OLHARES SOBRE JOVENS

Setembro 2012 - Os Jovens e a Religião

 


José Maria Pereira Coutinho (ISCTE-IUL)


O século XX português ficou marcado por grandes mudanças sociais. As migrações internas das populações rurais do interior para o litoral, e principalmente para a Grande Lisboa e para o Grande Porto, trouxeram consequências evidentes nos costumes populares. Ao mesmo tempo, a passagem do regime autoritário do Estado Novo para a democracia vinda da Revolução de 74 conduziu à liberalização dos costumes, processo anteriormente acelerado pelo Maio de 1968 francês. O êxodo rural levou ao anonimato urbano e à erosão das estruturas comunitárias aldeãs, cujo papel de controlo social e de vigilância dos comportamentos individuais, se esfumou na ida para a cidade. A libertação do peso da tradição ancestral e a oferta diversa de conteúdos do mundo urbano chocaram-se com o condicionamento rural. A cidade apareceu ao migrante como a terra prometida, a salvação eterna no além da morte ruiu, passando a salvação a ser aqui e agora. Por seu lado, 74 possibilitou a transformação legislativa de vontades potenciais em comportamentos reais. Ao longo das últimas décadas observámos a modificação de uma sociedade altamente marcada pela ruralidade para uma sociedade assinalada pela modernidade, pelo distanciamento em relação à tradição. Sinal distinto desta é a ligação à Igreja católica, instituição matricial da cultura portuguesa. Nestes últimos anos, vemos os comportamentos individuais afastarem-se da autoridade religiosa católica, em aspectos como o casamento e a sexualidade: os casamentos civis, os divórcios, as coabitações e o uso de contraceptivos aumentam. Paralelamente as crenças e as práticas católicas vão diminuindo junto da população, principalmente nos jovens, podendo afirmar-se que a religiosidade vai progressivamente ampliando-se com a idade. Ao mesmo tempo, a abertura do mercado religioso e a disseminação das tecnologias de informação, nomeadamente junto dos jovens, possibilitaram a expansão dos conteúdos religiosos disponíveis. A religião passou a ser feita à carta, ou seja, ao gosto do consumidor religioso, indo buscar crenças e práticas, não só à tradição religiosa, mas também a outras religiões ou sistemas filosóficos. Olhando para esta mudança social e cultural com repercussões claras na religiosidade, efectuei um estudo junto de 500 jovens universitários das universidades públicas de Lisboa (ISCTE-IUL, UL, UNL e UTL), analisando, entre outros aspectos, crenças e práticas católicas e não católicas. São alguns resultados deste estudo que irei apresentar agora.

O primeiro resultado apresentado é a forma como os jovens representam ou concebem Deus. O quadro 1 mostra a existência de 12.4% de ateus e de 16% de agnósticos. Dos que acreditam em Deus (66.8%), destaca-se a alternativa 'É algum tipo de poder superior a nós', com 25%, tendo as restantes valores próximos, excepto a concepção 'É o que há de positivo no homem e na mulher'. As concepções mais próximas da doutrina católica são 'É um Deus pessoal' e 'É algum tipo de poder superior a nós', principalmente a primeira.






















Na figura 1 encontram-se crenças católicas e não católicas. Das crenças católicas destacam-se com mais respostas positivas a crença no papa como sucessor de São Pedro e chefe da Igreja (sucessão papal), com 36.6%, a crença no pecado, com 36%, a crença no céu, com 34.6%, e a crença na vida após a morte, com 33.8%. Das crenças não católicas demarca-se a crença na sorte/destino, com 57.6%. Refira-se que a percentagem de não respostas (NS/NR) foi muito elevada, variando entre 10% (sorte/destino) e 20.8% (vida após a morte).























Das práticas católicas menciono as mais relevantes: frequência de missa, de confissão, de comunhão e de oração (figura 2). A missa tem aderência fraca, havendo somente 10.6% dos inquiridos que vão à missa, pelo menos uma vez por semana, sendo os que vão no máximo duas vezes por ano igual a 69.8%. A confissão ainda tem adesão mais fraca; há 94.6% que a realizam no máximo duas vezes por ano, do qual 68.2% nunca o fazem. A comunhão tem também aderência muito baixa, com 80.8% que a fazem no máximo duas vezes por ano, do qual 65.2% nunca a realizam. A oração poderá ser interpretada não somente como prática estritamente católica, uma vez que todas as pessoas o poderão realizar. A sua prática é mais frequente do que as restantes, havendo 12.6% que o fazem diariamente, 10.2% mais do que uma vez por semana, havendo 28% que a efectuam pelo menos uma vez por semana e 57.6% que a realizam no máximo duas vezes por ano. Em suma, a missa e a oração são práticas mais realizadas do que a confissão e a comunhão, estando as medianas1 daquelas em 'menos vezes' e destas em 'nunca'.























As práticas não católicas não apresentam valores interessantes para analisar, uma vez que a sua frequência é muito baixa (figura 3). Somente a meditação e a leitura de horóscopo mostram valores com alguma substância. A meditação pode ser interpretada de forma diversa, quer na perspectiva católica, quer na não católica, como a transcendental. Também pode ser vista como introspecção ou pensamento mais demorado e focalizado; assim, é mais difícil retirar algumas conclusões. Em relação ao horóscopo, as respostas mostram que os inquiridos a praticam com alguma regularidade. Todas as práticas têm a mediana em 'nunca' com excepção de leitura do horóscopo que a tem em 'menos vezes'.






















Dos resultados apresentados pode concluir-se que a amostra estudada (jovens estudantes das universidades públicas de Lisboa) está afastada das crenças e das práticas católicas, mas também das crenças e das práticas não católicas. Estes dados parecem demonstrar a teoria da secularização, de que as crenças e as práticas religiosas diminuem com o avanço da modernidade. Contudo, a teoria da individualização, de que as recomposições religiosas aumentam com a modernidade, não pode ser confirmada, pois os resultados das crenças e das práticas não católicas não são suficientemente fortes para o fazer.


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NOTAS:


1 A mediana ou percentil 50 é uma estatística usada para variáveis com escalas ordinais. Significa onde se encontra 50% das respostas, equivalendo à média das variáveis com escalas quantitativas. Neste caso, a mediana da missa/oração ao encontrar-se em 'menos vezes' significa que metade (50%) dos jovens inquiridos vai à missa ou reza menos vezes do que no Natal/Páscoa ou nunca o faz. A mediana da confissão/comunhão ao estar em 'nunca' significa que metade dos jovens inquiridos nunca se confessa ou comunga.






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