiados para analisar a construção destas identidades. Este trabalho pretende descrever os processos identitários dos jovens descendentes de imigrantes africanos residentes na Área Metropolitana de Lisboa. A identidade destes jovens se constrói em vários frentes, desde a diferença e a semelhança, influenciada basicamente pelas culturas africanas e a portuguesa, assim como também por elementos sociais, culturais e geracionais. Estes jovens vivem nesta intersecção de pertenças, num continuum de negociações e resistências. Estas resistências contribuem a criar barreiras de separação, podendo resultar numa exclusão social. A finalidade do estudo é conhecer e reflectir sobre a realidade destes jovens com o objectivo de aportar novas ferramentas na definição e execução das políticas públicas. Como estes jovens se auto-definem e como consideram que são identificados pelos outros? Quais os aspectos mais importantes que orientam seu processo identitário? São questões que analisaremos e que contribuem para a compreensão da integração destes jovens nas sociedades europeias. Factores como a nacionalidade, a naturalidade, a socialização, a situação familiar e as práticas de discriminação verificam-se muito importantes na influência dos sentimentos de pertença a sociedade portuguesa. O trabalho se inscreve no âmbito do projecto europeu TRESEGY e baseia-se nos resultados das pesquisas etnográficas e quantitativas realizadas durante 2007 e 2009 na Área Metropolitana de Lisboa. Nessa altura foram feitos inquéritos a jovens nacionais e descendentes de imigrantes entre os 15 e 24 anos, bem como entrevistas em profundidade.

 

 

Das estratégias comunicacionais às mediações produzidas por jovens integrantes da Zulu Nation Portugal (Lisboa)

Ana Stela da Cunha, CRIA, Instituto Universitário de Lisboa; Rosana Martins, CIMRI, Universidade Nova de Lisboa

 

Tomando como ponto de partida os agrupamentos juvenis no cenário contemporâneo, este estudo discute a cena urbana atual e as políticas púbicas endereçadas aos jovens, através da dinâmica comunicacional marcada pelos membros da Zulu Nation Portugal e Zulu Nation Brasil - ONG fundada pelo DJ Afrika Bambaataa que tem como princípio as bases do hip hop: paz, amor, união e diversão, vem sendo responsável pela existência do verdadeiro espírito do hip hop. A cultura hip-hop emerge das experiências e práticas dos jovens em desvantagem econômica, participantes de uma cultura distinta da ordem dominante marcada por uma série de práticas integradas incluindo a dança, a música e arte visual com o objetivo de disponibilizar espaços para a interação e comunicação de grupos marginalizados. Este estudo tem como foco central à análise das formas estabelecidas pelos jovens integrantes da Zulu Nation, em relação ao espaço de sociabilidade e às formas de representação. Ou seja, de que forma os membros expressam as saídas para os diversos conflitos presentes no cotidiano, e como cristalizam a idéia d renovação do espaço e das próprias relações sociais. Logo, para falarmos de “Quem Somos”, nada melhor do que falarmos “Onde Estamos”, pois acreditamos que o lugar de onde se vem torna-se um excelente registro de análise da nossa identidade e das dificuldades enfrentadas. E, foi partindo do olhar sobre a própria experiência de vida dos componentes, que podemos analisar e se aproximar dos temas que são relevantes para os participantes de ambas as organizações, das suas contribuições à comunidade local visando à superação da violência ali existente, das tensões entre os jovens, uma presença que se traduz na promoção de atividades de cultura, lazer, tornando o espaço fortalecido de cidadania, participação popular e, no exercício constante dos direitos humanos. Do ponto de vista teórico, pretendemos compreender as duas organizações falantes da língua portuguesa, sublinhando desta forma a preocupação dialógica dos aspectos ideológicos e materiais da cultura e o papel social que ela possa ocupar. Caminharemos de encontro a abordagem teórica do Cultural Studies como área multifacetada de estudos que concebe a cultura como campo de luta e arena política.

