OLHARES SOBRE JOVENS

Outubro 2014 - Gestão da performance e culturas de risco

 


Gestão da performance e culturas de risco nos contextos juvenis



Elsa Pegado (CIES, ISCTE-IUL; ULHT)

Hélder Raposo (ESTeSL-IPL; CIES, ISCTE-IUL)

Noémia Lopes (Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz; CIES, ISCTE-IUL)

Telmo Clamote (CIES, ISCTE-IUL)

Carla Rodrigues (University of Amsterdam, UvA; CIES, ISCTE-IUL)


Introdução

O presente texto procura explorar as relações entre a gestão da performance – relativa ao desempenho neuro/cognitivo e/ou físico/corporal - e as culturas de risco nos contextos juvenis. Sendo esse desempenho moldado por diferentes imperativos em função dos quadros quotidianos em que os jovens se situam - como sejam os contextos académico e laboral -, procura-se perceber como a sua gestão se traduz em diferentes tipos de investimentos: não terapeuticalizados (a gestão do sono, a prática de actividade desportiva, etc.), ou terapeuticalizados (consumo de produtos terapêuticos, fármacos ou naturais).

No caso da gestão não terapeuticalizada, analisa-se o tipo de investimentos que, quer em termos discursivos, quer em termos de práticas, são valorizados pelos jovens para a gestão do seu desempenho.

No caso da gestão terapeuticalizada, analisa-se o modo como esta vai sendo operacionalizada e ponderada em função da avaliação dos seus riscos e da sua eficácia. Neste sentido, e para efeitos da compreensão das lógicas específicas que os indivíduos desenvolvem em relação a uma plêiade de recursos orientados para finalidades de gestão da performance, equaciona-se o modo como no âmbito dos contextos juvenis se podem constituir, e assumir significado, culturas de risco diversificadas. Estas são entendidas como o conjunto de práticas, concepções e de sentidos contextualmente partilhados relativamente, no caso em análise, à gestão da performance, particularmente através de consumos terapêuticos.

A análise tem como suporte empírico os resultados de um projecto de investigação recentemente concluído sobre consumos terapêuticos de performance na população jovem (18-29 anos) em Portugal1. A pesquisa assentou no recurso a métodos mistos, incluindo um inquérito por questionário aplicado a uma amostra de âmbito nacional (n=1483)2, abrangendo estudantes do ensino superior (70%), em diferentes áreas científicas – saúde, engenharia, ciências sociais e artes -, e trabalhadores sem formação académica superior (30%), em funções de atendimento ao público – call-centers e megastores -, seguido da realização de entrevistas semi-estruturadas a 43 jovens, seleccionados entre os que responderam ao inquérito3.


Contextos juvenis e imperativos de performance

A composição etária, qualificacional e de relação com o mercado de trabalho da amostra introduz a necessidade de perspectivar os jovens na sua relativa unidade geracional e na sua diversidade social e cultural, quer pelos diferentes níveis de escolaridade, quer pelos diversos contextos quotidianos em que se inserem, propiciadores de diferentes culturas académicas e profissionais, e de exigências de desempenho, também elas diversas. Se, por razões de economia de espaço, a comparação privilegiada neste texto é entre o contexto académico e o contexto laboral, tal não significa nem um olhar uniformizador sobre esses contextos (como se as exigências performativas fossem idênticas em cada um deles) nem reduzir as vivências juvenis à escola e ao trabalho, ignorando assim outros contextos que colocam outro tipo de exigências de performance (de que é exemplo a prática desportiva).

Para perceber, então, o lugar que a performance ocupa nos contextos juvenis, importa, em primeiro lugar, perceber quais as avaliações que os jovens fazem do seu próprio desempenho nos domínios considerados. Os indicadores que remetem para as auto-representações dos jovens revelam um padrão semelhante no que respeita à capacidade intelectual e de aprendizagem, e à imagem corporal, caracterizado por uma distribuição relativamente equitativa entre os que gostariam de melhorar e os que estão satisfeitos com esses aspectos, e uma percentagem bastante reduzida dos que declaram não se preocupar (Gráfico 1). Tal parece ser revelador de uma relativa equivalência das valorações atribuídas pelos jovens ao desempenho físico e ao cognitivo e, simultaneamente, uma avaliação em que a melhoria se coloca como um cenário desejável para um número muito significativo de jovens (cerca de metade dos inquiridos), o que permite salientar a relevância dessa melhoria no seu horizonte representacional. Salienta-se, contudo, o facto de os estudantes manifestarem menos satisfação com a capacidade intelectual e de aprendizagem (45,9%) e a declarar o desejo de melhoria (52,6%), enquanto na população laboral a distribuição é invertida (56,9% e 41,3%, respectivamente). Os níveis de satisfação com o desempenho cognitivo parecem, pois, revelar um forte enraizamento no contexto em que os jovens se movem, em que a frequência do ensino superior se constitui como um espaço e um tempo com exigências acrescidas a este nível.






















