OLHARES SOBRE JOVENS

Maio 2014 - A rarefação da população jovem portuguesa

 


A rarefação da população jovem portuguesa: uma análise a partir dos censos de 2011

Jussara Rowland (OPJ/ICS-UL)


A análise dos dados demográficos apurados no último recenseamento da população, em 2011 - e das estimativas demográficas e projeções que a partir dele foram atualizadas/criadas – permite cartografar com rigor as principais tendências de permanência e mudança ocorridas no espaço desta última década (tomando como referência comparativa os dados do recenseamento da população de 2001) e projectar alguns cenários sobre qual irá ser a evolução demográfica da popupulação jovem em Portugal ao longo dos próximos 50 anos.

As novas estimativas da população residente, atualizadas à luz dos resultados do último ato censitário de 2011, vêm introduzir uma nova tendência, uma vez que, entre 2010 e 2011, pela primeira vez desde os finais dos anos 80, verificou-se um decréscimo da população portuguesa, tendo esta perdido 30.323 habitantes. Este decréscimo deveu-se, por um lado, aos efeitos prolongados da diminuição das taxas de natalidade no nosso pais, mas também, por outro lado, ao impacto da crise económica, que veio fomentar novos fluxos de emigração da população portuguesa para o estrangeiro e redução no número de imigrantes em Portugal (Peixoto, 2013).

Em parte, esta recente alteração de tendência de crescimento da população residente (que entre 2001 e 2010 tinha continuado a aumentar, mesmo que de forma ténue) vem acompanhar um outro fenómeno já em curso desde meados da década de noventa do século passado: a progressiva e acelerada diminuição da população jovem nacional (Ferreira, Figueiredo e Lorga da Silva, 1999; Ferreira et al., 2006). Entre 2001 e 2011 essa tendência confirmou-se, tendo a população portuguesa entre os 15 e os 29 anos decrescido 21,3% (gráfico 1).

fig 1 dem




















Considerando a representatividade da população jovem no conjunto da população geral portuguesa, verifica-se que o seu peso tem vindo a diminuir de forma progressiva. Em 2001 a população entre os 15 e os 29 anos representava 21,7% da população portuguesa; em 2011 esse valor situava-se nos 16,8%, indicando um decréscimo de 4,9 valores percentuais (gráfico 2). Estes dados vêm confirmar não só a diminuição progressiva do peso relativo da população jovem no total da população, como o acentuar dessa tendência. Recorde-se que na década anterior, entre 1991 e 2001, o decréscimo do peso da população jovem sobre o total da população residente tinha sido de 2% (de 23.7% em 1991 para 21.7% em 2001) (Ferreira et al., 2006). Isso significa que em 20 anos, entre 1991 e 2011, os jovens deixaram de representar quase ¼ da população, para passar a representar apenas 1/6.

fig 2 dem





















Jovens e subgrupos etários


A evolução demográfica da população jovem por grupos etários (gráfico 3) revela uma tendência de decréscimo para todos os grupos etários. Mas com algumas especificidades: o grupo dos jovens entre 15-19, que durante a década de noventa tinha sofrido uma diminuição do índice de crescimento mais acelerada, em torno dos 22% (Ferreira et al., 2006), teve uma quebra menos acentuada entre 2001 e 2011, perto dos 17%. Os escalões etários superiores (jovens entre os 20 e 24 anos e entre os 25 e 29 anos) sofreram uma descida maior do índice de crescimento: 24,8% para o escalão 20-24 e 23,6% para o escalão 25-29. Estes valores significarão, para o caso dos jovens entre os 15 e os 19 anos, um ligeiro abrandamento dos efeitos da redução da taxa de fecundidade sobre esta faixa etária.

No caso dos jovens mais velhos, devemos ter em conta os efeitos recentes da crise económica no aumento da saída de jovens portugueses e estrangeiros de Portugal. De facto, entre 1991 e 2001, estes grupos etários tinham visto o seu índice de crescimento manter-se relativamente estável (no caso do escalão 20-24), ou aumentar (no caso do escalão 25-29), devido, provavelmente, ao saldo migratório positivo e ao aumento considerável da taxa de imigração de origem estrangeira, que compensou a quebra da natalidade (Peixoto, 2013). Os efeitos do saldo migratório sentem-se no sentido inverso entre 2001 e 2011, sobretudo a partir do final da década. De facto, com a crise económica, e o aumento da taxa de desemprego, não só o número de imigrantes permanente em Portugal tem vindo a diminuir, como as taxas de emigração da população portuguesa dispararam, criando assim uma situação de saldo migratório negativo em 2011 (INE, 2013). Estas alterações terão um impacto acentuado número de jovens (portugueses e estrangeiros) dos escalões etários mais velhos, muitos dos quais em processo de inserção no mercado de trabalho, ou em processo de definição dos seus percursos profissionais.

fig 3 dem





















Distribuição da população jovem pelo território nacional

A distribuição dos jovens pelo território português em 2011 não apresenta grandes variações face a 2001, mas vem confirmar a tendência do reforço da concentração de jovens em distritos marcadamente urbanos, como Lisboa ou Porto. Em 2011, 38.7% da população jovem portuguesa residia nestas duas regiões, valores que se mantiveram estáveis ao longo da primeira década do novo século.

