OLHARES SOBRE JOVENS

Dezembro 2013 - As manifestações recentes no Brasil

 




As manifestações recentes no Brasil: Juventude, Educação e Democracia
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Fernando Tavares Jr.2

Junho de 2013 trouxe consigo fato inaudito à sociedade brasileira: pela primeira vez ocorreram manifestações populares, não tuteladas por partidos ou lideranças políticas tradicionais, em defesa de direitos e de ideais republicanos. No entanto, ao lado da surpresa, também surgiram divagações de todas as montas e em todas as direções: o que está acontecendo? O que há de novo? Será realmente novo?

Sucedia-se uma segunda interrogação que era o principal motivo de surpresa, tanto no Brasil quanto no exterior: o que produziu tal fenômeno? Justo no momento em que há sinais de melhorias econômicas, sociais e políticas eclode o maior movimento de massas da história do país. Qual foi a 'gota d'água' para isso tudo? Quais são suas causas? Neste cenário, causas tanto se referiam às origens e fatores causais quanto às demandas, as reivindicações, os pleitos que motivavam e ao mesmo tempo conferiam teleologia ao processo. A par desta aparente contradição, também foram vastas as interpretações. A maioria, incapaz de sobreviver uma semana. Quase todas atravessadas pelo rápido desenrolar dos fatos, pelas sucessivas mutações, metamorfoses e inovações que apareciam espontaneamente em qualquer ponto. Quanto mais ambiciosa a interpretação, mais rápida e evidente era sua falência. Como então poderíamos fazê-lo? Seria mesmo possível compreender sociologicamente este fenômeno, a par das leituras superficiais e líquidas da então conjuntura?

Em terceiro lugar, e agora em terreno mais profundo e próprio das Ciências Sociais, como compreender a emergência de algo tão global em contexto tão local? O que as manifestações representariam para a história e para a sociedade brasileira? O que elas teriam de único, original, típico da expressão de uma cultura política e societária, ao mesmo tempo em que se unia a tantas expressões globais de insatisfação com as estruturas sociais vigentes?

Esse diálogo entre o local e o global talvez seja o mais profícuo para entender o que se passa no globo e como os jovens têm papel fulcral em todo canto. Por mais diversos que sejam os cenários, os processos e as demandas, há um ator comum: a Juventude. Este ator vive dilemas comuns e partilha, seja por redes sociais ou por processos identitários globais, de projetos sociais também universais, tais como os direitos que defende. Esse então suscita enfim o quarto rol de perguntas: como compreender o processo geral de transformação social em curso na sociedade, no Brasil e em outras partes? Sendo a Juventude sua principal protagonista, como compreender seu papel e seus interesses neste processo?

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Convites à reflexão

Para desenvolver esta reflexão, faz-se o convite para percorrer quatro argumentos que consideramos relevantes à compreensão do que se passa no Brasil, como também expressão de algo mais global, e suas possíveis decorrências nas próximas décadas. Em primeiro lugar, faz-se o convite para refletir sobre os movimentos em si. Quem são seus personagens? Como se estruturam? Quais suas motivações? Qual é seu modus operadi? O que tem em comum em partes tão diferentes do mundo?

Em segundo lugar, objetiva-se aprofundar a percepção acerca das condições materiais que estruturam as contradições motivadoras dos protestos. A par do propagado sucesso econômico, da emergência de "novas classes médias" e do auto elogiado modelo de desenvolvimento social, o que de fato mobiliza milhões de pessoas a saírem às ruas e manifestarem imensa insatisfação? Será mesmo que a experiência de sucesso e bem estar, mostrada nas estatísticas oficiais e econométricas, é a mesma experimentada pela população de maneira geral? Onde pode estar este descompasso?

Em terceiro lugar, pretende-se investigar de maneira mais profunda as raízes da formação do Brasil, sua cultura política e societária. Será que é possível identificar nesses elementos expressões contemporâneas de uma mesma condição pré-moderna? Esses traços da "brasilidade", que de resto dialogam num espaço social mais amplo da lusofonia, seriam ao mesmo tempo sinalizadores e limitadores do avanço social? Tais traços poderiam subsistir à implantação de uma institucionalidade avançada, como a que o Brasil tem aparentemente realizado após a Carta de 1988?

