OLHARES SOBRE JOVENS

Janeiro 2013 - O impacto do contexto escolar e socioeconómico nos resultados dos exames dos alunos: uma leitura a partir dos dados dos rankings para o ensino secundário

 


Cátia Nunes, Psicóloga Social e Investigadora na área das Ciências Sociais

Daniela Oliveira, Matemática e Investigadora na área da Estatística Aplicada


1. Introdução

Os dados dos resultados dos alunos nos exames de final de ano têm sido publicados regularmente pelo jornal Expresso. Com base nestes resultados o Expresso tem publicado um ranking das escolas com o propósito de seriar e identificar, numa base anual, as escolas com melhores e piores resultados. A leitura deste tipo ranking, apesar de relevante, é também limitada no seu âmbito pois outras variáveis concorrem para o maior sucesso ou insucesso escolar dos alunos do que somente a pertença a uma determinada escola. Numa tentativa de colmatar esta lacuna, a base de trabalho dos resultados do ano de 2012 contemplou informação adicional sobre o contexto escolar e socioeconómico em que os alunos das diferentes escolas se inserem, possibilitando, assim, alargar o âmbito analítico dos resultados dos alunos nos exames. No presente texto, apresenta-se um exercício descritivo e explicativo com o objetivo de melhor compreender o que está "por de trás" destes rankings. O âmbito da análise será circunscrito aos resultados dos alunos nos exames do ensino secundário, dado que as variáveis de contexto escolar e socioeconómico foram disponibilizadas apenas para este universo escolar.

2. Seleção do universo de análise

Do universo inicial de 615 agrupamentos escolares ou escolas não agrupadas do ensino secundário, foi feita uma restrição dos casos que simultaneamente detêm informação dos resultados dos exames e das variáveis de contexto escolar e socioeconómico. Esta restrição conduziu a um subuniverso de 457 agrupamentos escolares ou escolas não agrupadas. Deste subconjunto foram, adicionalmente, eliminados dois casos da Região Autónoma dos Açores, uma vez que a informação para as ilhas não se encontra representada significativamente e se optou por centrar a análise no território Continental, resultando num subuniverso final de 455 agrupamentos escolares ou escolas não agrupadas.

Para além dos resultados dos exames foram, consideradas as seguintes variáveis de interesse:

a) O capital escolar dos pais, operacionalizado a partir da média de anos de escolaridade mais elevada entre os pais, pressupondo-se que este é um capital que estará presente na vida letiva dos alunos

b) A proporção de beneficiários de ação social escolar

c) A proporção de professores no quadro de zona

Para além de uma análise global, isto é para Portugal Continental, os resultados foram ainda segmentados por regiões NUTS 2 (Norte, Lisboa, Centro, Alentejo e Algarve).

3. Resultados

A estratégia de análise dos dados seguiu duas etapas. Uma primeira com base numa perspetiva mais descritiva dos resultados, considerando as variáveis de interesse e a sua segmentação por região, recorrendo a médias e respetiva medida de dispersão (desvio-padrão); e uma segunda que pressupôs operacionalizar a relação entre os resultados dos exames e as variáveis de contexto escolar e socioeconómico, tendo em conta não só uma leitura bivariada mas focando também o impacto conjugado das variáveis de contexto escolar e socioeconómico nos resultados dos exames dos alunos.

Na análise descritiva, tendo em conta os valores médios das variáveis, ainda foi testada a significância da segmentação por região na influência às variáveis de contexto familiar e escolar. As diferenças por região foram determinadas recorrendo a testes estatísticos One-Way ANOVA, que permitem perceber se as médias observadas nas variáveis de interesse nas diferentes regiões são estatisticamente diferentes. Isto é, se o contexto regional em que os agrupamentos se inserem permite destrinçar diferenças estatisticamente significativas nos resultados médios dos exames, bem como nas restantes variáveis.

Para a análise bivariada e no sentido de se avaliar a existência de relações entre as variáveis, utilizou-se o coeficiente de correlação de Pearson (R de Pearson) que permite quantificar a intensidade e a direção da associação entre duas variáveis. Para a leitura do impacto conjugado recorreu-se a uma modelo de regressão linear multivariada considerando os resultados dos exames como variável critério e as restantes variáveis como preditoras.

3.1 Continuidades ou contrastes regionais?

No quadro 1 são apresentados os valores médios (e respetiva medida de dispersão) das variáveis de contexto escolar e socioeconómico, ao nível de Portugal Continental e para cada uma das regiões (NUTS II). Os resultados revelam diferenças estatisticamente significativas entre as médias das regiões para todas as variáveis de contexto escolar e socioeconómico.

















Relativamente à variável resultados médios dos exames (Gráfico 1), observou-se que a média dos resultados dos exames da região do Centro é estatisticamente superior à média dos resultados médios dos exames da região do Alentejo.

No que respeita à média dos anos de escolaridade mais elevada entre os pais (Gráfico 2), chegou-se à conclusão da existência de diferenças estatisticamente significativas entre a região do Norte e as restantes regiões do Continente, bem como entre a região de Lisboa e as restantes regiões do Continente. Assim, poderá afirmar-se, por um lado, que a média dos anos de escolaridade mais elevada entre os pais na região do Norte é estatisticamente inferior à média dos anos de escolaridade mais elevada entre os pais das restantes regiões e, por outro lado, que a média dos anos de escolaridade mais elevada entre os pais na região de Lisboa é estatisticamente superior à média dos anos de escolaridade mais elevada entre os pais das restantes regiões. Ou seja, verifica-se um contraste entre a região do Norte e a região de Lisboa comparativamente às restantes regiões do Continente.