 

 

Das maltas às tribos: identidade, cultura e hibridismo nos grupos de capoeira em Portugal

Ricardo Nascimento, FCSH, Universidade Nova de Lisboa

 

A capoeira é uma forma de luta, jogo ou dança, de origem afro-brasileira, que em Portugal foi introduzida na década de oitenta por imigrantes brasileiros. Sabe-se hoje que a presença dos portugueses nesta prática data do século XIX, na cidade do Rio de Janeiro, quando os emigrantes lusos tomavam parte das “maltas de capoeira”, que eram bandos organizados de negros escravos e libertos, mestiços e brancos pobres que lutavam pela sobrevivência na capital do império no Brasil (Soares: 1994). Tenciona-se neste trabalho abordar as vivências dos jovens praticantes portugueses no âmbito do grupo e verificar como incorporam, apropriam e traduzem a capoeira dentro da sua própria cultura, bem como constroem socialmente o colectivo em que actuam: o grupo de capoeira. Com essa finalidade realizou-se um estudo de caso com os membros que integram o grupo Capoeirarte na cidade do Porto, onde se procedeu, sobretudo, à observação dos treinos, rodas, eventos e a entrevistas aos seus integrantes. Estima-se que existam mais de 50 grupos de adeptos em todo país, sendo na sua maioria formados por jovens entre os 15 e os 30 anos. Actualmente os jovens portugueses constituem grande parte do corpo docente desses grupos e integram uma restrita comunidade luso-brasileira de difusores da prática da capoeira em Portugal. A prática da capoeira envolve a aprendizagem da técnica corporal, o uso dos instrumentos de percussão e o canto, que no seu conjunto fazem parte das vivências particulares, quotidianas e colectivas de um grupo de capoeira. Maffesoli (2000) destaca as novas formas de sociabilidade que se tem estabelecido nas nossas sociedades e que não envolvem fins teleológicos concretos, mas sim o sentido estético do estar e partilhar emoções em grupo. Este senso estético do “sentir colectivo” explicaria as novas formas de agrupamento social que o autor qualifica como neotribal. Nas grandes cidades, as populações estão a agrupar-se em microtribos, como os grupos de capoeira, e a procurar novas formas de solidariedade, que já não se encontram nas grandes instituições sociais habituais. Elias (1992) chama a atenção para o controlo social exercido pelas instituições como a família, o Estado, a escola, entre outros, assim como o aumento do autodomínio da excitação exagerada. A tribo pode contrariar essa perspectiva, permitindo exteriorizar emoções que, de alguma forma, poderiam ser vistas como socialmente desenquadradas. Com o estudo de caso foi possível constatar a intensidade das vivências colectivas do grupo nas suas práticas quotidianas e como a partir daí se constrói socialmente a identidade do grupo como colectivo. Nestas vivências os praticantes passam a incorporar o grupo, os seus trejeitos e peculiaridades, algumas vezes não de forma metafórica mas literal, quando os mesmos tatuam nos seus corpos os símbolos do grupo. Verificou-se ainda como a vivência da capoeira se traduz em formas de negociação e hibridização de lusitanidades e afro-brasilidades que, mesmo sendo ficcionadas, fazem parte do corolário discursivo de indivíduos e grupos.

 

 

 

SALA 2 – “Jovens, media e tecnologia”

MODERADOR: José Alberto Simões, CesNova, Universidade Nova de Lisboa

 

 

Jovens e Media: assimetrias digitais e sociais

Jorge Vieira; Tiago Lima Quintanilha, OberCom

 