Por fim, qual seria então a marca do processo de transformação social brasileiro? As manifestações instauraram um novo tempo? Será que foi tudo em vão e toda a força demonstrada pela juventude será incapaz de produzir os efeitos desejados? Quais seriam esses efeitos desejados? Quais são esperados? O que são e foram as manifestações e o que elas representam / representarão para a história e para a sociedade brasileira? (e também para outras sociedades que experenciam processos similares)

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Breve contextualização

Junho de 2013 tomou todos de surpresa e revelou o quanto temos a aprender sobre e com a sociedade. Cientistas políticos, lideranças partidárias, movimentos sociais tradicionais (como sindicatos e outros), todos foram tomados por um misto de surpresa, ameaça e impotência analítica. Fato é que, em poucos dias, o Brasil se viu nas ruas. Apesar de estar em curso a Copa das Confederações, primeira etapa do ciclo de grandes eventos esportivos que culminará com as Olimpíadas de 2016, discutia-se política em toda parte, por todos (registre-se que a seleção foi campeã e a política manteve-se na pauta cotidiana). Reivindicações populares que se arrastavam há meses foram atendidas. Da Presidência da República aos Governadores e Prefeitos (das metrópoles ao interior), todos se mostraram acuados e responderam às ruas cedendo a praticamente todos os pleitos, reconhecendo a plena legitimidade das demandas e prometendo reformas, numa clara tentativa de minimizar perdas políticas e capitalizar sua imagem junto à população que não se sentia representa pelo atual sistema político. Quanto mais elevada a posição na hierarquia do poder, maior a resposta e proporcional o anseio de cooptação.

Cabe ressaltar que este cenário foi antecedido por intensa repressão policial, proporcional à imensa impermeabilidade dos governos às demandas populares. Em geral, demandas das classes trabalhadoras, mais especificamente urbanas e de status médio-baixo. O mesmo cenário se reproduz ainda hoje, como se observou recentemente no Rio.

Houve vídeos, montagens e outras dezenas de produções que circularam as media: #ogiganteacordou, "vem pra rua" e o mais emblemático "não é pelos 20 centavos", postado no facebook por milhões de perfis no Brasil e no exterior, inclusive pelo próprio criador do sítio.

Utopias à parte, junho foi o período em que tudo se podia esperar a partir de julho. Inclusive, como os mais moderados lembravam, que nada mudasse. Daí então as quatro questões citadas acima, iniciando por: como compreender o que estava em curso nas ruas? Seria possível fazê-lo dentro das categorias de análise tradicionais? Seria possível enquadrá-lo nos processos sociais conhecidos? Lia-se em todo canto as insistentes tentativas de categorizar tudo o que se via nos moldes mais tradicionais, ainda referentes ao século XVII ou XIX, ou no máximo ao período da Guerra Fria: Revolução, tentativa de Golpe, expressão e força dos Movimentos Sociais tradicionais, retorno da Ditadura Militar, explosão do Fascismo, caos e fim do Estado. Quase todas sem capacidade empírica para, de fato, oferecer substrato analítico capaz de avançar caminhos em qualquer direção. Estava-se negando à história qualquer possibilidade de reinventar-se. Como então superar esse impasse teórico?

Os acontecimentos foram, de fato, originais, surpreendentes e históricos. No entanto, suas bases materiais não são assim tão novas e merecem atenção para adequada análise sociológica. A partir de categorizações conservadoras ou tradicionais, as manifestações de junho no Brasil, tal como as expressões da "Juventude à Rasca" em Portugal ou "Os Indignados" em Madrid, parecem perder sua originalidade, seu caráter criativo e inovador e, por desenrolar, características que mais lhe conferem poder político. Não são processos revolucionários nem propõem o rompimento com as estruturas sociais. Os ideais e as reivindicações são típicos do moderno. Somente podem ser compreendidas a partir do sonho / utopia moderna de igualdade, liberdade e res pública. Por outro lado, embora amplamente disseminado pela esquerda, não são tentativas de golpe ou críticas ao Estado. Pelo contrário. O que se observa é que se deseja maior presença do Estado: mais urbanidade, mais intervenção e ordem cívica (transporte, segurança), mais serviços públicos de qualidade (educação, saúde), maior participação dos aparelhos estatais na construção de um modo de vida ainda fortemente ligados à social democracia. De outro lado, tentou-se catalogar o que acontecia nas ruas como uma nova expressão dos Movimentos Sociais. Lembrava-se repetidas vezes a relação entre as manifestações e o início do movimento em torno do passe livre e o aumento das passagens. No entanto, no segundo seguinte esquecia-se a proporção que as ruas tomaram e o quanto ampliou e extrapolou o tópico das passagens.

