OLHARES SOBRE JOVENS

Outubro 2013 - Portugal: Estação Mochileira

 

Ou...

Um convite para pensar as viagens para além das viagens


Igor Monteiro Silva


Vez por outra, elegemos (ou elas, por elas mesmas, simplesmente elegem-se!) canções para nossa vida. São misturas de ritmos, melodias, palavras e expressões que "ficam", que marcam determinadas experiências marcantes de nossa de trajectória. Quem nunca associou determinada passagem autobiográfica à certa música? Quem, em momento algum, não revisitou a memória a partir do estímulo provocado por uma canção que, despretenciosamente, tocava em um rádio qualquer? Pois bem, devo confessar que na minha vida tenho muitas companheiras musicais, mas uma – em especial – tem sido bastante insistente, ciumenta, possessiva... quase não deixando lugar para novos "horizontes auditivos", se é que isto é possível!

A canção em questão chama-se Encontros e Despedidas, composta pelos brasileiros Milton Nascimento e Fernando Brant no – não tão distante assim – ano de 1985. Como o título bem sugere, as "matérias" da composição são as experiências de chegada e partida, os encontros e desencontros plurais, de diversas naturezas, que ganham visibilidade em espaços privilegiados, como o da estação. Na estação, diz a música, "todos os dias é um vai e vem", tecido pelo deslocamento de "gente que vai pra nunca mais", de "gente que vem e quer voltar", de "gente que vai e quer ficar", de "gente que veio só olhar" e, igualmente, de "gente a sorrir e a chorar".

Desde que cheguei a Lisboa, no último mês de Julho, a "estação", ou melhor, as estações (Cais do Sodré, Santa Apolónia, Sete Rios, mas também o próprio Aeroporto da Portela), tomam grande parte de minha atenção. E o que vejo? "A vida [que] se repete na estação", como mais uma vez propõe Encontros e Despedidas: uma vida extremamente móvel, seja em termos de trabalho ou lazer, constituída por uma intensa dinâmica entre as "rotas" e as "raízes" dos sujeitos. E que sujeitos são esses? Qual a "gente" dessas estações? "Gente" múltipla: trabalhadores, migrantes e turistas, por exemplo. E são estes últimos que, especificamente, mais atraem o meu olhar. Turistas, mas não de qualquer "tipo"; turistas que, na maioria das vezes, nem se vêem propriamente como turistas!

Turismo(s) em Portugal

Considerando o cenário económico mundial, facilmente percebemos a posição de bastante destaque ocupada pelo turismo na actualidade. Segundo dados da Organização Mundial de Turismo (OMT), por exemplo, no ano de 2012 houve um crescimento de 4,0%, em relação ao ano de 2011, no que diz respeito ao número de "chegadas" de turistas internacionais, o que corresponde – ainda de acordo com a OMT – ao grande número de 39 milhões de turistas visitando as mais distintas partes do globo. Dentre os destinos preferidos para a visitação turística – é importante frisar –, a Europa apresenta-se como o mais escolhido, contando com 51,6% do total de "chegadas internacionais".

Itália e França, como é sabido, desde o Grand Tour – onde jovens europeus, sobretudo ingleses, durante os séculos XVIII e XIX, empreendiam uma série de viagens em busca da complementação de sua formação humanística –, figuram como duas das principais destinações na Europa. No entanto, o que vemos hoje em dia é o surgimento de novas paisagens para o estabelecimento da experiência turística e, nesse sentido, Portugal emerge como uma potência que merece total realce. Dados do Banco de Portugal, apenas para ilustrar a evidência do país no que tange ao citado contexto, atestam um aumento de 5,6%, em 2012 face a 2011, no que concerne às receitas dos negócios turísticos no país. "Trocando em miúdos", como se costuma falar no Brasil, Portugal obteve – em números absolutos – uma receita de 8.606 milhões de euros com a dinâmica do turismo no decorrer do último ano.

Justificativas para tal crescimento não podem faltar: o país investe no desenvolvimento de produtos turísticos variados, buscando explorar as distintas potencialidades nacionais; as diversas "vocações" para o negócio do turismo aqui, portanto, são aceitas e trabalhadas. Assim, "Sol e Mar", "Turismo de natureza", "Turismo náutico", "Turismo religioso" e "Turismo de negócios" indicam apenas algumas das dimensões que são objecto de reflexão e investimento constante. Não podendo ser esquecida, ainda, a importância advinda das disposições gastronómicas, culturais e paisagísticas do país. Contudo, Portugal também cresce em outro sentido, também abriga turistas, como disse, que preferem ser chamados, por exemplo, de viajantes, uma vez que parecem esforçar-se para se distanciar daquele tipo de viagem que é mediada por agências ou organizada rigidamente em termos de programação: os famosos pacotes turísticos.