Os distritos de Faro, Leiria, Setúbal e as regiões autónomas da Madeira e dos Açores foram os que, na última década, viram a sua representação no total da população jovem portuguesa aumentar. Na situação oposta estão os distritos de Coimbra, Vila Real, Viseu, Bragança, Castelo Branco e Aveiro (gráfico 4).

Apesar de as variações terem sido pequenas, estas vêm no entanto consolidar a tendência para a crescente urbanização e litoralização da população jovem portuguesa em curso desde pelo menos a década de 60 do século passado (Ferreira, Figueiredo e Lorga da Silva, 1999) – de facto, dos distritos do litoral, apenas Viana do Castelo e Aveiro viram a sua contribuição para a população jovem portuguesa diminuir.

fig 4 dem


































No que se refere à representação juvenil na população distrital, verificamos que o processo de envelhecimento da população em curso é generalizado e reflete-se em todas as zonas do país (gráfico 5). Alguns distritos evidenciam-se, no entanto, por apresentar um decréscimo do peso da população juvenil acima da média nacional (-0,3% entre 2001 e 2011): Faro, Coimbra, Lisboa, a Região Autónoma da Madeira e Castelo Branco são os distritos onde o quociente de população entre os 15 e os 29 anos no total da população do distrito mais decresceu. De notar que as zonas que melhor resistiram a esta tendência de diminuição do peso da população juvenil foram os distritos do interior norte de Portugal, nomeadamente Vila Real, Bragança, Guarda, Viseu, para além da Região Autónoma dos Açores e do distrito de Viana do Castelo.

A Região Autónoma dos Açores evidencia-se, também, por ser a zona do país onde a população juvenil tem um peso maior sobre a população local (21,6%), situação que se mantém desde 2001. Seguem-se-lhe a Região Autónoma da Madeira, Braga, Porto e Aveiro, todos com uma representação de jovens na sua população acima da média nacional (16,9% em 2011).

fig 5 dem


































Projeções da população jovem até 2060


Em relação às tendências futuras, a última projeção do Instituto Nacional de estatísticas, que têm por base as Estimativas Provisórias Anuais de população Residentes em Portugal em 31 de Dezembro de 2012, vem confirmar um cenário de decréscimo da população portuguesa e de envelhecimento da população ao longo das próximas décadas. Segundo o cenário central projetado a população geral portuguesa irá passar de 10,5 milhões de habitantes em 2012 para 8,6 milhões em 2060, o que representa um uma descida de 28,3% (gráfico 6). A população jovem mais uma vez apresenta decréscimo ainda mais acentuada na ordem dos 34,7%.

fig 6 dem






















O que a projeção nos indica é que a manterem-se as condições colocadas como hipótese no cenário central, o peso total da população jovem no total da população total portuguesa irá continuar a descer de forma regular ao longo das próximas décadas, estabilizando-se em torno dos 12% a partir de 2040 (gráfico 7). A diminuição drástica da população jovem e o aumento do peso das camadas populacionais mais idosas irá resultar num acentuado e continuado envelhecimento demográfico em Portugal.

fig 7 dem






















Síntese conclusiva

De forma geral os dados vêm confirmar um fenómeno já em curso desde meados da década de noventa do século passado: a progressiva e acelerada diminuição da população jovem nacional. Esta tendência confirmou-se nestes últimos censos, tendo a população portuguesa dos 15 aos 29 anos decrescido 21,3% entre 2001 e 2011. No mesmo sentido, assistimos à diminuição progressiva do peso da população jovem no conjunto da população geral portuguesa entre 2001 e 2011. Os jovens representam neste momento apenas 1/6 da população total geral.

Numa análise mais desagregada, verifica-se que a evolução demográfica da população jovem por grupos etários revela igualmente uma tendência de decréscimo para todos os grupos etários. Neste contexto, a forte quebra registada no índice de crescimento dos escalões entre 20 e 24 anos e entre 25 e 29 anos, poderá dever-se ao facto de possivelmente serem mais afetados pelos efeitos da crise económica na descida do saldo migratório do país. No que toca à distribuição dos jovens pelo território português, os censos de 2011 não apresentam grandes variações face aos de 2001, mas vêm confirmar tendências já em curso há algumas décadas, nomeadamente a consolidação da crescente urbanização e litoralização da população jovem e do processo generalizado de envelhecimento da população portuguesa em todas as zonas do país.

Finalmente, as novas projeções de população residente vêm confirmar que é espectável um cenário de ulterior decréscimo da população jovem portuguesa (e de envelhecimento da população) ao longo das próximas décadas, sendo colocada como hipótese, no cenário central, uma descida de 34,7% do total da população dos 15 aos 29 anos entre 2001 e 2060. Segundo os dados projectados, já a partir de 2040 os jovens representarão menos de 13% da população total em Portugal.




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Referências Bibliográficas

FERREIRA, V.S. (org.) (2006), A Condição Juvenil Portuguesa na Viragem do Milénio. Um Retrato Longitudinal através de Fontes Estatísticas Oficiais: 1990-2005. Lisboa: Instituto Português da Juventude.

FERREIRA, V.S., FIGUEIREDO, A.L., LORGA DA SILVA, C. (1999). Jovens em Portugal. Análise longitudinal de fontes estatísticas 1960-1997. Oeiras: Celta Editora.

PEIXOTO, J. (2013). Migrações. In CARDOSO J.L., MAGALHÃES P., PAIS J.M. Portugal de A a Z: Temas em Aberto. Lisboa: Expresso/ICS-UL, 2013.

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