De fato, nunca foi por R$ 0,20. Ao alienar-se desse segundo momento, não se percebia (ou queria-se conscientemente cegar-se) às contradições e falências de parte desses próprios movimentos. Não havia pauta única, não havia organização central, não havia identidade social demarcada, não havia o amadurecimento de uma causa, sequer se propunha a historicidade de uma luta. Os objetivos eram imediatos, claros e gerais. Todavia, também apontavam o anseio por mudanças mais profundas.

Tanto as lideranças quanto as formas de liderar tradicionais eram negadas. Criticava-se, explícita e implicitamente, o status quo de boa parte dos movimentos sociais. O mesmo pode ser dito em relação às caracterizações partidárias ou antipartidárias. Como amplamente conhecido, as bandeiras e as manifestações partidárias eram, em geral, hostilizadas, fossem de quaisquer conotações: da extrema esquerda à ultra direita. Crítica não dirigida aos partidos, mas ao sistema representativo. Se não havia uma contestação da república, mas sua ode e defesa, o mesmo não acontecia em relação ao modelo representativo da atual "democracia". Por mais que tenham sido incentivadas fobias a um suposto golpe ou que tentassem insistentemente relacionar as ruas a novas expressões "fascistas", isso só se mostrou verdadeiro nas mentes dos fóbicos e principalmente naqueles que tinham interesse em disseminar o medo para vilipendiar o que acontecia.

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A indeterminação e a criação históricas

Ora, se todas as categorias tradicionalmente mobilizadas não davam conta do que acontecia, o que então mobilizar para compreender o que ocupava as ruas e agitava nossa sociedade, nosso cotidiano, nossa cidade, nossa rua. Mais uma vez, ao invés de lançar mão de conceitos históricos ou econométricos reiterados pela imprensa em sua falsa ingenuidade, parece ser na Sociologia que se encontram as melhores ferramentas para esta análise. Lembramo-nos da Criação Histórica e do Imaginário Social3. Uma coletividade, diante de dilemas concretos e interesses objetivos, após sucessivos movimentos em acúmulo quantitativo de experiências, torna-se capaz de criar, dialeticamente, algo completamente novo e imprevisível em sua própria história, escrevendo-a e produzindo soluções poderosas e surpreendes para o poder instituído, que muitas vezes é posto em cheque, sofrendo, ele mesmo, transformações. A imprevisibilidade, a inovação, a criação são marcas das sociedades em sua marcha histórica criativa. Este aspecto é fundamental para compreender os saltos qualitativos dos quais estamos diante. Não estamos diante da repetição de processos políticos e sociais que caracterizaram o desenvolvimento da modernidade. Estamos diante de funcionamentos que parecem indicar a produção de um novo jeito de se fazer sociedade e política no Brasil. Lógico que ainda é muito cedo, mas há elementos indicativos deste salto qualitativo que estamos diante. Negar essa força criativa, essa originalidade, este caráter inventivo e inovador é roubar das ruas uma de suas mais poderosas expressões, enquanto sintesis, enquanto salto dialético qualitativo. Por outro lado, negar a possibilidade de criação histórica e sua imprevisibilidade, ao achar que conhecemos os rumos e a marcha da história, é negar uma das características mais ricas de nosso objeto: sua capacidade de transformação / mutação / metamorfose.

