OLHARES SOBRE JOVENS

Julho 2014 - Os jovens face à escola

 


Os jovens face à escola: uma análise a partir dos censos de 2001 e 2011


Maria Manuel Vieira (OPJ/ICS-ULisboa)


A "alunização" da juventude

A análise dos indicadores obtidos a partir dos Censos de 2001 e 2011 relativos à escolaridade da população residente confirma o lugar central que a escola detém nas trajetórias juvenis contemporâneas.

A taxa de escolarização segundo o grupo etário - definida como a relação percentual entre o número total de alunos de um dado grupo etário matriculados no sistema educativo e o número total de população residente desse mesmo grupo etário – mede justamente o grau de inclusão da população em idade escolar no sistema e, por conseguinte, a amplitude daquela centralidade. Como se observa no gráfico 1, para a generalidade dos "teenagers", ser estudante, frequentar o sistema de ensino, constitui uma atividade que impregna duradouramente a sua vida quotidiana. Se tal já era a norma em 2001, quando 71.0 % dos jovens portugueses entre os 15 e os 19 anos se encontrava no sistema de ensino, dez anos depois a tendência reforça-se: a condição estudantil abarca 84,0% desses jovens, englobando a esmagadora maioria da população desse escalão etário.

No Portugal contemporâneo, não há lugar para o jovem adolescente...a não ser na escola. Ora, esta "alunização da juventude" não deixa de produzir importantes efeitos nos adolescentes: para além de a experiencia escolar passar a estruturar decisivamente as suas vidas e a condição de aluno definir doravante a sua identidade social, o contacto diário e duradouro com outros pares propiciado pela escola reforça a importância socializadora que o grupo de amigos, mais concretamente os colegas da escola - por vezes em oposição ao mundo adulto - adquire na configuração de valores, práticas e estilos de vida.

O mesmo deixa de suceder nos mais velhos. Nos grupos etários subsequentes a situação altera-se, passando a norma à situação de (relativa) excepção. Com efeito, a condição estudantil começa a rarear significativamente junto da população juvenil com mais de 20 anos, embora com uma constante: ela expande-se sempre quando se compara 2001 com 2011, qualquer que seja o grupo etário considerado...Entre a população com idades compreendidas entre os 20 e os 24 anos, a proporção dos que prosseguem os estudos passa de 33,8%, em 2001, para quase 40% (mais precisamente 39,5%) em 2011. Finalmente, como seria de prever, no grupo etário mais velho (dos 25 aos 29 anos) os valores revelam-se mais tímidos: apenas 10.9%, em 2001, e 14.1%, em 2011, dessa população mantém-se no sistema de ensino...

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Não obstante, o quadro genérico traçado refracta-se em variações por género. Como se observa claramente no gráfico 2, em ambos os anos censitários considerados as raparigas permanecem mais tempo na escola do que os rapazes.

Sabe-se como a progressiva paridade entre géneros – em termos de práticas, representações e destinos sociais – exercitada cada vez mais pelas famílias junto dos filhos tem beneficiado particularmente as raparigas e a sua escolarização. Ultrapassando estereótipos que outrora as afastavam duradouramente da escola, as raparigas têm nas últimas décadas protagonizado uma silenciosa revolução escolar, ao progredirem velozmente no sistema educativo, suplantando em sucesso e em longevidade escolar os seus pares masculinos graças a um investimento mais eficaz nos estudos.

As taxas de escolarização por sexo comprovam-no. Em 2001, a disparidade entre rapazes e raparigas era particularmente acentuada nos grupos etários mais jovens: mais 13% da população feminina dos 15 aos 19 anos, comparativamente com a congénere masculina permanecia na escola (75.3% e 66.9%, respectivamente); e, no grupo etário dos 20 aos 24 anos, essa distância era de cerca de 8% (37.8% contra 29.9%).