A exploração dos contextos quotidianos dos jovens através das entrevistas mostra como as características daqueles contextos remetem para exigências de performance particulares, sendo a principal clivagem entre o universo académico e o universo laboral. No caso dos jovens estudantes, as pressões acrescidas para atingir determinados níveis de desempenho, por um lado, tendem a estar associadas a momentos de transição nas trajectórias juvenis (exames no ensino secundário, acesso ao ensino superior, primeiro ano do curso), muitas vezes sentidas como processos de adaptação a contextos simbólica e materialmente distintos dos anteriores (como o excerto seguinte procura ilustrar), e, por outro lado, assumem um carácter pontual, delimitado a momentos que exigem capacidades de concentração e de resistência para estudar mais durante mais tempo (épocas de frequências e exames).


[Sobre o consumo do Centrum] Foi no 1º ano da faculdade. Quando não estava habituado aos professores. Na escola eu era o "X", agora aqui és um número e qualquer coisa. E não estamos habituados à diferença porque na escola secundária somos os meninos das professoras, temos todos os dias aulas com as mesmas professoras, sabem o nosso nome, sabem onde é que moramos, sabem o nome da nossa mãe. Agora aqui ninguém quer saber, somos mais um.

(E11, homem, 20 anos, estudante de Engenharia)


No âmbito do universo académico, destacam-se, pela sua especificidade, as áreas de formação artística, em que as exigências se alargam para além da capacidade de estudo, incluindo também o domínio do desempenho físico e corporal, quer por, em alguns casos, implicarem por si só uma performatividade corporal (expressiva e técnica), quer pelo facto de a performance artística ser submetida a escrutínio, quer pelos professores em momentos de avaliação académica, quer pelo público em geral, em momentos de apresentação pública. É também nestas áreas que mais se evidenciam os discursos sobre a necessidade de gerir os episódios de ansiedade associadas à prestação de provas, na medida em que podem comprometer fortemente os resultados. Veja-se, a este propósito, o modo como uma estudante de música dá conta deste tipo de pressões.


E um dos problemas que nós normalmente enfrentamos é: muitas vezes fazemos provas práticas e não conseguimos controlar a ansiedade ou os nervos, e isso pode-nos arruinar a prova toda, porque é uma performance física. E por exemplo, eu no meu caso, que sou uma pessoa muito ansiosa, costumo reparar que muitas das vezes se eu não tivesse metade da ansiedade que tenho, aquilo ia correr muito melhor, eu é que acabo por me stressar e acabo por estragar um pouco a minha performance.

(E13, mulher, 25 anos, estudante de Música)


No universo laboral, os imperativos de performance são distintos, estando associados à natureza das tarefas subjacentes aos tipos de actividade profissional abrangidos pelo estudo – atendimento ao público em call-centers e em megastores. Não sendo trabalhos particularmente exigentes do ponto de vista do esforço físico, as exigências remetem sobretudo para a necessidade de concentração e de controlo emocional na relação com os clientes, em especial no atendimento em call-centers. Nesta área de trabalho, os relatos dos entrevistados sobre os seus quotidianos laborais – os clientes "difíceis", a supervisão constante, a obrigatoriedade de cumprimentos de objectivos, etc. – são reveladores das fortes pressões emocionais a que muitos estão sujeitos.


É stressante porque é comunicação com... Tudo o que é aqueles trabalhos que envolvem comunicação com outras pessoas, nem todas as pessoas vão-lhe fazer uma vida fácil, não é? Há pessoas que vão tentar arranjar problemas onde eles não existem. Quando corre bem até nem é muito mau, mas há aquelas situações em que existe ali clientes que claramente querem ver, querem forçar ali o operador, querem...há aqueles clientes mais implicativos e que querem prejudicar, eles sabem que nós não podemos fazer certas e determinadas coisas e tentam testar os limites, portanto... E há dias que é algo stressante. E depois também existe os objectivos, tem que se fazer determinadas chamadas por hora, e depois é o cliente a não desligar, e ver as horas a passar, e o colega ao lado está a conseguir e o outro não está a conseguir.