Falar de jovens e da sua relação com os Media passa, muitas vezes, por recuperar e quase perpetuar o termo Nativos Digitais (Prenksy: 2001), como se de um lugar-comum se tratasse. Mas deverá este conceito ser aplicado na sua plenitude, e quase acriticamente, a toda uma população jovem, vamos supor, dos 15 aos 24 anos? Não nos parece. É ponto assente, por exemplo, que os jovens constituem o grupo etário que apresenta, em Portugal, taxas de utilização de internet que superam todos os restantes escalões (Cf. INE, Markest, OberCom, entre outros). Em todo o caso, parece-nos de bom tom sugerir que, por estarmos perante um escalão de idades em que a grande maioria dos seus intervenientes tem acesso à internet, as diferenças para com aqueles que não são utilizadores far-se-á sentir com bastante mais impacto do que, por exemplo, nos escalões etários mais avançados, onde existe uma maior percentagem de não-utilizadores. A esta relação dual chamamos Digital Divide (Hargittai: 2008). Por outro lado, e quando falamos de Nativos Digitais (Prenksy: 2001), interessa perguntar se estamos a falar de uma espécie de grupo como que uniformizado/homogeneizado nas suas acções, preferências ou fins últimos. Também não nos parece. A título de exemplo, um jovem de 21 anos, lisboeta e estudante de Arquitectura, poderá assumir uma utilização da internet bastante distinta de um outro jovem, também com 21 anos, mas trabalhador fabril em meio rural. Em última análise, e a par de variáveis geracionais, também variáveis como as literacias, antiguidade ou dietas de consumo e utilização (Helsper e Enyon: 2010) poderão contribuir para uma análise e percepção mais amplas das assimetrias, reforçando a análise não apenas do ponto de vista intergeracional, como também, e sobretudo, do ponto de vista intrageracional da condição juvenil, que é verdadeiramente aquilo que nos propomos analisar. Pretendemos explorar empiricamente estas questões com o recurso a uma metodologia mais quantitativa e longitudinal, tirando partido de dados registados para os anos de 2003, 2006, 2008 e 2010 do inquérito Sociedade em Rede do OberCom, mas propondo igualmente pistas para o possível e necessário alargamento a uma análise mais qualitativa e intensiva de todo este quadro de análise.

 

 

Nativos digitais e diferenças geracionais: uma recensão da literatura

José Pinheiro Neves; Luzia Pinheiro; Pedro Costa, CECS, Universidade do Minho

 

Assiste-se actualmente a uma mutação cultural significativa das gerações, devido à utilização intensiva dos ecrãs e das suas plataformas digitais, mobilizando e determinando a visão e a experiência quotidiana (ecrãs de computador, mas também ecrãs de telemóvel, ecrãs na paisagem pública, etc). Esta alteração não se reduz apenas à sua natureza material, mas abrange também a natureza da imagem e as suas representações. Esta comunicação pretende abordar as diferenças geracionais nos usos e nas representações sociais das plataformas digitais mais usadas em rede. Neste sentido, tem como objectivo fazer uma recensão dos diversos estudos já efectuados sobre estas relações. Não podemos deixar de destacar, entre outros, o estudo “Ecrãs em Mudança. Dos jovens na Internet ao provedor da televisão” (Abrantes, 2006), e “E-Generation” (Cardoso, Espanha e Lapa, 2007). A sua grande contribuição e inovação em relação aos estudos anteriormente apontados prende-se com a importância de aprofundar as diferenças entre «gerações digitais» e assim dar um passo importante no entendimento da emergência de uma nova cultura que está a transformar as formas mais clássicas das práticas sociais (na aprendizagem, no trabalho, na inovação, na criação, na estética, etc.).

 

 

Internet, oportunidades e riscos - Ouvir o que as crianças têm a dizer

Ana Francisca Monteiro; António José Osório, Instituto de Educação, Universidade do Minho

 

