OLHARES SOBRE JOVENS

Junho 2013 - Prevenção do bullying entre jovens

 

1 POR TODOS E TODOS POR 1! Prevenção do bullying entre jovens

Susana Carvalhosa (ISCTE-IUL)



Resumo

O principal objetivo da investigação desenvolvida é compreender os diferentes processos, características, contextos e dimensão temporal dos comportamentos de bullying, de acordo com o modelo bioecológico do desenvolvimento de Bronfenbrenner.

Os resultados suportam o modelo ecológico, uma vez que o bullying está associado a fatores de nível macro (PIB) e micro (suporte social), bem como pelo nível individual (bem-estar, empatia e auto-estima).

Pode-se concluir que quando se desenvolvem políticas e programas de prevenção do bullying entre jovens, é importante considerar a fase de desenvolvimento de um país, as relações com os pares, famílias e comunidades (escola e bairro), bem como o estilo de vida das pessoas envolvidas.



Introdução

O bullying é um comportamento agressivo, que acontece entre pares, a nível internacional, podendo ocorrer em diversos contextos, como a família, a escola, o local de trabalho, a casa, o bairro e mesmo o país.

As consequências, a curto e a longo prazo, do envolvimento, directo ou indirecto, em situações de bullying são negativas. Ao bullying estão associados problemas de saúde (mental e física), pois tanto o medo sentido pela vítima, como o abuso de poder praticado pelo agressor (designado de bully) vai interferir com o desenvolvimento das crianças e jovens. Mas o bullying é um fenómeno bastante complexo, com determinantes de diversos níveis, que contribuem para a ocorrência deste problema - individual, familiar, pares, escola, comunidade e sociedade.

O bullying na escola define-se do seguinte modo: um(a) aluno(a) está a ser vítima de bullying quando ele(a) está exposto(a), repetidamente e ao longo do tempo, a acções negativas da parte de uma ou mais pessoas (Olweus, 1993). Para qualquer situação poder ser designada de bullying, é necessário que estejam concomitantemente presentes os três critérios seguintes:

(1) a intencionalidade do comportamento - o comportamento tem um objectivo que é provocar mal-estar e ganhar controlo sobre outra pessoa;

(2) o comportamento é conduzido repetidamente e ao longo do tempo - este comportamento não ocorre ocasionalmente ou isoladamente, mas passa a ser crónico e regular; e,

(3) um desequilíbrio de poder é encontrado no centro da dinâmica do bullying - normalmente os agressores vêm as suas vítimas como um alvo fácil.


bullying fig1









Considera-se uma acção negativa quando alguém intencionalmente causa, ou tenta causar, danos ou mal-estar a outra pessoa. Esse repetido importunar pode ser (Carvalhosa, Moleiro, & Sales, 2009a):

• Físico – bater, lutar, dar pontapés, danificar pertences, forçar a dar dinheiro e extorsão;

• Verbal – dizer coisas desagradáveis, caluniar, chamar nomes;

• Social – ameaçar, arreliar, implicar, deixar deliberadamente um indivíduo fora de um grupo social, ignorar, ninguém falar com ele;

• Sexual – assédio, abuso; e /ou

• Virtual – através da utilização das tecnologias de informação e comunicação, como a internet e o telemóvel.

Assumindo que o bullying pode quebrar o nosso equilíbrio natural (ecologia), e que é possível preveni-lo, o presente trabalho foi desenvolvido de acordo com o modelo bioecológico do desenvolvimento humano (Bronfenbrenner, 2005). Analisou-se o Processo - a relação entre os jovens e diferentes configurações; a Pessoa - as diferenças entre vítimas, bullies, bully-vítimas (simultaneamente vítimas e bullies) e não-envolvidos (em termos de comportamentos individuais e percepções); o Contexto - familiares, colegas de escola (microssistema), as relações entre os diferentes microssistemas (mesossistema), a influência de indicadores macroeconômicos e culturas diferentes (macrossistema) e o Tempo - a influência de diferentes faixas etárias no processo de desenvolvimento (cronossistema).


bullying fig2




















Resultados principais...

A figura seguinte pretende enquadrar, através do modelo da pirâmide (Carvalhosa, Moleiro, & Sales, 2009b), os diferentes resultados que são divulgados, com bastante frequência, relativamente às situações de bullying ocorridas nas escolas Portuguesas. Os dados podem ir desde os números oficiais (topo da pirâmide) até aos casos reais de bullying em contexto escolar, que ainda se encontram por identificar (base da pirâmide). Os resultados que apresentamos nesta secção dizem respeito ao terceiro nível de identificação – número de situações de bullying conhecidas pelos membros da comunidade onde as crianças e os jovens vivem.


bullying fig3














... a nível individual...

Em diversos estudos realizados com amostras representativas da população escolar portuguesa, podemos verificar que 13% dos alunos adolescentes são vítimas, 5% referem ser bullies e 6% são bully-vítimas(Carvalhosa, 2008), os rapazes e os alunos mais novos envolvem-se mais frequentemente em situações de bullying (Carvalhosa, Lima, & Matos, 2001). Na mesma investigação, em 2008, constata-se que, em comparação com o grupo de alunos não-envolvidos, os que se envolvem em bullying apresentam níveis mais elevados de queixas subjetivas de saúde, níveis mais baixos de satisfação com a vida, mais lesões e uso de armas. Ainda, os bullies relatam mais comportamentos prejudiciais à saúde como o uso de tabaco, álcool e drogas, as vítimas relatam baixa felicidade e o grupo de bully-vítimas envolvem-se mais frequentemente em comportamentos agressivos, como lutas.

