OLHARES SOBRE JOVENS

Novembro 2011 - Sinistralidade Rodoviária

 


A sinistralidade rodoviária nos jovens




Os acidentes de viação são responsáveis, todos os anos, por mais de 1.3 milhões de mortes e cerca de 50 milhões de feridos em todo o mundo. Perante números tão dramáticos, a sinistralidade rodoviária constitui uma preocupação premente para todos, sendo mesmo, a par com a tuberculose e a malária, a principal causa de morte a nível mundial, e antecipando-se ainda um notório agravamento que até 2020 poderá vir a duplicar os índices de fatalidade nos países em desenvolvimento (IFRC, 2010).

Na União Europeia, o envolvimento em acidentes de viação constitui, na actualidade, a primeira causa de morte e internamento hospitalar por parte dos cidadãos com menos de 45 anos de idade. De facto, só no ano de 2008, a sinistralidade rodoviária foi a responsável directa pela perda de 39.000 vidas, sendo que os custos socioeconómicos a ela associados ascenderam aos 180 biliões de Euros (cerca de 2% do PIB da EU; Comissão Europeia, 2010).

Perante a inevitabilidade desta tragédia tem sido dada uma especial atenção à camada mais jovem da população, já que os subgrupos dos jovens e jovens adultos (dos 15 aos 44 anos) representam globalmente cerca de metade de todas as mortes por acidentes de viação (OMS, 2004). Seguindo uma tendência semelhante, em Portugal, como pode ser observado no quadro abaixo, os dados de sinistralidade (1995-2009) revelam que o grupo etário dos 15 aos 29 anos de idade representa cerca de 1/3 da sinistralidade rodoviária nacional).






















No nosso país, a batalha pela redução de vítimas na estrada tem tido um êxito particular, nomeadamente no escalão etário 15-29, onde se registou um acentuado decréscimo do número de vítimas rodoviárias, com especial destaque para o subgrupo dos 15 aos 19. Sabemos que uma grande parte desta redução se poderá dever a uma aposta em infra-estruturas rodoviárias que promovam uma separação física entre os vários utentes rodoviários (Meirinhos, 2011). Tememos porém que, sendo esta uma solução que não poderá vir a ser aplicada nos centros urbanos, se possa estar a hipotecar a qualidade de vida e a segurança não só das populações residentes, mas também dos milhares de utentes pedonais que diariamente ali interagem em meio rodoviário. Neste aspecto, será indiscutível que num universo rodoviário complexo os utentes mais jovens constituem um dos grupos mais vulneráveis (a par com os mais idosos) bem como, certamente, o grupo mais inexperiente (Meirinhos, 2010). Quer se trate de jovens peões, ou jovens condutores, a variável risco constitui uma forte determinante numa potencial situação de perigo. Perante uma equação já de si bastante instável existirão ainda outros factores determinantes da segurança rodoviária dos utentes mais jovens, nomeadamente a falta de experiência em meio rodoviário, a influência de comportamentos de pares e respectivas representações socioculturais associadas ao perigo e abuso de substâncias, bem como uma precoce maturação dos processos cognitivos de tomada de decisão.



























Na realidade, diferentes estudos têm vindo a realçar que a idade média identificada pela população mais jovem com o início do consumo abusivo de álcool ronda os 13.6 anos nos rapazes e 13.9 nas raparigas (OMS, 2007). As estatísticas são, no entanto, particularmente surpreendentes e preocupantes no que diz respeito ao acréscimo muito acentuado do número de vítimas do sexo feminino que se tem vindo a verificar nos últimos anos. Ainda que não se conheçam, de momento, as causas sócio-demográficas por detrás deste agravamento, tudo indica que possa estar relacionado com o aumento do consumo de álcool na população particularmente jovem, e em especial no sexo feminino. Certo é que uma em cada quatro mortes de jovens do sexo feminino (15-29 anos) na União Europeia estará correlacionada com o consumo de álcool, reflectida não apenas na ocorrência de acidentes de viação, mas também de homicídios e agressões diversas. Urge, consequentemente, a consciencialização da população, e em particular das suas camadas mais jovens, para este problema, pois, para ser eficaz, toda e qualquer política de actuação deverá necessariamente ser alicerçada num amplo conhecimento da realidade por parte daqueles que nela intervêm.

Victor Meirinhos (investigador do Cesnova-FCSH/UNL, professor e investigador do ICPOL/ISCPSI)



Referências

ANSR 2010 – Relatório de sinistralidade da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, disponível em http://www.ansr.pt/LinkClick.aspx?fileticket=NjkEYZKyDto%3d&tabid=315&mid=981&language=pt-PT

European Comission (2010). European Road Safety Action Programme 2011-2020, European Commission. Brussels.

IFRC, 2010 – Relatório de segurança rodoviária da International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies, disponível em http://www.ifrc.org/Global/Publications/disasters/appeals/MAA0003610p.pdf

Meirinhos, V. (2011). Risco e atribuição: representações dos atropelamentos em Lisboa.. Risco e Trauma nas Estradas Portuguesas. M. Ramos. Lisboa, Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados: 222.

OMS, 2007 – Relatório da Organização Mundial de Saúde intitulado “Youth and road safety”, disponível em http://whqlibdoc.who.int/publications/2007/9241595116_eng.pdf

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