Cada vez mais crianças e jovens acedem à internet em Portugal, fazendo-o de forma autónoma. Navegar online ocorre frequentemente na privacidade do quarto dos mais novos, num mundo a que pais e professores, por diversas razões, têm dificuldade em entrar. As práticas de socialização e as dinâmicas de crescimento estão a mudar. E são muitas vezes os novos media que sustentam esses processos de formação e exploração de identidades, reflectindo a definição da auto-imagem do indivíduo e dos seus papéis sociais. Os processos de socialização infantil não podem ser actualmente dissociados das interacções que as crianças estabelecem com e através da tecnologia. Neste quadro, promover um uso saudável da internet, gerador de oportunidades e capaz de assimilar o risco como experiência natural e até necessária ao crescimento, passa por apostar em estratégias de intervenção e investigação centradas na perspectiva das próprias crianças. A pesquisa descrita nesta comunicação pretende contribuir para esta problemática dando voz às crianças, observando-as e ouvindo-as falar sobre as suas práticas de acesso à internet e as oportunidades e riscos que as mesmas poderão encerrar. Trata-se de uma investigação qualitativa, de inspiração etnográfica, que procura dar conta das representações e valores que as crianças atribuem às experiências que estão a levar a cabo na ou através da internet. Espera-se, desta forma, a contribuir para o desenvolvimento de culturas e políticas de uso saudável da internet, mais ajustadas às culturas juvenis e processos de socialização desenvolvidos no quadro de uma progressiva autonomização do acesso à web. Apresentam-se os resultados de uma primeira fase de recolha de dados, eminentemente exploratória, na qual participaram 6 rapazes e 10 raparigas, entre 10 e 12 anos. Foram realizadas 13 sessões de focus group, com actividades de navegação livre, direccionadas sobretudo para jogos online e para a sala de chat habbohotel, jogos de grupo, debates em torno de materiais audiovisuais e exercícios de role-playing. Após estas sessões foram realizadas 11 entrevistas, 8 presenciais e 3 online, através do programa de mensagens instantâneas Messenger. A recolha decorreu em dois espaços de ocupação de tempos livres (ATL). A análise destes dados produziu pistas importantes sobre o que os mais novos procuram quando estão online, atitudes relativamente a estratégias de segurança específicas e campanhas de sensibilização, noções de perigo e oportunidade, entre outros temas. Sobressai desta primeira fase do estudo a dificuldade em diferenciar oportunidade e risco. Actividades que a montante seriam consideradas de risco foram experienciadas pelas crianças de uma forma essencialmente positiva, como parte da sua cultura, do seu desenvolvimento e das suas rotinas de entretenimento, representando um desafio acrescido em termos de segurança.

 

 

Violência online em idade escolar - realidades, problemas e soluções: uma proposta de investigação

Teresa Sofia Castro; António José Osório, Instituto de Educação, Universidade do Minho

 

No espaço socializante da Web a fronteira entre oportunidade e ameaça esbate-se e surge o contexto ideal para um novo tipo de violência, cujos contornos e proporções se manifestam no universo híbrido da rede, desafiando alicerces sociais, educacionais e legais. Apesar de já começar a existir literatura sobre questões como (in)segurança na Internet, cyberbullying, utilização da Internet, predação online, violência infantil nos media, ainda muito há a fazer no campo da investigação. Como se manifesta a violência online? Que proporções pode a violência assumir no universo virtual? Que efeitos pode ter a divulgação de uma foto comprometedora? Como se protegem as crianças da violência online? Como preparar os pais, a escola e a comunidade em geral para os desafios que esta problemática coloca? Tendo em conta que as crianças continuarão na linha da frente no que toca às tecnologias digitais e que a violência online é um fenómeno que priva as crianças do direito à segurança, propõe-se como principais objectivos de investigação: caracterizar a realidade da violência online e aferir a sua permeabilidade ao universo offline; perceber como as crianças se transformam em agressores e/ou vítimas no universo online; compreender as lógicas de poder/submissão entre agressor e vítima; descortinar narrativas de vitimação e agressão online; promover um melhor entendimento do problema e seu impacto, consciencializando para as expressões emergentes deste problema e seu impacto, com vista a encontrar as políticas, as orientações e estratégias que assegurem atitudes de prevenção pró-activas, assertivas e equilibradas. Assim, tendo em conta que a violência online é um fenómeno emergente e preocupante que priva as crianças do direito à segurança, propõe-se uma investigação interventiva que incentive uma reflexão envolvendo a família, a escola e a comunidade em geral, consciencializando para as expressões emergentes deste problema e seu impacto, com vista a encontrar as políticas, as orientações e estratégias que assegurem atitudes de prevenção pró-activas, assertivas e equilibradas. Com a investigação proposta, a levar a cabo nos próximos três anos, pretende-se oferecer ao campo de investigação uma abordagem rigorosa, original e inovadora que contribua, de forma profícua, pró-activa e assertiva, para melhor entender e lidar com o fenómeno emergente da violência online.