Relativamente à falta de empatia dos bullies, verificou-se uma associação negativa entre a componente afectiva da empatia e o grupo dos bullies (Carvalhos & Melo, em preparação). A exacta ou a moderada compreensão pelas crianças das emoções dos outros, bem como as suas respostas emocionais orientada para os outros, são provavelmente factores protectores essenciais contra o bullying.

Numa abordagem retrospetiva do bullying (Carvalhosa, 2011), as vítimas de bullying em contexto escolar, reportaram na idade adulta, menor auto-estima e níveis mais baixos de bem-estar subjectivo. Este estudo fornece evidências sobre os efeitos negativos do envolvimento em comportamentos de bullying escolar, para o bem-estar na idade adulta.

... a nível relacional...

Relativamente à percepção de suporte social, tanto fora como dentro da escola, existem diferenças entre os grupos envolvidos em bullying, quando comparados com os não-envolvidos (Carvalhosa, 2008). Assim, dentro da escola, as vítimas e os bully-vítimas relataram níveis mais baixos de suporte dos colegas de turma e os bullies recebem menor suporte dos professores. Fora da escola, as vítimas relataram níveis mais baixos de suporte de amigos e os bullies recebem menor suporte da família.

Numa comparação relativa à coesão do bairro onde moram (Carvalhosa, 2012), usando aqueles que não estão envolvidos em bullying, como o grupo de referência, as vítimas e aqueles que não estão envolvidos, mas que conhecem alguma vítima, percebem menor coesão do bairro. A coesão do bairro parece, assim, contribuir como protecção para o envolvimento em bullying. Deste modo, para melhorar a coesão do bairro, iniciativas que promovem a interação com os vizinhos são necessárias para prevenir situações de bullying.

... a nível societal

Por fim, foram identificadas variações consideráveis da frequência de bullying, entre diversos países. Com base em dados agregados para 29 países e regiões, uma curva em forma de U foi encontrada, como resultado da associação entre o produto interno bruto (PIB) e o bullying, para todas as faixas etárias (Carvalhosa, 2008). Os países com um PIB baixo e alto revelaram uma alta frequência de bullying e países com um PIB médio manifestaram uma menor prevalência de bullying, relatado tanto pelas vítimas como pelos bullies.


bullying fig 4





















Conclusões

Estes resultados sugerem que o envolvimento em bullying está associado a diversos factores, nomeadamente a auto-estima, a empatia e o bem-estar. As percepções dos jovens envolvidos em situações de bullying - vítimas, bullies e bully-vítimas - são distintos dos que não se envolvem neste tipo de comportamentos, em especial o suporte social da família, dos pares e na escola e a coesão do bairro em que moram. Também existe relação entre os fatores macroeconómicos, como o PIB, e o bullying.

Estes resultados suportam a hipótese de que o envolvimento em bullying vai prejudicar o desenvolvimento saudável dos jovens e o bom funcionamento da sociedade.

É importante, deste modo, desenvolver estratégias que possam prevenir o bullying. Garantir a validade ecológica e a potencial sustentabilidade dos programas de prevenção, parece ser extremamente importante (Carvalhosa et al., 2009a). A escola é considerada um ambiente particularmente importante para a implementação de abordagens sistemáticas, para prevenir o bullying, pois é um ambiente onde os jovens passam muito tempo e desenvolvem habilidades sociais e diversos tipos de relações. Além disso, a escola está numa posição privilegiada para iniciar a colaboração com os pais e com a comunidade local, que é determinante para o amplo impacto das estratégias de prevenção.

De qualquer modo, o desenvolvimento ecológico do mundo depende das decisões e ações tomadas não só pelas nações, mas também por indivíduos, famílias e organizações.

Desta forma, cada um de nós deve procurar na sua rede social (virtual ou presencial), ser um agente de mudança, ao ser um exemplo positivo para todos.

Daí, um por todos e todos por um! Ou seja, cada um de nós pelos outros e os outros por nós.


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Referências

Bronfenbrenner, U. (2005). Making human beings human: Bioecological perspectives on human development. British Journal of Developmental Psychology, 23(1), 143–151.

Carvalhosa, S. F. (2008). Prevention of bullying in schools: An ecological model. University of Bergen, Norway.

Carvalhosa, S. F. (2011). Retrospective school bullying and their long-term implications: A study of well-being in young adults. 15th European Conference on Developmental Psychology.

Carvalhosa, S. F. (2012). Neighbourhood cohesion and bullying behaviors: Psychological sense of community and neighboring prevent involvement in bullying? 4th International Conference of Community Psychology.

Carvalhosa, S. F., Lima, L., & Matos, M. G. (2001). Bullying – A provocação/vitimação entre pares no contexto escolar português. Análise Psicológica, 4(XIX), 523–537.

Carvalhosa, S. F., Moleiro, C., & Sales, C. (2009a). Vioence in Portuguese schools-National report. International Journal of Violence and School, 9, 57–78.

Carvalhosa, S. F., Moleiro, C., & Sales, C. (2009b). A situação do bullying nas escolas Portuguesas. Interacções, 13, 125–146.

Olweus, D. (1993). Bullying at school. Oxford e Cambridge: Blackwell.

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