Dizendo de outra maneira: sentado nos bancos das estações, vi – e todos podemos ver – a chegada, sobretudo no verão, de uma enormidade de sujeitos carregando imensas malas, já com câmeras em volta dos pescoços, sendo recebidos por empresas ou guias contratados. Mas se permanecemos em nossos bancos por um pouco mais de tempo, para além da espera de nosso transporte ou do próprio verão, nos depararemos – igualmente – com a chegada de outra enormidade de sujeitos: dessa vez, via de regra, esforçando-se por carregar grandes e pequenas mochilas, com cadernos e mapas abertos enquanto andam, sendo – talvez – recebidos por um colega daqui morador ou por outro viajante que por Portugal ainda está. Esse tipo de viajante, conhecido popular e sugestivamente como mochileiro ou backpacker, de forma incontestável, vêm constituindo-se como um importante componente do turismo não só em Portugal, bem como em outras tantas partes do mundo.

Definindo, brevemente, os mochileiros

E quem são esses tais mochileiros? Talvez a primeira constatação pareça bastante óbvia: são jovens, em sua maioria, com idades abaixo dos trinta anos. Embora possamos encontrar pessoas que empreendem este de tipo de viagem situadas nas mais diversas faixas etárias, é fato que uma soma considerável de mochileiros acaba de finalizar suas experiências educacionais, sejam as que dizem respeito especificamente aos períodos escolares, sejam aquelas que concernem mais directamente ao tempo vivido nas universidades. E o que faria essa maneira de viajar diferente das demais? Segundo muitos mochileiros, a experiência de viajar mediada por uma agência de turismo restringiria um certo ideal buscado em seus deslocamentos, o de liberdade. Ter uma agenda cheia, saber rigorosamente o que se vai fazer ou comer, para onde se vai sair, não manter contacto com a cultura do local que se visita, seriam exemplos de justificativas para evitar uma experiência turística nos moldes tradicionais: a agência contratada, a programação nas cidades visitadas já previamente estruturada, a utilização dos serviços de um guia.






















Outro factor de realce merecido é a disponibilidade que os mochileiros têm para estar em trânsito. Como estão vivendo períodos de transição – após suas experiências educacionais e, logicamente, antes de assumirem novos "papéis" (de universitários ou trabalhadores) –, a jornada tende a ser contabilizada mais em meses que em dias, como é comumente feita por aqueles que viajam apenas em seus períodos de férias. Essa possibilidade de ficar mais tempo viajando por diversos lugares, ou mesmo visitando um único lugar por uma temporalidade mais alargada, implica um outro factor distintivo: a possibilidade de se relacionar de forma mais próxima com as pessoas do lugar visitado. Sem a "correria" dos tours propostos pelas agências, desse modo, os sujeitos mochileiros podem buscar interacções com as comunidades locais, o que demanda mais tempo: conversar com as pessoas, procurar comida artesanal, conhecer lugares frequentados pelos moradores do lugar visitado etc.

Em resumo, sujeitos – em sua maioria – com menos de 30 anos, viajando por longos períodos, com maior disponibilidade de interacção com as dinâmicas locais, configuram um "segmento" de turismo que, notoriamente em Portugal, faz-se cada vez mais presente, podendo ser – inclusive – alinhado às demais preocupações no sentido de desenvolvimento do turismo no País. A Austrália, só à título de informação, deu-se conta de seu enorme potencial de atracção para o citado tipo de turismo e, desde meados dos anos 2000, assumiu uma política governamental de incentivo ao desenvolvimento de redes de recepção para o turismo mochileiro. Diante disso, entretanto, uma outra questão surge: o que os mochileiros vêem em Portugal? Por quais motivos o país cresce enquanto destinação privilegiada para este tipo de turismo?

Atractivos mochileiros em Portugal

Embora seja possível dizer que as viagens de hoje não tomam forma com as mesmas dificuldades de outrora, é importante admitir que o factor "dinheiro" ainda é bastante definidor de "como" se vai viajar e "para onde" se vai viajar. Essa preocupação ganha ainda mais corpo se, como dito, considerarmos que os sujeitos mochileiros são jovens recém-saídos de seus períodos escolares, ou seja: sujeitos que ainda não entraram ou não encontraram, em sentido geral, uma estabilidade no mercado de trabalho. Por isso, países tidos como "acessíveis" para os "bolsos jovens" têm preferência como destino, sendo Portugal um deles. Além disso, como afirma uma mochileira australiana de 22 anos, a "acessibilidade monetária" alia-se à uma património cultural ou arquitectónico de equivalente beleza no que se refere a outros lugares da europa:

"Lisboa, por exemplo, é linda. Estava em Londres e tudo me parecia um pouco caro! Tive a sorte de achar um vôo muito barato e vim para cá. A cidade parece ter uma história incrível, os prédios são bonitos, a arquitectura me atrai e aqui posso ter acomodação e comida mais acessível".
















































A fala da garota australiana ainda nos permite explorar um outro traço que faz com que Portugal seja constantemente visitado por mochileiros: a facilidade de aqui se chegar. Desse modo, a boa infra-estrutura de transportes permite não só acessos para quem é proveniente de outros países, mas possibilita ao sujeito que por aqui viaja a visitação de outras tantas regiões ou cidades do país. A qualidade dos transportes – no que respeita, sobretudo, à sua abrangência – é de forma recorrente, então, evocada como justificativa para se viajar pelo país. Interessante perceber que essa rede de transporte de qualidade reconhecida põe em visibilidade não apenas a capital Lisboa, mas diversas cidades de Portugal, como afirma uma jovem irlandesa de 25 anos:

"Tomei um vôo de Dublin para cá [cidade do Porto], estou aqui por 04 dias. Por trem e ônibus já visitei Braga e Guimarães, muito bonitas! Próxima semana vou para Lisboa, também dizem que é linda. Depois, ao Algarve e de lá para Espanha! Farei este último trecho de ônibus porque é mais barato, comprei com antecedência".

Um terceiro elemento comumente mencionado pelos mochileiros para a visitação de Portugal pode se dividir em três: clima, paisagem e festa. Alguns viajantes, nesse sentido, afirmam que um dos motivos para escolherem Portugal deve-se ao clima mais ameno da região se comparado aos invernos rigorosos do norte da Europa. Aqui, novamente, aparece como factor demandante de atenção a economia. Como no verão a tendência dos preços de acomodação, comida e passagens é subir, uma boa solução seria viajar fora dessa estação. Contudo, uma clima demasiadamente frio poderia, literalmente, "esfriar" os ânimos dos sujeitos em trânsito, algo que parece poder ser suavizado em Portugal. Assim, um constante fluxo de mochileiros costuma se fazer presente ainda durante o outono e, por vezes, até no inverno do país.

Portugal é um país plural em termos geográficos. Isso constitui-se como um importante factor de atracção para o turismo em geral, o que – claramente – não deixa de ser verdade no que tange ao turismo mochileiro. Essa possibilidade de frequentar várias paisagens em um mesmo deslocamento é, portanto, algo distintivo de Portugal na opinião de alguns mochileiros, como pode ser observado na fala de outro mochileiro australiano, de 28 anos:

"Eu sou um cara da costa, minha vida é perto do mar. Me encantei por Lisboa, mas sabia que também existia isso aqui para relaxar um pouco e praticar algum esporte [Algarve]. Aluguei uma bicicleta e uma prancha, passei bons dias aqui. Queria fazer uma trilha nessas por algumas dessas montanhas ou mesmo acampar".















































Fechando a citada tríade, a marcante presença de festivais e concertos ao longo de todo o ano, bem como a poderosa vida nocturna de Lisboa e de outras cidades portugueses, seduzem os jovens mochileiros ao ponto de, inclusive, muitos mudarem seus itinerários a partir de tais experiências de lazer. A festa, assim, é motivo de relaxamento de regras sociais, de celebração da vida fora das rotinas cotidianas e também possibilidade de se conhecer alguém, de partilhar momentos com pessoas novas, com "estranhos" que, por vezes, com sua presença mudam, como salientado, os percursos dos próprios viajantes. Diante disso, a fala de uma mochileira escocesa de 22 anos parece ser bastante significativa:

"Eu cheguei aqui [Lagos, Algarve] para me divertir, para relaxar, acabei o curso de medicina e aí vim! Adorei a cidade, pequena, mas com muitos bares, você fica em um bar, vem mais vezes e fica conhecido, todo mundo fala com você. Eu iria passar apenas 04 dias aqui, depois iria para a Sevilha, mas vai ficar para outra viagem... Ainda não sei quando vou embora!".

Preço, clima, história, geografia, vida nocturna... Tais elementos, presentes nos discursos reproduzidos, igualmente podem ser encontrados nas publicações turísticas ou nos programas televisivos que abordam a temática das viagens, o que indica, mais uma vez, o reconhecimento de Portugal enquanto país receptor desse tipo de turismo. Ainda como indício do crescimento de tal "nicho", pode ser notado um movimento do próprio mercado turístico – mais especificamente, das ofertas de acomodação – no sentido de se preocupar com esse perfil de viajantes. Para se ter ideia, Portugal vem se destacando ano após ano como um dos países que mais possui albergues (hostels) de alta qualidade, informação produzida pelos próprios mochileiros em sites, como o do The Hostelworld, que os auxilia em suas buscas por acomodação.