Átomos, galáxias, benzenos, ondas e tantos objetos da ciência são o que são desde sempre e provavelmente continuarão sendo. Sociedades não! A história social é imprevisível. São momentos como esses, em que a história faz curvas inesperadas e se reescreve com novas linguagens, signos, símbolos e sintaxes, que merecem atenção especial das Ciências Sociais. Para desenvolver esta reflexão, propõem-se uma análise de três dos elementos fundamentais: (1) a formação de uma coletividade a partir de indivíduos que passam a se identificar enquanto membros, partilhar desafios (e também sofrimentos) comuns nem como os interesses decorrentes e os laços que mantém este coletivo ativo e unido; (2) a situação material experimentada por este grupo e as impossibilidades de superação de seus dilemas através dos meios tradicionais de ação; (3) o imaginário partilhado e, a partir de seus elementos, como esta linguagem torna-se instrumento para um rearranjo da ação social e invenção histórica, após sucessivos (quantitativos) embates históricos, materiais, objetivos, dialéticos.

Esses três elementos se materializam na produção da Criação Histórica. Logo, a partir dela, convida-se para reconstituir sua produção histórica. Através deste percurso, propõem-se analisar as manifestações no Brasil, tais como expressões sociais similares em outras partes do mundo, sob uma perspectiva sociológica que se mostra mais ajustada à dinâmica social pós-queda do Muro de Berlim. Somam-se reflexões críticas a essa perspectiva, sugerindo avanços analíticos frente à experiência deste início de século.

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As bases materiais e o conflito posicional

O segundo momento dedica-se à investigação das condições materiais que contextualizam e em grande medida criam as condições objetivas para a produção desses fenômenos. Neste caso, há uma dualidade pouco evidente nas análises reducionistas que se fazem das sociedades contemporâneas. Em certa medida, todas acabam por se referir à economia: está ruim porque se está em crise X está bom porque se experimenta crescimento econômico e desenvolvimento4. Sociedade e Economia se cruzam, obviamente, mas não se reduzem. Mais: a economia opera dentro de uma sociedade, e não o inverso. Críticas fulcrais à ode ao crescimento e à visão reducionista do processo socioeconômico têm sido feitas desde a década de 19705. O crescimento material não gera, de maneira direta, nem desenvolvimento social e nem melhoria das condições de vida. A expansão do consumo tende a gerar degradação das condições de uso e principalmente deterioração do valor do bem. Isso se dá em grande parte pela relação entre as economias material e posicional. A transição entre uma e outra é largamente desconsiderada pelas análises superficiais de conjuntura. Muitas vezes, é mesmo difícil de ser notada, até que se esteja diante da crise.

Soma-se a este dilema a questão da regulação moral das condições de consumo, produção e uso. Por mais que se insista na reificação do homo economicus, como produto, produtor e produção do capitalismo, os indivíduos estão inseridos em sociedades e grupos que se regulam, organizam e produzem identidades de forma muito distinta e autônoma em relação ao (reducionista) universo econômico. No caso específico de junho de 2013 no Brasil, a mudança das condições de vida e perfil da juventude produziu um efeito completamente diverso do previsto. A universalização do direito à educação, a crescente expansão das matrículas no ensino superior, a ampliação do acesso à internet, o consumo de eletrônicos e bens duráveis, as redes sociais e novas media, a regularidade democrática e dos ciclos políticos, a estabilidade econômica, dentre outras mudanças recentes, produziram uma geração de jovens com características completamente distintas das gerações anteriores bem como imersa num conjunto de experiências materiais e identitárias típicas do século XXI. Essas condições objetivas, em grande parte, negligenciadas, produziram uma base material, geracional e populacional capaz de dar corpo às manifestações, ocupar as ruas, causar impacto significativo na sociedade brasileira.