 

 

 

SALA 3 – “Corpo, saúde e sexualidades”

MODERADOR: Vanda Aparecida da Silva, CRIA, Instituto Universitário de Lisboa

 

 

Este corpo que (me) consome: Representações do corpo e da comida, e o papel dos outros, em jovens universitários

Soraia Passos Rosa; Abílio Oliveira, CIES, Instituto Universitário de Lisboa

 

Numa época em que a prevalência do excesso de peso e as perturbações do comportamento alimentar, em particular a anorexia nervosa e a bulimia nervosa, na adolescência, são temas que suscitam preocupação, tanto no domínio das ciências como nos meios de comunicação social, reveste-se de grande importância compreender os modos como o corpo e a comida são pensados e representados pelos jovens adolescentes. A influência dos pares, dos familiares, da publicidade, do ciberespaço e a própria sociedade, como um todo, impõem determinados padrões de beleza, associados à idealização de um corpo nas medidas e proporções certas, e impelem ao seguimento de modas ou princípios, que constituem um desafio para quaisquer adolescentes. Apresentamos um estudo que teve como objectivo principal, compreender quais as representações sociais do corpo e da comida entre jovens universitários, na última fase da adolescência. Pretendeu-se também perceber que papel existe entre as representações encontradas e as opiniões de outros (por exemplo, familiares, amigos e media). Nesse sentido, foi aplicado um questionário a 232 jovens universitários, de ambos os sexos, com uma idade (em mais de 80% dos casos) entre 18 e os 19 anos. Frequentavam o primeiro ano das licenciaturas em Enfermagem, Fisioterapia e Ciências Farmacêuticas. Em suma, os resultados indicam que os participantes assumem uma visão do corpo como algo vivo, que se pretende saudável, e como um veículo de afirmação identitária. A sexualidade é um dos pilares desta fase e o corpo é encarado sobretudo, como instrumento de afirmação pessoal e definição sexual. A comida é associada especialmente à saúde e ao bem-estar. A opinião de outros, principalmente a dos familiares e amigos, é muito importante, quer nas representações do corpo, quer nas da comida. O corpo, como face visível da nossa personalidade, que tanto pode consumir como nos consumir, é alvo de cuidado pelos jovens. É importante que os ajudemos, tanto a adaptarem-se e a viverem (bem) com o seu corpo, como a orientarem-se na prática de uma alimentação saudável. A compreensão das suas percepções contribui para o providenciar de planeamentos e intervenções eficazes.

 

 

Padrões de comportamentos de saúde na população jovem do Concelho de Oeiras: Educação, Consumos, Saúde e Sexualidade

Margarida Quintela Martins; Conceição Baptista, Instituto Nacional de Administração

 

Em 2008/2009 foi concretizado o Perfil de Saúde do Concelho de Oeiras. Coube à Unidade de Investigação e Consultoria do INA, IP, realizar a componente de estudo denominada de Caracterização dos padrões de comportamentos de saúde da população do concelho de Oeiras. Embora o estudo tenha incidido sobre a população em geral, a presente comunicação centrar-se-á na população jovem, em idade escolar. Foram analisadas diversas dimensões relativas à definição de um perfil de comportamento de vida saudável. Para a presente comunicação centramo-nos nas dimensões de hábitos de alimentação, hábitos preventivos nos comportamentos sexuais e consumos aditivos. Em termos metodológicos, foram efectuadas entrevistas exploratórias a agentes privilegiados de escolas, juntas de freguesia, rede social do concelho de Oeiras e centros de saúde. Foi também aplicado um questionário a uma amostra de 266 jovens que frequentam seis escolas que integram, em simultâneo, o 3º ciclo e secundário do concelho de Oeiras. Os resultados foram analisados por freguesia, sexo, idade e ciclo de ensino. Em termos de hábitos de alimentação, constatou-se que a toma regular de pequeno – almoço verifica-se mais nos rapazes do que nas raparigas. Registou-se que, em termos de hábitos de alimentação saudável, os cereais e lacticínios são os alimentos saudáveis que mais vezes são consumidos pelos jovens de Oeiras. Os legumes e os ovos são os menos consumidos. Relativamente ao consumo de alimentos menos saudáveis, os rapazes referiram preferencialmente os refrigerantes. Em ambos os sexos, o consumo da água é feito de uma forma saudável de acordo com as recomendações da OMS. No que concerne aos hábitos preventivos nos comportamentos sexuais, a maioria dos jovens inquiridos respondeu que se considera informado sobre uma Doença Sexualmente Transmissível. A generalizada maioria dos jovens, a partir dos 12 anos, afirma saber como prevenir a gravidez. Da maioria dos jovens sexualmente activos (47,1%), cerca de 32,8% revelam práticas inconsistentes no uso do preservativo. Esta situação demonstra que embora informados sobre os riscos decorrentes da não utilização do preservativo, os jovens assinalam uma fraca percepção de risco que se expressa em comportamentos de risco. Neste estudo entendeu-se por substâncias aditivas, todas as que não são essenciais ao organismo para viver, nomeadamente: consumo de tabaco, bebidas alcoólicas e substâncias estupefacientes mais comuns. Relativamente a consumos aditivos, verificou-se que as raparigas fumam mais que os rapazes, o consumo de bebidas alcoólicas é feito de igual modo por ambos os sexos e a maioria dos jovens inquiridos referiu não consumir qualquer tipo de droga. As conclusões do estudo permitem a definição de um retrato de determinantes de saúde que possam contribuir para uma efectiva definição de políticas e estratégias locais neste domínio de actuação no concelho de Oeiras.