Semelhante padrão atenua-se, em 2011, mas não desaparece. Neste caso, 86.0% das raparigas com idades compreendidas entre os 15 e os 19 anos estão a estudar, contra 81.9% dos rapazes do mesmo escalão etário. No que concerne a população com idades entre os 20 e os 24 anos, a diferença é menor, mas mesmo assim significativa: 41.5% das raparigas contra 37.3% dos rapazes é estudante. Apenas no grupo etário mais velho considerado (dos 25 aos 29 anos) a aproximação é efetiva: 11.1% das raparigas e 10.7% dos rapazes destas idades permanecem na escola, em 2001, valor que passa para os 13.5% e 14.7%, respetivamente, em 2011, suplantando desta vez os rapazes as suas pares femininas.


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Estes dados parecem ir ao encontro de pesquisas que acentuam o facto de as raparigas ostentarem uma dupla vantagem escolar: prosseguem os estudos até níveis mais avançados e obtêm mais sucesso, o que faz antever trajetórias escolares mais lineares, sem interrupções ou compassos de espera (via reprovações), não deixando arrastar os estudos para além da idade esperada...

No entanto, estes dados revelam também que, no espaço de uma década, as acentuadas disparidades escolares entre os dois sexos diminuíram. Tal parece confirmar as análises que sublinham o papel dos cursos de carácter profissionalizante (cursos de educação e formação, cursos profissionais, cursos de especialização tecnológica) – uma clara aposta de política educativa nesta década – na adesão e fixação de rapazes ao sistema...

De uma forma global, o que se destaca claramente da leitura das taxas de escolarização da população juvenil é o facto de o fim da adolescência marcar o fim da generalização da condição estudantil. Para a maioria dos jovens portugueses, os 19 anos assumem, atualmente, o estatuto de marcador de transição para outra(s) condição(ões) de vida..


Tal pai, tal filho? Escolarização e gap geracional


Um dos traços estruturantes que sobressai da comparação entre a escolaridade dos jovens e a do resto da população é, sem dúvida, o forte gap geracional que os separa em termos de educação e formação. Justamente, os indicadores demonstram que hoje os jovens portugueses estudam mais, por mais tempo, do que as gerações precedentes. E, em muitos meios sociais, a escolaridade dos filhos ultrapassa largamente a dos pais.

De forma muito rudimentar, o gráfico 3 pretende ser uma aproximação a esta questão. Assim, e tendo em conta o nível de escolaridade mais elevado completo possuído, verifica-se um forte contraste entre uma escolarização incipiente ostentada pelo conjunto dos portugueses - onde os mais velhos pontuam – e uma escolarização mais avançada detida pelos jovens entre os 15 e os 29 anos. Essa diferença mantém-se, entre 2001 e 2011, embora ambos os grupos populacionais tenham progredido em termos de qualificações no espaço de uma década. Ainda que elevada, a proporção dos que não possuem qualquer tipo de qualificação académica reduz-se, no conjunto da população, de 26.4 pontos percentuais para 18.9 pontos percentuais, de 2001 para 2011. No caso do subgrupo juvenil, esses valores são irrisórios: os 2.9% registados em 2001 caem para os 1.4%, dez anos depois. Idêntica tendência se observa para os que apenas possuem o 1º ciclo do ensino básico: este é um diploma relativamente comum entre o conjunto da população portuguesa, quer em 2001 (para 27.8%) quer em 2011 (para 25.5%), mas é relativamente raro entre os mais novos, tanto em 2001 (8.8%) como, sobretudo, em 2011, pois apenas 2.4% o possuem como diploma mais elevado completo.


