OLHARES SOBRE JOVENS

Julho 2011 - Transições para a Idade Adulta na Europa

 


Transições para a idade adulta na Europa: idades dos marcadores tradicionais


A Europa evidencia uma grande diversidade ao nível dos tempos que organizam as transições para a idade adulta, considerando as cadências etárias que medeiam as passagens dos marcadores sociais mais tradicionais: a primeira experiência de trabalho; a experiência de saída de casa dos pais; a primeira experiência conjugal; a experiência do primeiro casamento; e a experiência do primeiro filho.

O quadro seguinte permite notar que as primeiras experiências laborais dos europeus ocorrem, em média, em torno dos 19 anos de idade, sendo contudo muito diferenciadas as idade de entrada no mercado de trabalho nos vários países da Europa. Portugal é o país onde, em média, a primeira experiência laboral remunerada acontece mais cedo, muito perto da média da Suíça e da Alemanha. São países que oferecem sistemas de ensino muito estandardizados e selectivos e, simultaneamente, cujos mercados de trabalho oferecem segmentos disponíveis à absorção de mão-de-obra juvenil menos qualificada, quer em termos formais (através de estágios vocacionais ou profissionais a tempo parcial, no caso da Alemanha e da Suíça, por exemplo) quer informais (através de estratégias de subemprego ou de emprego, no caso de Portugal). No pólo oposto, as experiências laborais mais tardias, já depois dos 20 anos de idade, acontecem em países tradicionalmente caracterizados por sistemas de ensino socialmente menos selectivos e que proporcionam trajectórias escolares mais longas e qualificantes, nomeadamente em países pós-comunistas como a Estónia, a Eslovénia ou a Bulgária.





As entradas mais precoces no mercado de trabalho não se traduzem, porém, em transições residenciais antecipadas, ou seja, não são imediatamente seguidas da saída da casa dos pais. Portugal e a Alemanha são os países onde o tempo que medeia essa transição surge mais diferido: a saída de casa dos pais ocorre cerca de três a quatro anos depois de se ter o primeiro emprego, após os 21 anos, em média. Já na Bulgária ou no Chipre, à entrada no mercado de trabalho, apesar de tardia, sucede imediatamente a independência da casa parental, não chegando a um ano o intervalo que medeia essas transições.
Nos países Nórdicos, como a Noruega, a Dinamarca e a Suécia, a entrada no mercado de trabalho e a saída de casa dos pais tendem também a ser marcadores praticamente contíguos (caso da Noruega) ou imediatamente sucessivos, sendo estes os países onde a independência residencial tende a ocorrer mais cedo na Europa, em torno dos 19 anos. Para além de um padrão cultural intergeracionalmente partilhado de autonomia juvenil, a precocidade da autonomização residencial dos jovens nestes países não será alheia, em grande medida, aos apoios públicos que lhes são universalmente providenciados, enquanto estudantes e/ou desempregados.

O intervalo que medeia a saída da casa dos pais e a primeira conjugalidade tende também a ser prolongado nestes países, sendo a Suécia e a Dinamarca os países onde a primeira conjugalidade surge mais distante do primeiro casamento, evidenciando um tempo longo de experimentalismo pré-conjugal. Em Portugal, ainda que o tempo que medeia a saída de casa dos pais e a primeira conjugalidade revele uma cadência média de dois anos, o tempo que medeia a primeira conjugalidade e o primeiro casamento é praticamente contíguo, o que revela um processo de conjugalização que continua a ir a par de um padrão cultural familiarista e de adesão ao casamento formal. Esta cronologia é igualmente característica dos países do Leste Europeu, onde o experimentalismo pré-conjugal também não se encontra muito presente.

Ao contrário deste último conjunto de países, o casamento formal surge com um tempo de diferimento bastante alargado nos países nórdicos, ritual que, quando acontece, tende a ser imediatamente seguido da parentalidade. A formalização da conjugalidade nestes países tende, portanto, a vir associada à constituição de uma família de procriação, depois de um período alargado de experimentação da vida a dois. Aliás, na Suécia até sucede o primeiro filho nascer, em média, quatro meses antes da formalização do casamento. Já em Portugal, em conjunto com a Holanda e a Bélgica, os inquiridos demoram mais tempo a tomar a decisão em tornar-se pais, depois de consagrado o casamento formal.