 

 

 

 

 

Género, Sexualidades e Gerações: Valores, Atitudes e Práticas Sociais

Patrícia Miranda, CIES, Instituto Universitário de Lisboa / DGRS

 

Na apresentação pretende-se, primeiramente, apresentar os objectivos e os resultados duma pesquisa efectuada há pouco mais de uma década, intitulada “A Diversidade Social das Idades, encarada pela diferenciação de Valores, Atitudes e Práticas Sociais, relativamente à Iniciação e à Vida Sexual e Amorosa”, no âmbito da cadeira de Sociologia Geral da licenciatura de Sociologia no ISCTE; e, posteriormente, com base nesses conteúdos, reflectir sobre algumas das problemáticas que daí emergem. A primeira hipótese do trabalho consistiu na tentativa de demonstrar que a sexualidade tem formas de se viver diferenciadas, consoante o género dos sujeitos sociais, devido à forte socialização do género, particularmente evidenciada na socialização primária. A segunda hipótese de trabalho vinha um pouco na sequência desta primeira, na medida em que parte da relação existente entre a identidade sexual de género e a mudança social, no sentido em que diferentes faixas etárias encaram e vivem a sexualidade também de forma diferenciada, sendo possível, a partir desta relação falar não só numa identidade sexual de género, como também numa identidade sexual geracional. Desta forma, a segunda hipótese foi então a de que na faixa etária dos 15-24 se manifestaria uma maior liberdade sexual feminina ao nível da intimidade, isto comparativamente com a faixa dos 35-44, pelo que a sexualidade passou a estar, para as mulheres, menos “normalizada” dentro da conjugalidade mais institucional. No entanto, e foi esta constatação que levou à elaboração da terceira hipótese, a sexualidade, no sexo feminino, continua a ser vivida preferencialmente dentro duma lógica de conjugalidade, só que mais no seu sentido relacional e não tão institucional. Daí que possamos levantar como hipótese que, sendo difícil abandonar-se a construção social do género, ainda são visíveis diferentes modelos de sexualidade àquele associados – incorporados na socialização –, pelo que mesmo no escalão dos 15-24 se poderá notar que o sexo masculino, ao contrário do sexo feminino, consegue dissociar sexo de amor, podendo-se falar na sua eventual exclusão da transformação da intimidade, tópico que poderá ser alvo de debate durante a apresentação. Assim, como variáveis independentes no projecto de trabalho tivemos o género e a idade – esta última principalmente na segunda hipótese –, associadas ambas à socialização (como já vimos), numa tentativa de explicarem a diferenciação de valores, atitudes e práticas sociais relativamente à vida amorosa e sexual. Para terminar este resumo com a perspectiva que se pretende passar na apresentação, deixam-se algumas questões em aberto: a) Até que ponto a liberdade sexual feminina se assume como condicionante para a iniciação sexual, quer masculina quer feminina, estando as mulheres directamente implicadas nesta mudança, ao passo que os homens são afectados de uma forma relacional, se assim se pode dizer, pois apesar de não serem eles os protagonistas, acabam por ser afectados ao relacionarem-se com as mulheres; b) E, posto isto, por que não falar-se da eventual exclusão do masculino do processo de mudança inter-gerações.