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A situação inverte-se totalmente no caso dos níveis médios de diplomação, sendo desta vez os mais novos a levar vantagem sobre o conjunto da população - com forte contingente de adultos e idosos no seu seio. O subgrupo dos 15-29 anos com diploma do 3º ciclo mais do que duplica em relação ao total da população: 33.2% contra 13.8%, em 2001 e 36.7% contra 16.3% em 2011. Idêntica expressão observa-se no caso do ensino secundário: 25.2% dos mais novos declaram ter completado este grau, em 2001, ao passo que ele é apenas atingido por 11.1% da população; dez anos depois, esse valor aumenta para 28.7% entre os jovens quando, no total da população, ele não vai além dos 13.4%.


Insiders e outsiders: escolaridade e separação das juventudes


Hoje a condição estudantil faz parte constitutiva da condição juvenil. Frequentar a escola, para além de representar a generalização a todos de um bem-comum, ou seja, um direito cívico, é igualmente um fator inegável de integração social, ao proporcionar a toda uma classe etária um conjunto de saberes, experiências, linguagens e rotinas comuns. Vimo-lo claramente no gráfico 1.

Porém, a experiência escolar, que une no seu seio todas as crianças e adolescentes, também separa, distingue, desagrega – desde logo, entre os que continua a acolher e os que (mais ou menos precocemente) a abandonam. Assim, mais do que falar em juventude teremos de falar em juventudes.

Dos dados apurados pelos censos, dois grupos se destacam: a população residente que, à data do inquérito, ainda está a estudar e aquela que já não frequenta o sistema de ensino. Vejamos os contornos apresentados por cada grupo.

O gráfico 4 representa o grupo dos jovens com idades entre os 15 e os 29 anos que se encontra a estudar. Dele sobressai o facto de, em ambos os anos considerados, ser uma população que, esmagadoramente, frequenta patamares intermédios e avançados do sistema de ensino. Em 2001, os que estudavam no 3º ciclo do ensino básico ou no ensino secundário constituíam mais de metade dos jovens estudantes (57.0%), logo seguidos pelo grupo dos que cursavam o ensino superior (39.4%). No grupo dos que permaneciam na condição de estudantes, a proporção dos que se encontravam em patamares muito elementares de escolaridade – 1º ou 2º ciclo do ensino básico – eram uma clara minoria: representavam apenas 3.6% do total. Dez anos depois, a proporção dos jovens com escolaridade significativamente atrasada face à idade possuída cai ainda mais: de 3.6% (em 2001) ela fixa-se agora nos 1.9%.

Por sua vez, aumentou a proporção de jovens que se encontram a frequentar níveis intermédios de ensino – 3º ciclo do ensino básico e ensino secundário. Nestes níveis concentram-se 60.0% dos que declararam estar a estudar em 2011 (contra 57.0% em 2001).

Já no que refere aos níveis mais elevados do ensino (ensino médio/pós-secundário e superior), verifica-se uma ligeira quebra na proporção: de 39.4% em 2001, passa para 38.2% dez anos mais tarde. A tendência para a constituição de dois pólos segregados – os que apresentam uma escolaridade "arrastada" (por força de repetências ou intermitências de entradas e saídas do sistema) e os que desenvolvem uma escolaridade sequencial, assente numa trajetória marcada por sucessos sucessivos – como é nítido em 2001, torna-se agora (2011) mais equilibrada, em termos de resultados e progressão escolar ao longo do sistema, no grupo dos que permanecem no ensino.

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Por sua vez, a população residente do mesmo grupo etário (15-29 anos) que já não se encontra a estudar à data censitária, apresenta um perfil contrastante entre o primeiro e o segundo ano considerado. Observando o gráfico 5 verifica-se que em 2001, a proporção dos que saem do sistema de ensino com baixas qualificações é relativamente elevada (34.6%), suplantando em mais do dobro os saídos do sistema com diplomação superior (13.3%). Em situação de diplomação intermédia (3º ciclo do básico e ensino secundário) estão 52.1% do total deste grupo.