(E39, homem, 25 anos, trabalhador de call-center)



A gestão não terapeuticalizada da performance

No que respeita aos investimentos não terapeuticalizados, a actividade física e desportiva e o sono constituem as principais ferramentas mobilizadas para a gestão do desempenho. Não só são discursivamente objecto de uma forte valorização por parte da generalidade dos jovens – de forma relativamente transversal aos diferentes contextos -, como, em termos de práticas, são investidas, em muitos casos, de finalidades que ultrapassam uma lógica meramente higienista, reprodutora do discurso público sobre a saúde que enfatiza a adopção dos chamados "estilos de vida saudáveis". Trata-se de formas de gestão da performance que emergem, nos discursos de alguns dos jovens entrevistados, como alternativas reflexivamente orientadas para a optimização do desempenho, sobretudo no plano neuro/cognitivo, mais valorizado discursivamente do que o desempenho físico/corporal.


Os exercícios de yoga e pilates são exercícios que também relaxam. Portanto, eu trabalho com o público, atendimento ao público diariamente. E não é fácil. E essas actividades ajudam bastante... A manter os níveis de stress um bocadinho mais baixos.

(E7, mulher, 27 anos, trabalhadora de megastore)


Geralmente, eu já tenho o meu sistema das 76 horas que é, três dias antes para o exame, durmo oito horas no dia, depois estou acordado o máximo de tempo que consigo e depois um dia e meio antes durmo a sesta da tarde e acordo, durmo ali 4 ou 5 horas aquela hora, acordo para a noite e depois deito-me outra vez às 5 da manhã e durmo 3 ou 4 horas antes do exame.

(E31, homem, 20 anos, estudante de Ciências Farmacêuticas)


Os discursos dos jovens revelam, pois, uma considerável permeabilidade à ideia de gestão da performance, cujo alcance, no plano das concepções, é remetido sobretudo para investimentos não terapeuticalizados. Tal não significa que, no plano das práticas e disposições, se rejeitem os consumos medicamentosos como forma de gerir a performance, nem tampouco que os dois tipos de investimentos se excluam mutuamente, como se verá de seguida. Efectivamente, quer a prática desportiva, quer o sono, são eles próprios também objectos de formas de gestão terapeuticalizada, traduzidas no consumo de medicamentos direccionados para a sua optimização.


Os escalonamentos do risco e as práticas de consumo

No caso específico da gestão terapeuticalizada do desempenho, um primeiro elemento que importa destacar diz respeito à expressão das práticas de consumo terapêutico nos segmentos juvenis analisados. De facto, no âmbito da amostra em estudo, 71,9% dos inquiridos já tinham consumido algum tipo de recurso terapêutico para finalidades de gestão ou melhoria do seu desempenho, o que constitui um elemento sugestivo do papel que estas práticas de consumo vêm assumindo nos investimentos que são realizados para a gestão da performance.

De entre estas práticas, e conforme se pode verificar no gráfico 2, os tipos de consumo que acabam por ter uma maior expressão são aqueles que dizem respeito às finalidades neuro-cognitivas, particularmente para a "concentração" e para "descontrair/acalmar". Já no plano dos consumos para finalidades físico-corporais a sua expressão é mais diminuta, e os recursos (tanto fármacos como produtos naturais) que mais se destacam são os que se referem à finalidade da "energia física". No caso dos consumos neuro-cognitivos, estes tendem a assumir maior centralidade no segmento da população estudantil (designadamente para finalidades de desempenho escolar), ao passo que os consumos físico-corporais acabam por assumir uma maior expressão no segmento da população trabalhadora, particularmente devido a preocupações estéticas, mas também devido à declarada necessidade de melhorar a capacidade de resposta às exigências diárias da vida profissional.


























Nas circunstâncias em que os investimentos para lidar com os diferentes imperativos contextuais conduzem a uma gestão terapeuticalizada, como é que os indivíduos avaliam os riscos e a eficácia dos recursos terapêuticos, e quais as suas estratégias e modalidades de gestão prática desses riscos?

Começando por aferir os escalonamentos de risco atribuídos aos diferentes consumos (tabela 1) para finalidades de melhoria do desempenho, verificam-se, desde logo, duas diferenças bastante notórias. Por um lado, as médias mais elevadas recaem nos recursos para finalidades físico-corporais, ou seja, precisamente os que são objecto de níveis menos acentuados de consumo. Por outro lado, configura-se uma nítida clivagem entre os recursos terapêuticos em função da sua natureza, ou seja, em função de serem fármacos ou produtos naturais.


