***


O gráfico seguinte permite visualizar mais claramente a diversidade que a Europa evidencia ao nível das idades com que os marcadores sociais que organizam as transições para a idade adulta são ultrapassados. O modelo de temporalidade mais comum aos diversos regimes de transição para a idade adulta europeus tende a seguir um padrão de sequencialidade diferida [quadrado azul]. Trata-se de um padrão caracterizado por um tempo de transição prolongada, tempo esse que tende a ser marcado por cadências relativamente mais demoradas nos marcadores de passagem que dizem respeito à emancipação pessoal dos jovens, nomeadamente nos marcadores de emancipação financeira e residencial (entrada no mundo do trabalho e saída de casa dos pais). Os marcadores de passagem à instalação familiar na sua forma mais institucionalizada (como o primeiro casamento e o primeiro filho) não só tendem a acontecer mais tarde como, com frequência, tendem a vir associados a um tempo prévio e relativamente dilatado de experimentalismo conjugal.

Este padrão encontra tempos de diferimento mais longos junto dos países nórdicos (como a Dinamarca, a Finlândia, a Suécia e a Noruega), onde os tempos de emancipação pessoal são relativamente curtos, seguidos de um tempo mais dilatado prévio ao início da vida a dois. O contexto institucional característico destes países tem, certamente, efeitos no maior deferimento destas trajectórias. Para além de serem países dotados de um Estado Social que providencia universalmente meios financeiros aos jovens no sentido de estimular a sua autonomização da casa parental, são também dotados de sistemas de educação, formação e emprego altamente flexíveis, bem como socialmente abrangentes e inclusivos. A juventude tende a ser socialmente apropriada e vivida como uma longa fase exploratória de vida (de itinerários, de situações, de papéis sociais, etc.), onde a autonomia e a reversibilidade das opções tomadas não só não são socialmente penalizadas, como até são estimuladas.

































Com tempos de emancipação pessoal mais prolongados, apresentando prazos de deferimento mais alargados entre a entrada no mercado de trabalho e a saída de casa dos pais, encontramos outros países da Europa Central com regimes de transição dotados de condições institucionais e sociais não tão generosas e favoráveis a todos jovens, como a Suíça (onde o cumprimento da passagem pelos vários marcadores de transição para a idade adulta é mais prolongado), a Alemanha, a Holanda, a Áustria, o Reino Unido ou a Irlanda. Apesar de serem países com regimes de transição juvenil bastante diferentes, têm em comum o facto de, transversalmente, os jovens encontrarem condições socio-simbólicas que os estimulam a valorizar um processo de independência financeira e parental relativamente precoce mas que, muitas vezes, na prática, não lhes permitem a sua concretização com sucesso, nomeadamente no mercado de trabalho.

Portugal e, sobretudo, Espanha apresentam também um tempo prolongado de transição para a idade adulta, porém sem uma longa cadência de experimentalismo conjugal, sendo a primeira conjugalidade e o primeiro casamento praticamente contíguos. Os contextos institucionais destes países remetem para um regime de transição sub-protector, onde a fragilidade das políticas públicas a intervir nas transições juvenis deixa uma larga quota-parte de responsabilidade nos apoios a cargo das famílias e à mercê das suas respectivas contingências sociais, bem como de um sistema de emprego muito tradicional, restritivo e precário. Daí o prolongamento da sua estadia na casa dos pais, mesmo que muitas vezes já laboralmente (sub)integrados, até se instalarem numa nova família no âmbito da qual possam dividir despesas e responsabilidades.

As temporalidades típicas das transições para a idade adulta dos países do Leste europeu tendem, por sua vez, a caracterizar-se por um padrão de sequencialidade contígua, representado por um tempo acelerado de transição, marcado por cadências mais consecutivas e curtas nas várias experiências dos marcadores de passagem (quadrado vermelho). Mais do que uma lógica experimentalista e de emancipação pessoal prévia, a transição para a idade adulta, nestes países, parece submeter-se a uma lógica de urgência na instalação familiar, que relativamente cedo se materializa no casamento e na parentalidade. Este padrão aponta para a modalidade tradicional e normativa de vivência juvenil, apropriada sobretudo como um tempo de preparação para a integração definitiva nos papéis profissionais e familiares que supõem o estatuto de «adulto», positivamente percepcionado até como estatuto socialmente ascendente. Este é um regime típico em países como a Bulgária, a Eslovénia, a Eslováquia, a Rússia, a Ucrânia, a Polónia e a Hungria.


Vítor Sérgio Ferreira (ICS-UL).


  • Faixa publicitária
  • Faixa publicitária
  • Faixa publicitária

Contacte-nos