Dez anos depois, os valores alteram-se significativamente: a proporção dos que saem com títulos escolares correspondentes ao 1º e ao 2º ciclos do ensino básico cai para menos de um terço (11.3%), ao passo que a proporção dos que obtiveram diplomação superior duplica (26.3%). O progresso ao nível da diplomação intermédia não deixa de se reforçar também, passando a proporção dos que a possuem, dos 52.1% registados em 2001, para 62.5%.

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A explicar (pelo menos em parte) este progresso está uma alteração ocorrida nos regimes de escolaridade obrigatória, com a passagem de 6 para 9 anos como patamar mínimo de estudos. Aos nascidos entre 1 de Janeiro de 1967 e 31 de Dezembro de 1980 aplica-se a obrigatoriedade escolar de 6 anos, correspondente ao diploma do 2º ciclo do ensino básico, o que produz certamente efeitos em 2001 a um subgrupo significativo deste escalão etário – o que se situa nas idades compreendidas entre os 20/21 anos até aos 29. Neste caso, a "norma" de escolaridade mínima fixa-se num nível rudimentar de ensino. Pelo contrário, em 2011 todos os membros do grupo etário juvenil (15-29 anos) encontram-se abrangidos por uma escolaridade mínima obrigatória de 9 anos, aplicada a todos aqueles nascidos a partir de 1 de Janeiro de 1981. Mesmo assim, como se sabe, tal não impede que o abandono escolar desqualificado (abandono da escola sem conclusão da escolaridade obrigatória) por parte de alguns jovens continue a fazer parte da paisagem educativa portuguesa.

E, mais uma vez, encontramos também aqui diferenças no interior deste grupo (gráfico 6). As raparigas tendem a sair mais tarde do sistema de ensino, munidas de melhor titulação do que os rapazes, o que representa uma constante em ambos os anos considerados. Se a diferença não é muito grande no que concerne os diplomas intermédios (3º ciclo e secundário), ela é significativa no caso dos pólos inferior e superior de diplomação. No primeiro caso, com diplomas mais rudimentares, pontuam os rapazes com uma distância de 5 pontos percentuais face às raparigas, tanto em 2001 como em 2011. Situação oposta verifica-se no segundo caso, em que as raparigas levam a dianteira com 8.5 pontos percentuais de avanço, em 2001, elevando-se a 13.6 pontos percentuais em 2011.


graf. 6 educacao





















Síntese Conclusiva


Um traço estruturante da evolução recente da população jovem portuguesa reside na sua notável progressão no sistema escolar. Os dados apurados atestam-no, inequivocamente. Neste período, não apenas se reforça a "alunização" dos jovens adolescentes – em 2011, eram já quase 84% os jovens com idades conpreendidas entre os 15 e os 19 anos que continuavam no sistema de ensino – como aumenta também, embora a menor ritmo, a proporção de estudantes entre os jovens dos escalões etários subsequentes. A este respeito observam-se, como vimos, variações de género: no espaço de uma década, as raparigas progridem mais no sistema de ensino. Não obstante, os progressos também verificados no masculino conseguiram atenuar as acentuadas disparidades escolares que, no início da década, separavam rapazes e raparigas.

Por sua vez, os progressos na escolaridade juvenil neste periodo são atestados, quer pela qualidade das trajectórias educativas ostentadas pelos jovens que ainda frequentam o sistema de ensino – diminuição dos percursos de "atraso" nos estudos face à idade ostentada, avanço para níveis subsequentes de ensino – quer, ainda, pela melhoria do perfil de diplomação obtida pela população juvenil que já não se encontra a estudar- redução drástica do abandono escolar desqualificado, reforço dos diplomas de escolaridade intermédia e avançada. Mais uma vez, neste caso também, as diferenças entre os dois sexos evidenciam-se neste período: as raparigas reforçam significativamente o seu investimento ao nível dos títulos escolares avançados (ensino médio, pós-secundário e superior), ao passo que os rapazes tendem mais a abandonar os estudos após completarem o 3º ciclo do ensino básico ou o ensino secundário.









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