No caso dos produtos naturais, tende a prevalecer um estatuto de maior inocuidade, o que não significa que a ideia do natural não suscite igualmente alguma ambiguidade quanto ao seu estatuto terapêutico. As duas únicas excepções a esta tendencial diferenciação dizem respeito aos produtos naturais para "aumentar a massa muscular" (com uma média de 3,44), assim como aos "fármacos para a concentração" (com uma média de 2,90), casos em que tende a prevalecer o critério da finalidade do produto face ao critério da natureza do mesmo.

Já quando se analisam as distribuições destes mesmos escalonamentos de risco tendo em linha de conta as diferenciações que se configuram entre os segmentos da população jovem estudantil ou trabalhadora, verifica-se que assume uma relativa expressão um padrão em que o risco atribuído aos consumos associados às finalidades de gestão do desempenho neuro/cognitivo é mais elevado na população laboral relativamente à população estudantil, ao passo que no caso dos consumos mais ligados às finalidades de gestão do desempenho físico/corporal, a atribuição de risco é genericamente superior nos jovens estudantes, com a excepção dos fármacos e produtos naturais para "aumentar a energia física".


Estratégias de controlo prático do risco na gestão da performance

No quadro da gestão terapeuticalizada do desempenho, que estratégias e formas de gestão do risco e da eficácia se desenvolvem no âmbito das experiências de consumo? Que critérios e soluções são, enfim, mobilizados para essas formas de gestão e que tipo de (in)disponibilidade se vai, assim, construindo para o investimento e para a eventual experimentação, em alternância, combinação ou em exclusivo, de práticas de índole terapeuticalizada ou não terapeuticalizada?

Tendo como base as narrativas dos entrevistados acerca das suas trajectórias e experiências de consumos de performance, é possível destacar duas lógicas principais de controlo prático do risco. Uma delas é aqui designada como instrumentalidade calculada, e por esta categoria pretende-se salientar a existência de uma disponibilidade para alguns investimentos concretos, mas mediados por uma concepção pragmática em que o risco é calculado e assumido como controlado. O facto de se tratar de investimentos que tendem a ser coincidentes com a temporalidade dos objectivos a alcançar, acaba por dar lugar a práticas de consumo que vão sendo geridas de forma circunstancial. A outra lógica de controlo do risco é aqui designada de voluntarismo experiencial, e remete sobretudo para a valorização positiva de formas de investimento que, ao visar resultados e benefícios específicos e significativos para os indivíduos, passam por assumir riscos voluntários, por vezes activamente cultivados.

Para ilustrar a primeira das lógicas identificadas, o excerto seguinte dá uma imagem elucidativa. O teor da narrativa faz salientar a ideia de que embora seja valorizada a prática higienista do sono como um recurso fundamental para o desempenho académico, esta acaba por ser pragmaticamente optimizada através de um equilíbrio ecléctico com alguns investimentos terapêuticos. É ainda bastante notória a importância da temporalidade e da regularidade dos consumos como uma estratégia de controlo do risco e de procura da eficácia para o resultado pretendido:



Basta um ou dois comprimidos de Valdispert, é o suficiente para me fazer mesmo bastante efeito e durmo a noite seguida. (...) [E. Diz-me que o Valdispert não tem esse efeito (de habituação). Mas tem outros?] (...) o extracto que é feito por si só não é muito propício a causar dependência e a quantidade em que se toma e o método que eu estou a utilizar de utilização, que é basicamente uma toma esporádica, não vai causar esse efeito. Se fosse rotineiro, diariamente, dois, três comprimidos, e começasse a notar que já não iam fazendo efeito, já começava a ter dependência desse medicamento.

(E27, homem, 21 anos, estudante de Medicina)


Relativamente à lógica do voluntarismo experiencial, o excerto seguinte não só dá uma ilustração do que está subjacente nesta lógica específica, como deixa bem evidenciada a ideia de que tende a afirmar-se como um dos critérios primaciais das práticas de consumo a importância da eficácia, ou seja, o modo como a concretização de determinados objectivos se afiguram suficientemente persuasivos para que os indivíduos optem entre riscos (entre os riscos decorrentes do consumo ou o risco de incumprir com as metas de performance a que os indivíduos estão subjectivamente vinculados). Tal significa, portanto, que nas situações em que prevalece o primado da eficácia tende a verificar-se uma valorização dos resultados que se esperam obter, principalmente se forem rápidos ou imediatos. Em circunstâncias destas, o risco tende a ser subjectivamente desvalorizado, em benefício dos resultados. Tal é bem patente neste exemplo da valorização do desempenho recreativo, que suscita uma opção entre riscos, racionalizada por comparação com outros consumos, em função da sua temporalidade:


Acho que é um pouco àquilo que nós nos propomos, não é? Eu sei que o RedBull faz mal com álcool mas naquele momento sinto que preciso daquilo para pelo menos aguentar aquela noite porque estou muito cansada e de certeza... Eu se não... Mesmo só com bebida vou acabar por me deixar dormir, se calhar. Por isso, acabo por sentir necessidade de meter uma grande quantidade de cafeína ou de energia, ou seja o que for, mas no entanto... Eu não bebo café, e portanto, acabo por recorrer ao RedBull. É um risco que eu se calhar naquele momento não me importo de correr, mas também se houver algum problema, parece que é um risco momentâneo, enquanto no caso de passar x de tempo a tomar uns comprimidos e a pôr aquilo para dentro do meu corpo, se calhar, o risco a longo prazo pode ser pior. Pode ser um cancro, pode ser uma coisa que normalmente está associada a doenças que a pessoa vai definhando, não é imediato.

(E13, mulher, 25 anos, estudante de Música)



Síntese conclusiva

Tal como foi possível verificar, embora os diferentes investimentos que tendem a ser mobilizados para a gestão da performance possam remeter para opções de índole ora não terapeuticalizada ora terapeuticalizada, há, com efeito, várias intersecções entre elas, que colocam em evidência a lógica ecléctica desses mesmos investimentos. Significa, pois, que a adesão normativa a um discurso que valoriza práticas higienistas de gestão do desempenho nos quotidianos juvenis não se traduz necessariamente na rejeição de consumos terapêuticos, cuja opção vai sendo moldada combinando critérios de risco e de eficácia. Assim, e em lugar de uma leitura essencialista sobre o risco, adquire, em alternativa, uma redobrada pertinência a observação do seu carácter contingente, bem como das formas de gestão que este suscita.

Nesta medida, a exploração da pluralidade de entendimentos relativamente ao modo como os indivíduos dão sentido aos riscos e tomam as suas decisões no quadro das experiências diárias e circunstâncias biográficas que pautam os seus contextos específicos, chama a atenção para o facto de que a relação com o risco não é passível de ser encapsulada por um entendimento monolítico. Se é certo que o risco não é algo que seja obrigatoriamente problemático nos diversos contextos juvenis, tal não pressupõe, todavia, que a relação dos jovens com estes investimentos para a performance se esgote numa postura voluntarista de ampla experimentação em busca de resultados ou num simples alheamento face ao reconhecimento e ponderação dos riscos das diversas opções.

Por esta razão, mais do que presumir uma simples desconexão dos jovens relativamente à percepção e ponderação dos riscos dos consumos de performance, importa não negligenciar o desenvolvimento de práticas diversas de investimento activo em que muitas vezes, e de forma aparentemente paradoxal, os riscos, mais do que poderem ser cognitivamente percebidos, são assumidos como voluntários ou mesmo cultivados, pelo que o seu reconhecimento está longe de se traduzir num factor impeditivo de práticas de consumo. De resto, e em matéria de consumos medicamentosos para a performance, o risco revela-se como matéria contingente de diferentes possibilidades e estratégias de gestão. Convirá, pois, manter essa plasticidade em mente na análise da forma como a premência de imperativos de performance em diferentes contextos pode ir produzindo formas sociais de gestão da mesma razoavelmente díspares, para lá de imaginários mais homogeneizadores da "juventude".


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Notas:

1 O projecto "Consumos terapêuticos de performance na população jovem: trajectórias e redes de informação", financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (PTDC/CS-SOC/118073/2010), foi desenvolvido no quadro do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (CIES-IUL), em parceria com o Centro de Investigação Interdisciplinar Egas Moniz (CiiEM).

2 A análise estatística do conjunto dos dados resultantes da aplicação do inquérito por questionário pode ser consultada em: Lopes, Noémia et al. (2014), Relatório Estatístico - Consumos terapêuticos de performance na população jovem, CIES‐IUL.

3 Para uma análise dos consumos de performance e culturas terapêuticas juvenis, com base nos resultados do projecto, cf. Lopes, Noémia, Telmo Clamote, Hélder Raposo, Elsa Pegado and Carla Rodrigues, Medications, youth therapeutic cultures and performance consumptions: A sociological approach, Health (London) published online 19 October 2014, DOI: 10.1177/1363459314554317.

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