No que concerne à percentagem de alunos beneficiários de ação social escolar (Gráfico 3), concluiu-se que existem diferenças estatisticamente significativas entre a região de Lisboa e as regiões do Norte e Centro, bem como entre a região do Norte e as restantes regiões do Continente. Desta forma, é possível afirmar que a média da percentagem de alunos beneficiários de ação social escolar na região de Lisboa é estatisticamente inferior à média da percentagem de alunos beneficiários de ação social escolar das regiões do Norte e Centro. Adicionalmente, é possível afirmar que a média da percentagem de alunos beneficiários de ação social escolar na região de Norte é estatisticamente superior à média da percentagem de alunos beneficiários de ação social escolar das restantes regiões.

Por fim, também se conclui que existem diferenças estatisticamente significativas entre as regiões do Alentejo e Algarve e as regiões do Centro e de Lisboa relativamente à média da percentagem de professores do quadro de zona (Gráfico 4), sendo que a média da percentagem de professores do quadro de zona nas regiões do Alentejo e Algarve é estatisticamente inferior à média da percentagem de professores do quadro de zona das regiões do Centro e de Lisboa. Ou seja, as regiões de Lisboa e do Centro apresentam maior estabilidade dos docentes em termos da sua permanência nos agrupamentos escolares / escolas não agrupadas.


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3.2 O contexto escolar e socioeconómico pode ajudar a explicar os resultados escolares?

Para responder a esta questão, começamos por analisar a relação entre os resultados dos exames e as variáveis de contexto escolar e socioeconómico a partir de uma análise de correlações bivariada entre as variáveis de contexto escolar e socioeconómico e os resultados dos exames dos alunos do ensino secundário. Os dados revelam que o contexto escolar e socioeconómico detém uma associação significativa e moderadamente expressiva com os resultados médios dos exames dos alunos.

O Gráfico 5 permite observar uma correlação positiva e estatisticamente significativa entre os resultados médios dos exames e a média dos anos de escolaridade mais elevada entre os pais (r = 0,51; p < 0,001), indicando que um maior capital escolar dos pais se relaciona positivamente com os resultados médios dos exames dos alunos. A correlação entre os resultados médios dos exames e a percentagem de professores do quadro de zona na escola/agrupamento é, igualmente, positiva e estatisticamente significativa (r = 0,43; p < 0,001), revelando que uma presença mais elevada de professores do quadro se relaciona positivamente com os resultados médios dos exames (Gráfico 7). No entanto, e num sentido inverso, regista-se uma correlação negativa (Gráfico 6) entre a percentagem de alunos beneficiários de ação social escolar numa escola/agrupamento e os resultados médios dos exames (r = - 0,52; p < 0,001), o que é revelador de um efeito menos positivo de um contexto socioeconómico menos favorecido nos resultados escolares dos alunos do ensino secundário.


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Os resultados por região revelam o mesmo padrão de correlações entre as variáveis de contexto escolar e socioeconómico e os resultados médios dos exames. Assim, verificam-se correlações estatisticamente significativas para todas as regiões, com exceção do Algarve. Os resultados para esta região não são alheios ao facto de o número de agrupamentos escolares ou escolas não agrupadas (n=17) ser comparativamente menor ao número registado para as restantes regiões.



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A partir da análise bivariada de correlações foi possível perceber o sentido da relação entre os resultados dos exames e as variáveis de contexto escolar e socioeconómico. Contudo, o impacto conjugado destas variáveis só poderá ser captado recorrendo a uma leitura multivariada dos dados. Tendo em vista este objetivo, recorreu-se a modelos de regressão lineares multivariados, considerandos as três variáveis de interesse enquanto preditores dos resultados médios dos exames.

Os resultados apontam para um impacto diferenciado do contexto escolar e socioeconómico tendo em conta o âmbito regional (Quadro 3). Na região de Lisboa a escolaridade dos pais revela-se o único preditor estatisticamente significativo no modelo, ao passo que na região do Norte, são as variáveis relativas à percentagem de beneficiários de ação social e escolar e a percentagem de professores do quadro de zona que revelam maior impacto nos resultados médios dos alunos do que o capital escolar dos pais. Na região Centro o capital escolar dos pais e a percentagem média de professores no quadro de zona são as duas variáveis que apresentam um efeito estatisticamente significativo nos resultados médios dos exames dos alunos dos agrupamentos / escolas não agrupadas desta região. Por sua vez, na região do Alentejo é o capital escolar dos pais, bem como a percentagem média de beneficiários de ação social escolar que influenciam significativamente os resultados médios dos exames. A região do Algarve, tal como já foi referido em relação à análise de correlações bivariada, encontra-se limitada a um número reduzido de observações pelo que o modelo de regressão não se revela estatisticamente robusto.


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Estes resultados reforçam assim o contraste entre as diferentes regiões do país, bem como revelam que o impacto do contexto escolar e socioeconómico nos resultados médios dos exames dos alunos do ensino secundário não assume um padrão territorialmente homogéneo.









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