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Não só nas metrópoles, como São Paulo e seus vinte milhões de habitantes, mas em todo o país. Todas as capitais, cidades médias (em torno de meio milhão de cidadãos), como Juiz de Fora, e mesmo cidades menores (com a metade desta população ou menos) e tradicionalmente conservadoras, como Barbacena, berço e "território eleitoral" da única família a manter-se no Parlamento desde sua criação. Cidades de todas as regiões, tamanhos e tradições tiveram suas ruas ocupadas, majoritariamente por jovens, com escolarização e largo acesso à informação, mobilizados via redes sociais, com pautas específicas e fazendo das ruas também uma "festa" política. Era preciso massa crítica para tanto e isso foi produzido. De outro lado, as condições objetivas também criaram expectativas de um sonho de classe média que sucessivamente foi degradado pelas condições de uso, em função da competição posicional. Inflação de credenciais, investimentos com efeito social zero, deterioração das possibilidades de realização (como o trânsito e seus congestionamentos), frustrações sociais e políticas (como o bom emprego após a obtenção do diploma, ou mesmo acerca da qualidade com ensino superior). Tudo isso se soma a outros fenômenos adjacentes ao processo geral de influxo posicional o que tende a produzir indignação, insatisfação, revolta e a sensação de "propaganda enganosa", de que "fomos enganados", de frustração e conseqüente reivindicação e mobilização.

Tais traços são também encontrados em movimentos populares ao redor do mundo. Todavia, embora haja pontos de contato, não se trata de algo único, mas expressões de uma sociedade global em transformação, que encontra em cada realidade, em cada país, formas ao mesmo tempo genuínas, únicas, originais, e também miméticas em seus dramas e modos de ação. Há casos, como a história recente no norte da África e no Oriente Próximo, que revelavam cenários radicais. No entanto, não são as aparências que se mostram os elementos característicos deste novo momento, mas suas bases estruturais, desenvolvidos ao longo deste argumento.

A singularidade de junho e suas raízes sociológicas

Soma-se à análise um terceiro argumento, direcionado à singularidade do processo brasileiro. A par de características globais e da aparente dispersão de pleitos, lideranças, demandas, é possível identificar traços que de fato constituíram poderoso catalisador para eclosão dos movimentos. A herança patrimonial, com forte indistinção entre público e privado, distanciamento da norma, dos valores republicanos e das bases da representação, acabaram por constituir uma democracia afastada de sua fonte primária do poder, o próprio povo. Se a Constituição, talvez apenas demagogicamente, mantenha a ode aos ideais mais modernos6, o que se observa no cotidiano, nas ruas, está e sempre foi muito distante disso7. A clivagem social é uma das principais decorrências da produção social brasileiras. O poder mantém isolado, blindado, distante, impermeável à população, exceto em meses antecedentes às campanhas, em que prospera o clientelismo. Não à toa esta também seja uma marca do funcionamento político: uma vez que não há normas, direitos efetivos ou instituições que funcionem, resta a submissão e a dependência do laço pessoal para acesso ao Público, ao Estado, ao Direito. É a própria inversão da utopia moderna: a estruturação de uma miríade institucional ultra avançada, aparentemente em sintonia com as sociedades mais desenvolvidas, mas que opera de forma arcaica, pré moderna, dependente dos laços pessoais e das relações de subserviência. De nada adianta a existência de uma institucionalidade com nomes belos, técnicos, metas arrojadas, se seu funcionamento é o exato inverso do prescrito, se suas normas e regras nunca são obedecidas, ou se somente o são para aqueles que antes recorrem ao tráfico de influências, ao capital social.

Alguns ditados populares são ricos em sentido e coerentes: "aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei" ou "você sabe com quem está falando?" ou "quem tem padrinho não morre pagão". Ora, se é esta a ordem (como sempre o foi), o que há de novo então em 2013? Em parte, novos atores, mais atores. Jovens que conquistam direitos, acessos, que ingressam pelas beiradas na sociedade moderna. E querem mais. Percebem que não é viável nem justo depender de favores ou favorecimentos (até porque em geral não o são, ao contrário, são os preteridos) e apontam para o direito, o moderno, o justo como o caminho para sua realização social. Só é possível universalizar direitos se as normas valerem para todos e se também forem universais acessos, tratamentos, benefícios, regras. Se nós estamos submetidos a tantas, que outros também o estejam. Daí a rejeição ao foro privilegiado, a revolta contra a impunidade, o objeção aos limites para investigação e ação da Polícia Federal (que também motivou cartazes contra a PEC 37). A política de coalizões, que coloca o PT ao lado de herdeiros da antiga Ditadura Militar, promove um grande mercado de cargos, ministérios, orçamentos, emendas, opera de forma completamente inversa de qualquer defesa da República, do bem comum, dos interesses nacionais. Os "mensalões" são um exemplo, talvez modesto, de um funcionamento político cancerígeno. As pautas das manifestações talvez estivessem dispersas ou amorfas ou difusas ao primeiro olhar. Uma observação mais atenta, à luz da Sociologia, permite identificar que elas traziam consigo a crítica a um sistema de poder afastado da população. Surdo a suas vozes. Impermeável a seus pleitos. Danoso à República. Sistema representativo sem não representa a população, mas apenas a si mesmo. Democracia sem demos. Não à toa a rejeição aos partidos e suas bandeiras. As manifestações, enquanto interpretação mais ampla do Brasil, são também (e talvez principalmente) uma crítica aos "Donos do Poder"8.