Se tomado, por fim, como uma espécie de "termómetro", o crescimento e a evidência experimentada pelos albergues de Portugal, que podem sintetizar a viagem mochileira (orçamento limitado, disposição para estar em trânsito durante um tempo considerável, abertura para a interacção com outros viajantes ou moradores locais, evitação da utilização de serviços de guias ou agências etc), indicam – como assinalado – mais uma variação da experiência turística que não pode deixar de ser considerada seja como "matéria" económica, política, cultural ou social.

Mochileiros e o mundo actual

Gostaria de finalizar esse texto dividindo algumas questões que surgiram no decorrer do meu trabalho de pesquisa junto aos mochileiros. Anunciando a minha intenção de outro modo, poderia partilhar a seguinte pergunta: "Sobre o que é possível pensar a partir das viagens mochileiras?"

Em um primeira aproximação, poderíamos dizer que ela, a viagem mochileira, é mais uma expressão do turismo e que por isso mesmo – bem como o turismo de aventura, o turismo religioso, o turismo de saúde, o turismo rural etc. – poderia ser objecto de atenção por parte dos sujeitos e entidades interessadas na reflexão e no desenvolvimento do turismo, em âmbito nacional ou internacional. Portanto, o primeiro dado é de ordem económica: longe de ser uma prática destinada aos sujeitos que pelo mundo andam, sem qualquer destino ou pretensão, os mochileiros, hoje em dia, configuram um segmento de mercado, como outras tantas formas de turismo.

Diante de outra abordagem, no entanto, poderíamos pensar, de forma mais detida, sobre os sujeitos que fazem as viagens mochileiras, os jovens. Por quais motivos, então, elas são empreendidas? Elas poderiam figurar como uma experiência de crescimento pessoal, onde a vida fora do familiar poderia contribuir para a aquisição de algumas habilidades que parecem não encontrar um lugar de desenvolvimento no seio do familiar, onde tudo "está em mãos". Essa é uma tese defendida por alguns estudiosos do turismo mochileiro, a de que a viagem poderia ser um instrumento de mudança pessoal.

Outra perspectiva, todavia, pode ser mobilizada a partir da ideia de que as viagens são apenas tentativas de retardamento da entrada dos sujeitos na vida adulta, na vida das "responsabilidades", como diriam alguns. Mas ainda assim, ainda como uma espécie de retardamento da entrada na vida adulta, a experiência de viagem não seria importante? Ela não poderia significar "espasmos de resistência" ou mesmo "tácticas" para se lidar com as pressões próprias da vida adulta ou do mercado de trabalho? Ainda nesse sentido, esse tempo viajando não poderia indicar o desejo de viver uma certa "liberdade" que é impossibilitada pelos valores das comunidades dos sujeitos, por suas famílias, pelas instituições que frequentam?

De "nicho" de mercado a ser explorado economicamente, passando pelos choques culturais e necessidade de independência que podem fazer os sujeitos tornarem-se mais "maduros", até a "recusa" de valores de suas comunidades de origem, são muitas as perguntas que nascem e é, justamente, este o objectivo do texto: mais que responder, partilhar perguntas, convidar-nos a um exercício colectivo de reflexão que pode ser resumido na afirmação de que, voltando ao tema que iniciou essa comunicação, uma estação é mais que um lugar de ir e vir; é um lugar de histórias cruzadas, de biografias reais, de experiências concretas de sujeitos no mundo e que, devido a isso, podem ser tomadas como elementos para se pensar o próprio mundo. "A vida se repete na estação", mais uma vez diz a canção. De que Portugal podemos falar? De que mundo podemos falar? De que vida podemos falar a partir da "estação"?




Notas:

1) Igor Monteiro é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Como bolsista CAPES, desenvolve estágio doutoral no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL), sob orientação do Professor Dr. José Machado Pais.

2) Todas as fotos presentes nesse texto, com a excepção da primeira e da quarta (por mim feitas), fazem parte do arquivo pessoal do mochileiro australiano Jason Di-Candillo, a quem agradeço – junto com sua companheira de vida e viagem, também australiana, Leah Davies –por toda a disponibilidade em colaborar não somente com a presente comunicação, mas também com a pesquisa que actualmente desenvolvo acerca da mesma temática no contexto de meu doutoramento em Sociologia.

































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