 

 

Sexo, amor e género: trajectórias sexuais dos jovens para a vida adulta

Ana Cristina Marques, CIES, Instituto Universitário de Lisboa

 

Resultados de vários estudos mostram as transformações que têm vindo a ocorrer, desde meados do século XX, no domínio da sexualidade, como a maior aceitação da contracepção e da homossexualidade, a dissociação entre sexualidade, conjugalidade e procriação, e a maior possibilidade das mulheres viverem a sexualidade de forma mais liberta. Neste contexto a sexualidade juvenil passa a ser socialmente aceite, fazendo parte das várias transformações pelas quais os jovens passam. No entanto, as diversas mudanças ocorreram a ritmos desiguais, não sendo acessíveis a todos os indivíduos. Neste sentido, vários estudos sugerem a manutenção do duplo padrão sexual entre homens e mulheres, e a manutenção da discriminação perante outras formas de sexualidade que não a heterossexualidade. Nesta comunicação irá reflectir-se sobre o modo como os jovens representam e vivem a sexualidade, tomando especial atenção a possíveis diferenças de género. Neste sentido pergunta-se: como é que os jovens adultos representam a sexualidade? Será que homens e mulheres têm as mesmas possibilidades de viver a sexualidade ou será que a sexualidade feminina continua a estar sujeita a um maior controlo social do que a masculina? Os dados apresentados fazem parte de uma pesquisa sobre as trajectórias sexuais dos jovens adultos para a vida adulta. As entrevistas foram realizadas, entre Setembro de 2008 e Setembro de 2009, a 60 jovens adultos (50 heterossexuais, 8 homossexuais e 2 bissexuais), pertencentes a diferentes contextos sociais, com idades compreendidas entre os 18 e os 29 anos. Os dados da pesquisa sugerem que para a maioria dos jovens a sexualidade é uma actividade relacional, embora haja espaço para a vivência de uma sexualidade dissociada do sentimento amoroso, como no caso das curtes. No que diz respeito às práticas, um número significativo de jovens não têm um reportório sexual muito diversificado. Pode existir um período de maior experimentação, especialmente quando estes são mais novos, mas os jovens tendem a ter limites: tendem a envolver-se ou a desejar estar em relacionamentos amorosos estáveis, evitando as curtes. Apenas um menor número de jovens tende a viver a sua sexualidade de forma mais liberta. Os jovens tendem a considerar que a sociedade mantém um duplo padrão sexual, contudo tendem a dissociar-se desta posição, na medida em que existe uma forte ideologia de liberdade individual, em se defende que cada um deve fazer o que quiser, mesmo se os entrevistados não o fazem. Quando os jovens se opõem a determinadas práticas sexuais, como as curtes, tendem a fazê-lo tanto para homens e para mulheres, visto que o modelo ideal é o de uma sexualidade relacional. Só uma minoria de jovens, sobretudo homens menos qualificados, tendem a concordar com o duplo padrão sexual. Contudo as jovens mulheres tendem a ser mais controladas na sua possibilidade de vivência da sexualidade, tendendo a ter uma vivência mais restrita da sexualidade que os jovens homens. Deste modo, embora, as trajectórias sexuais de homens e mulheres tendam aproximar-se, como acontece no caso da maioria dos países ocidentais, a vivência da sexualidade permanece assimétrica.

 


16h-16,30h Coffee Break

 

16,30h – 18h Mesa Redonda – Auditório A. Sedas Nunes

Juventude e sociedade civil: jovens em acção ou acção sobre a juventude?

 

José Filipe Sousa, Presidente do Conselho Nacional da Juventude

Manuel Brito, Vereador (Pelouro da Juventude) da Câmara Municipal de Lisboa

Ana Fernandes Ngom, Animadora sócio-cultural

Rita Paulos, Observatório de Educação, associação rede ex aequo

MODERADOR: Sandra Mateus, ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa


18,30h Sessão de encerramento – Auditório A. Sedas Nunes

Lançamento do livro “Jovens e Rumos”

José Machado Pais, René Bendit e Vitor Sérgio Ferreira (orgs.),

Imprensa de Ciências Sociais

 

APRESENTAÇÃO:

José Mário Silva, Jornalista e Crítico Literário no semanário «Expresso»

Ricardo Araújo Pereira, Humorista e Cronista na revista «Visão»

 

 

 

 

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