De outro lado, também não se conseguiu amadurecer a crítica para identificar que as raízes desses males não são apenas comportamentais, mas notadamente estruturais. O sistema partidário brasileiro é produtor e mantenedor de côrtes. O orçamento e os fundos partidários, os salários e os benefícios aos políticos de todas as esferas, o acesso (chantagista) ao orçamento público e suas emendas, o esvaziamento ideológico e propositivo, os direitos exclusivos, os foros privilegiados, enfim, toda a estrutura que isenta e previne o contato desta côrte com a população, exceto em midiáticos períodos eleitorais, cujos resultados são em grande parte incapazes de mudar qualquer coisa, uma vez que os partidos controlam as candidaturas e as possibilidades de participação.

Se votar em A ou B pode ser diferente, a atuação de A ou B tende a o não ser. Não importaria então a dinâmica democrática, uma vez que a competição é apenas por poder e há poucas diferenças entre as candidaturas. Era uma mesma crítica: o poder no Brasil permanece distante do povo e refém de uma côrte, que aprendeu a jogar a dinâmica democrática em proveito próprio e acabou por envenenar seu funcionamento.

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Juventude e Potentia

Em quarto lugar, e talvez mais importante, importa compreender o fenômeno à luz da formação social brasileira, suas raízes e seu desenvolvimento societário. Tal reflexão talvez possa também esclarecer traços de similaridade e originalidade em relação a outros cenários, sociedades e culturas, instruindo também o diálogo no espaço da lusofonia. Neste caso, a análise mais simples e direta das manifestações traz consigo um misto de estranhamento e descoberta. Porque as manifestações geraram tanta surpresa? Em parte porque nunca haviam ocorrido. No entanto, talvez seja mais surpreendente este fato: de nunca terem ocorrido antes. Mais ainda ao se constatar que nunca ocorreram exatamente numa das sociedades mais desiguais do mundo. Sua emergência, em qualquer momento da história seria esperada e até natural dentro dos moldes de reflexão das transições em relação ao moderno. No entanto, esse também não é nosso traço. Curiosamente, ou não, são também traços lusitanos. Tanto a desigualdade, uma das maiores da União Europeia, quanto a "não revolução". "Cravos" não foram violentos. Construímos uma modernidade diversa. A despeito de críticas e, principalmente, autocríticas, construíram-se sociedades dinâmicas, miscigenadas, em certa medida xenófilas e abertas à inovação. Quando em perspectiva, a tolerância (religiosa, étnica, et all) em relação à diferença, se por nós mesmos muito criticada, mostra-se uma das mais plurais do mundo. Por outro lado, também elaboramos nossas formas de segregação, racismo e reprodução social. Nossa modernidade certamente não é a modernidade descrita em tantas obras canônicas das Ciências Humanas e Sociais. Temos formas diferentes de transitar ao moderno e desenvolver uma forma própria de avanços: graduais, não violentos, conversadores, dependentes, mas avanços.

A compreensão da forma como o Brasil realiza sua modernização conservadora, nos moldes de uma Revolução Passiva9, importa sobremaneira para compreender o papel que esses novos atores e formatos de participação alteram a estrutura e o jogo político. Temos transições muito diversas das experimentadas em outras sociedades. Não à toa as manifestações são tão ricas. Não porque farão "a revolução" ou porque conduzirão a "transição definitiva rumo ao moderno", mas exatamente porque um observador mais atento sabe que isso não acontecerá. Já está acontecendo! Nossas trajetórias não ocorrem exatamente como no script de outras histórias sociais. Nossa "revolução" está em curso. Ela sempre está em curso...

Parafraseando Adriana Calcanhotto10: aconteceu, quando a gente não esperava (...) aconteceu, diferente das histórias, que os romances e a memória, têm costume de contar... Este olhar para processos discretos, por vezes invisíveis, de avanços sucessivos e não lineares, é que permite vislumbrar de fato o que ocorre em nossas sociedades. Daí a importância das manifestações e sua relação com seus protagonistas, os jovens e esta geração. Se nosso processo "revolucionário" é de idas e vindas, de avanços e retrocessos, cuja modernização ocorre com a manutenção de traços conservadores, o vetor em direção às mudanças conheceu uma nova e poderosa expressão: a reinvenção da Potentia11. Daí a importância de compreender bem o contexto para conseguir articular os movimentos, os atores e os interesses em prol de avanços sociais.

Como em vários outros momentos da história social brasileira, a Juventude foi a principal protagonista do movimento, o qual liderou e catalisou forças e demandas coerentes e plurais. Tal como no período ditatorial, tal como na transição para a democracia e as "Diretas Já", tal como no "Impeachment", foram os jovens que vislumbraram as contradições de um modelo sócio-político de desenvolvimento em crise, empoderaram pautas específicas com conteúdo genuinamente moderno, republicano, social-democrata e de maneira sinérgica catapultaram uma luta específica em um processo global de questionamento social. No entanto, muito diferente de todas as experiências anteriores, não houve tutelas tradicionais (como partidos, sindicatos e movimentos). São também jovens mais escolarizados, de classes trabalhadoras, com pouca (ou nenhuma) experiência política. A solidariedade e a identificação (de posições sociais, interesses e valores), mutuamente produzidas, contribuíram para um efeito autônomo e condutor das ações. Em grande parte, negando e criticando as lideranças tradicionais e seus aparatos institucionais, como os partidos políticos.

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Occupy Wall Street, a Juventude à Rasca, Los Indignados, a Primavera Árabe e vários outros movimentos sociais contemporâneos tem características semelhantes, como a liderança dispersa, a mobilização via novas tecnológicas, em especial, através das redes sociais. Destaca-se também o papel de jovens diplomados de classe média, que não encontram na sociedade a realização das promessas desta fase claudicante do modelo de desenvolvimento capitalista e as contradições decorrentes de sua reconfiguração em função dos processos de transformação em curso: a crescente integração de mercados, moedas e transações com todos os seus limites e efeitos colaterais; a desindustrialização e o desemprego estrutural, acompanhados de novas carreiras e empregabilidades e trajetórias profissionais; a expansão do ensino superior, a inflação de credenciais e as frustrações adjacentes; et all.

Observou-se no Brasil uma busca por explicações e interpretações imediatas para a surpresa geral que tomou a nação. Proporcionalmente, observou-se a incapacidade de compreender algo tão novo e ao mesmo tempo com traços tão historicamente conhecidos: manifestações populares, reivindicações decorrentes de insatisfações com o sistema político e os serviços públicos, defesa e luta por direitos sociais (como saúde, educação, segurança) e tantas outras características da história moderna. Afinal, o que havia de novo? Como destacado, o que havia de mais assustador era o anonimato, o desconhecimento deste novo ator (e também opositor), a inexistência de uma liderança identificada, controladora dos movimentos em curso. No tabuleiro político, como em qualquer teatro de batalhas, os atores tradicionais encontraram-se diante de um "novo jogo" dentro do conhecido e controlado "jogo político" tradicional. Mais dissuasivo do que numa guerra de guerrilhas, em que há oponente, embora não haja exército para se enfrentar frontalmente, neste caso sequer se conhecia o antagônico. O poder instituído não conseguia sequer negociar (ou chantagear, ou corromper...) numa reunião fechada entre quatro paredes e uma "mesa de batalhas". A cooptação direta, instrumento tradicional de resolução de conflitos e produção de acordos (conchavos) políticos contrários à res pública, não foi possível. Vale lembrar que isso ocorreu na transição do Impeachment e hoje coloca abraçados, irmanados na base aliada no Senado, Lindberg Farias (então líder dos "cara pintadas") e Fernando Collor (então presidente deposto). Em 2013, o jogo foi outro, e pareceu ameaçador.

A transformação (ou nosso tipo de "revolução) está em curso. Não depende necessariamente de fatos marcantes ou tomada de poder. As transformações operam silenciosamente. Ao contrário das explicações lineares, sejam da história ou da economia, foram das Ciências Sociais que surgiram chaves para compreender o que ocorria no Brasil. As bases materiais apontam novas condições objetivas e subjetivas. As redes sociais, o acesso ao ensino superior, novos processos identitários, globalização da informação e do consumo, enfim, de fato há para esta geração de Jovens vários elementos completamente novos em sua formação social, bem como em sua ação social. São jovens que conheceram outro modo de se produzir e se reconhecer no mundo. Agora, ao transitarem etapas dialéticas em direção à vida adulta, começam também a imprimir novas marcas na sociedade em que vivem. Essas novas bases materiais, em suas expressões objetivas e subjetivas, merecem atenção para conhecer quem são esses novos atores, o que pensam, como agem e de certa forma indicar como podem transformar as sociedades em que vivem, tanto localmente, quanto globalmente.


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NOTAS

(1) O presente trabalho foi realizado com apoio do Programa Observatório da Educação, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES/Brasil e também deriva da síntese da apresentação realizada em 27/06/2013, no Instituto de Ciências Humanas da UFJF, em debate com alunos e colegas do Dept. de Ciências Socais, acerca das Manifestações enquanto elas ainda estavam em curso. Merecem especial referência os Prof. Raul Magalhães e Eduardo Salomão Condé.

(2) Doutor em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), é Professor do Dept e do Prog de Pós Graduação em Ciências Sociais (UFJF), Coord. de Projetos do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd) e do Observatório da Educação (OBEDUC/CAPES): "Determinantes do Sucesso Educacional no Brasil". Coordenou entre 2005 e 2008 a Avaliação do "Programa Nacional de Inclusão de Jovens" e foi consultor do PNUD / ONU junto à Secretaria Nacional de Juventude (2009-10)

Juventude e a reinvenção da política no século XXI
(3)Acerca do tema, vide a obra de Cornelius Castoriadis. Em especial: L'Institution imaginarie de la société. Paris: Seuil, 1975 (publicada também no Brasil: A instituição imaginária da sociedade. (3ª. ed.). Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1991) e CASTORIADIS, Cornelius et al. A Criação Histórica. Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1992.

(4)Vale leitura especial e atenta o artigo de SCALON, C. Juventude, Igualdade e Protestos. Revista Brasileira de Sociologia, nº 02 – no prelo, derivada de sua Conferência no XVI Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado em Salvador – BA em setembro de 2013.

Especial atenção à HIRSCH, Fred. Social Limits to Growth. Cambridge: Harvard University Press, 1976.

(5)"Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição." (Art 1º Par. Único da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988)

(6)Sobre este tema, merece leitura atenta a obra exemplar de Roberto DaMatta. A Casa e a Rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan, 1991.

(7)Referência à obra de Raymundo Faoro. Os donos do poder. Formação do patronato político brasileiro. 5ª ed. Porto Alegre, Globo, 1979

(8)Sobre interpretações contemporâneas do Brasil, sua formação e funcionamento social, consultar a obra de Luiz Werneck Vianna. (9)Destaque para obras recentes e premiadas, dentre as quais se destacam: A revolução passiva – Iberismo e Americanismo no Brasil. Rio de Janeiro. Revan,1997 (2ªed, 2004). Esquerda brasileira e tradição republicana: estudos de conjuntura sobre a era FHC – Lula. Rio de Janeiro, Revan: 2006. A modernização sem o moderno: análises de conjuntura na era Lula. Rio de Janeiro: Contraponto: 2011.

(10)Adriana Calcanhoto. Aconteceu. A Fábrica do Poema. 1994.

(11)MAGALHÃES, Raul. A reinvenção da Potentia. Boletim do Centro de Estudos Direito e Sociedades (CEDES), jul-set/2013, pp 22-26.




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